A segunda-feira em São Paulo não pedia licença; ela simplesmente atropelava. Para Sofia, isso era um alívio. O caos urbano era o ruído branco que ela usava para abafar os ecos daquela Bíblia empoeirada e do choro da madrugada de sábado.
Ela cruzou o lobby da “Castello & Vandyke” com a postura de uma rainha espartana. O som dos seus saltos agulha contra o mármore soava como uma contagem regressiva. Ela vestia um terninho de corte impecável em azul-marinho, quase preto. Era sua armadura.
— Bom dia, Srta. Castello. O Sr. Vandyke já está na sala de reuniões com o novo supervisor — anunciou a secretária, sem ousar desviar os olhos da tela. Todos na firma sabiam que, nas manhãs de segunda, Sofia Castello não aceitava nada menos que a perfeição absoluta.
Sofia apenas assentiu, sentindo um nó se formar no seu estômago. “Daniel Verara”. O nome tinha ressoado em sua mente durante todo o domingo como um sino de igreja batendo fora de hora.
Ao abrir a porta de vidro temperado da sala de conferências, a primeira coisa que sentiu não foi o cheiro de café expresso caro, mas uma mudança na pressão atmosférica da sala. Eric estava sentado à cabeceira, relaxado, com o seu sorriso de um milhão de dólares. À sua frente, de costas para a porta, estava um homem.
Ele não usava um terno de grife. Vestia uma camisa de brim azul bem passada e mangas dobradas até os antebraços, revelando mãos que pareciam saber tanto de cálculos quanto de trabalho pesado.
— Ah, aqui está ela! — Eric exclamou, levantando-se. — Sofia, conheça Daniel Verara. O homem que vai garantir que o seu novo museu em Connecticut não apenas ganhe prêmios, mas que permaneça de pé por cem anos.
Daniel se levantou. Ele era mais alto do que a Sofia imaginara. Quando ele se virou, ela se preparou para o impacto de um olhar inquisidor ou, pior, de uma admiração vazia. Em vez disso, encontrou olhos que pareciam... calmos. Uma calma que ela não via desde que deixara a sua terra natal. Uma calma que a ofendia profundamente.
— É um prazer, Srta. Castello — Daniel disse, estendendo a mão. Sua voz era um barítono suave, sem a pressa ou a ansiedade que caracterizavam todos naquela cidade.
Sofia olhou para a mão dele por um segundo a mais do que o socialmente aceitável. Quando finalmente a apertou, sentiu a firmeza de quem tem um fundamento.
— Prazer — mentiu ela, retirando a mão rapidamente. — Espero que seu currículo seja tão sólido quanto as promessas do Eric, Sr. Verara. Este projeto é delicado. Estamos lidando com ângulos que desafiam a física tradicional.
Daniel deu um meio sorriso. Não era um sorriso de deboche, mas de quem entendia algo que ela não entendia.
— A física é apenas a maneira como Deus organiza o caos, Srta. Castello. Se respeitarmos as leis da gravidade, ela trabalhará a nosso favor, não contra nós.
O coração de Sofia deu um solavanco. “Deus”. Ele tinha usado a palavra "D". Ali, no meio de uma reunião de negócios, com a naturalidade de quem fala sobre o tempo. Ela viu Eric arquear uma sobrancelha, achando graça, mas o sangue de Sofia começou a ferver.
— Na Castello & Vandyke, trabalhamos com cálculos e estética, Sr. Verara — ela retrucou, a voz fria como o gelo que cobria o Central Park. — Deixamos a teologia para os domingos. E, de preferência, para bem longe deste escritório.
O silêncio que se seguiu foi denso. Eric pigarreou, sentindo a tensão.
— Bom, Daniel tem uma reputação impecável na reconstrução de marcos históricos na Europa. Ele entende de estruturas antigas e como integrá-las ao moderno. É exatamente o que precisamos para o conceito do Museu da Memória.
Sofia abriu a pasta de couro, ignorando o comentário.
— Vamos ao que interessa. Daniel, as plantas do subsolo apresentam um problema de infiltração devido à proximidade com o lençol freático. Eu quero uma solução que não altere a estética da fachada de vidro.
Daniel inclinou-se sobre a mesa, analisando os desenhos. Enquanto ele falava sobre polímeros e drenagem profunda, Sofia se viu observando-o. Havia algo nele que a irritava porque a lembrava de algo perdido. Ele não parecia estar tentando provar nada a ninguém. Enquanto todos naquele prédio respiravam ambição e medo de fracassar, Daniel respirava como se tivesse todo o tempo do mundo. Como se soubesse que, independentemente do sucesso do museu, sua vida estava segura.
Era a paz de quem é amado. E Sofia reconhecia aquela paz — era a mesma que ela vira no rosto da sua avó, e a mesma que ela mesma sentia antes de os homens da religião lhe dizerem que ela era indigna dela.
— Srta. Castello? — Daniel a chamou, trazendo-a de volta. — Concorda com a mudança no reforço das sapatas?
— Faça o que for necessário para a segurança, desde que não toque na estética — ela respondeu, fechando a pasta com um estalo seco. — Por hoje é só. Eric, preciso de você na minha sala para discutir o contrato de Chicago.
Daniel recolheu suas coisas. Antes de sair, ele parou e olhou para uma pequena maquete de cristal sobre a mesa — um projeto antigo de Sofia.
— É um belo desenho — ele comentou baixinho. — Tem luz por todos os lados. Mas a luz só é bonita porque existe o lugar para onde ela volta, não é?
Sofia congelou.
— O que quer dizer com isso?
Daniel olhou para ela, e por um instante, a máscara de Sofia fraquejou.
— No Evangelho de João, diz que a luz brilha nas trevas, e as trevas não a compreenderam. Às vezes, tentamos construir prédios cheios de luz para fingir que não há sombras dentro de nós. Mas as sombras só saem quando abrimos a porta, não quando aumentamos os refletores.
Sofia sentiu um calafrio percorrer sua espinha.
— Eu não o contratei para me dar sermões, Verara. Eu o contratei para calcular vigas. Mantenha-se no seu escopo de trabalho.
— Claro — ele respondeu, com uma inclinação de cabeça respeitosa. — Vejo você na obra amanhã cedo. Tenha um bom dia, Sofia.
Ele a chamou pelo nome. Sem o título. Como se a visse, não como a "Arquiteta do Ano", mas como a menina que chorava no chão da cozinha às três da manhã.
Quando Daniel saiu, Eric riu, jogando-se na cadeira.
— Um pouco excêntrico, não? Mas o cara é um gênio. E, hey, pelo menos ele é educado. O que foi? Você parece ter visto um fantasma.
Sofia caminhou até a janela, olhando para a selva de pedra lá fora. Suas mãos ainda tremiam levemente.
— Ele é perigoso, Eric — ela murmurou, mais para si mesma do que para ele.
— Perigoso? O Daniel? Ele parece um santo!
— É exatamente isso — Sofia disse, sentindo uma lágrima solitária ameaçar cair, que ela rapidamente secou. — Santos são os que mais sabem como destruir o mundo de quem só quer ser deixado em paz.
Ela não sabia, mas Daniel acabara de colocar a primeira estaca de um novo fundamento em sua vida. E para que o novo fosse construído, o antigo teria que ser demolido. E a demolição, como Sofia bem sabia, era sempre a parte mais barulhenta de qualquer obra.