Capítulo 01
O som dos saltos finos ecoou pela enorme sala de estar do apartamento. A silhueta de uma mulher elegante, usando um vestido longo de seda vermelho, com longos cabelos loiros e ondulados, deu o ar das graças.
Alina Klein olhou para o homem que a aguardava no sofá de sua sala. Carter Brown também estava vestido elegantemente, com o terno azul marinho que destacava bem sua beleza de modelo. Uma pena que ele escolhera a vida executiva no lugar da vida na passarela.
— Demorei muito? — A mulher perguntou, com sua voz sensual e macia. O homem, então, levantou-se do sofá e, em passos lentos, caminhou até ela, pegando sua mão e dando um beijo delicado e romântico.
— Uma verdadeira dama pode levar o tempo que precisar.
Os dois sorriram um para o outro, e Alina segurou no braço de Carter. Juntos, saíram do apartamento até o elevador, onde foram até a garagem do condomínio de luxo, que guardava os carros esportivos mais caros e invejados de Nova Iorque. O carro de Carter era uma Mercedes.
Em todo seu cavalheirismo, Carter abriu a porta para sua acompanhante, e, em seguida, ocupou seu lugar no banco do motorista. Juntos, eles eram um casal perfeito, exceto pelo fato de que não eram um casal.
A empresa de Alina, Celestia Yachts, acabara de fechar uma difícil parceria com a empresa imobiliária de luxo da família de Carter, Vanguard Estates. Juntando a venda dos iates mais caros e luxuosos com os incríveis imóveis vendidos para a elite dos Estados Unidos e da Europa, a união representava uma grande vitória para a família Brown e a empresária Klein. Estavam indo juntos para um jantar privado em comemoração à parceria.
Alina era uma das empresárias mais jovens conhecidas, estava no auge de sua carreira. Com apenas 25 anos, conquistou um espaço invejável na venda de iates, um produto requisitado pelos novos ricos e pela elite. Como tudo no mundo dos negócios, a parceria entre a mulher e a família Brown também simbolizava a esperança de que uma união além do trabalho pudesse surgir entre ela e o herdeiro da Vanguard, Carter Brown.
Ela decidiu dar uma chance ao rapaz, aceitando que fossem juntos ao jantar para dar uma boa impressão à família. Mas pretendia dispensá-lo assim que a noite terminasse, pois não era o tipo de mulher que estava interessada em relacionamentos, ainda mais um relacionamento com um homem de 27 anos que ainda se comportava como se tivesse 17.
Antes que ele desse partida no carro, Alina observou com desprezo Carter tirar do bolso de seu paletó um pequeno saquinho com um pó branco dentro.
— Se incomoda, princesa?
— Gentileza sua perguntar — sorriu docemente. — Não acho adequado você usar droga antes de dirigir. Prezo muito pela minha vida.
— Sim, perguntei apenas pela gentileza. Você deveria saber que não estou preocupado com a sua aprovação. Além do mais, eu vivo pela adrenalina.
Carter colocou um pouco do conteúdo do saquinho na costa de sua mão e inalou rapidamente. Emitiu um som de satisfação que causou profundo nojo em Alina e, enfim, ligou o carro.
Ele era o tipo de pessoa que ela detestava. Sentia pena do rumo que a empresa tomaria quando ele assumisse a direção dos negócios, mas, até lá, certamente a parceria já teria sido desfeita, então não estava preocupada com a falência eminente da Vanguard Estates. Alina possuía essa grande qualidade: sabia a hora certa de pular fora do barco.
O percurso deveria levar 40 minutos, mas Carter estava pisando fundo no acelerador. Ela tinha certeza de que haviam se safado de, pelo menos, três acidentes. Em menos de 25 minutos, já estavam no restaurante.
— Cara, isso foi incrível. Ficou com medo, princesa?
— Não. Eu estava feliz com a possibilidade de morrermos juntos, príncipe.
Dessa vez, Alina não esperou que ele abrisse a porta. Saiu do carro sentindo as mãos geladas e as pernas trêmulas.
Carter estava logo atrás, rindo. Sua risada era nojenta e causava um embrulho no estômago da empresária, mas jamais se rebaixaria ao nível dele ao ponto de demonstrar seu incômodo.
— Estou vendo que você não é uma princesa, é uma gata selvagem — sem pedir permissão, Carter segurou em sua cintura, recuperando a pose de galã no instante em que adentraram o restaurante.
— O que pensa que está fazendo?
— Vamos chegar juntos, não é? Quero que meus pais vejam o quanto combinamos. Eles já confiam em você, princesa, mas precisam confiar em mim também. Afinal, essa união dá início a uma dinastia entre nossas empresas, e, no futuro, nós dois começaremos um legado.
— Do que está falando? — Alina ficou mais assustada com aquela frase do que com a velocidade em que foram para o local de encontro.
— Não entendeu, minha dama? Nesse jantar de negócios, irei pedir sua mão em noivado.
Alina digeriu as palavras de Carter da mesma forma que seu corpo recebia uma bala: dolorosamente e fatalmente. Antes que pudesse questionar sobre a história do noivado, chegaram à mesa que reservaram. Ali, o Sr. e Sra. Brown já estavam à espera do casal. Ambos se levantaram e apertaram a mão de Alina com muita animação — uma animação sobre a qual ela conhecia a origem.
Alina estava disposta a recusar a proposta de noivado, mesmo que isso significasse o fim da parceria que m*l havia começado.
‧˚꒰🍷꒱༘‧—
Após longos minutos ouvindo o Sr. Brown contar sobre como iniciou sua empresa imobiliária, os pratos do jantar estavam, enfim, vazios. As taças de vinho ainda estavam pela metade, exceto pela de Alina, que suplicava aos céus que pudesse ir embora para casa sem nenhum anel de noivado nas mãos.
— Irei pagar a conta. Antes de irmos embora, gostaria que você conhecesse o terraço do restaurante, minha querida — o Sr. Brown sorriu para sua nova parceira de negócios enquanto piscava nada discretamente para o seu filho. — Brown, por que não a leva lá? Eu e sua mãe iremos em seguida.
— Vamos, princesa?
Claro que Carter não rejeitaria o pedido de seu pai. Alina viu naquela brecha a oportunidade perfeita de deixar claro que não aceitaria o pedido de casamento. Estava há cinco meses tentando fechar negócio com a empresa do Sr. Brown, e tinha sido tempo o suficiente para perceber que queria distância daquela família excêntrica e de tudo que não fosse relacionado aos negócios.
O restaurante pertencia à Sra. Brown, que era dona de outros restaurantes espalhados pelos Estados Unidos e pela Europa. Era lindo, de muito bom gosto, luxo e elegância. O terraço, então, representava grande frescor e jovialidade. Era um espaço lindo, onde era possível observar a magnífica luz das estrelas. O cenário certamente seria ainda mais agradável se Carter não estivesse ali.
— Quero que se poupe de fazer esse pedido de noivado — Alina decidiu falar antes que o rapaz iniciasse uma conversa desagradável. — Não pretendo me casar com você nem com ninguém. Minha união com sua família está totalmente restrita aos negócios das duas empresas e nada mais.
— Você acha que eu quero casar com você? — A resposta, no entanto, foi inesperada. — Queria que meus pais soubessem o quanto eu odeio mulheres como você. Metidas e com esse complexo de superioridade. Eu nem mesmo quero assumir essa empresa.
Os dois permaneceram em silêncio, totalmente absortos em seus próprios pensamentos. Alina sentiu uma pontada de desgosto em ouvir tal descrição sobre si mesma; nunca se enxergou como uma mulher metida. Mas não iria perder tempo tentando fazer Carter enxergar o quão errado estava sobre ela. Preferia que ele permanecesse com aquela visão r**m, assim, não haveria chance alguma dele decidir que queria se casar com ela.
— Só que eu preciso fazer isso — por fim, ele quebrou o gelo. — Meus pais desistirão da parceria se não nos casarmos. Eles sempre foram rigorosos quanto às empresas que acolhem, e têm medo de que você seja uma potencial traíra, que irá acabar com nossas finanças. Se nos casarmos, entretanto, você não poderá destruir a nossa empresa. Entende o que estou falando, princesa?
— Não me chame assim.
— Acostume-se, é com apelidos carinhosos que um marido se refere à esposa.
— Não serei sua esposa, Carter — Alina falou um pouco mais alto, sentindo sua paciência indo embora aos poucos. Viu o rosto de Carter sair de provocador e passar para irritado.
— Você deveria me agradecer — ele falou, baixo, mas alto o suficiente para que Klein pudesse ouvir.
— Ser grata a você? Pelo quê?
— Nenhum homem iria querer casar com uma mulher assim.
Carter apoiou-se no parapeito do terraço, puxando de seu terno um maço de cigarro e um isqueiro. Puxou um e acendeu, levando-o à boca e tragando. Alina ainda estava confusa.
— O que quer dizer com isso? — Alina questionou, sentindo a raiva ferver em seu sangue. Desde o início do jantar, Carter estava sendo desagradável, e agora queria machucá-la com palavras, deixando claro que não tinha interesse nela.
— Ah, princesa, você sabe o que estou querendo dizer — ele ergueu uma sobrancelha, olhando em seus olhos e, depois, de cima a baixo. — Nenhum homem iria querer casar com uma gorda.
Alina sentiu o mundo travar. Engoliu em seco, chocada, e a única reação que conseguiu ter naquele momento foi dar as costas para o rapaz e se afastar dele rapidamente, tentando impedir as lágrimas de escorrerem pelo seu rosto.
— Ah, qual é, gata! Você sabe que não é nenhuma Giselle Bündchen!
— Vai se f***r, drogado de merda!
Alina saiu do terraço o mais rápido possível, voltando para o restaurante, onde encontrou os pais de Carter e algumas sobremesas servidas. Ao notar sua presença, o Sr. Brown olhou alegremente para ela, esperando ver um sorriso no rosto e um belo anel de diamante em seu dedo.
— Alina, como foi? Gostou do terraço? — perguntou a Sra. Brown.
— Serei honesta, não posso me casar com Carter — Alina não fez questão de parecer agradável desta vez. — Eu admiro muito a empresa que vocês construíram e tenho muito zelo pelos meus negócios. E o que eu sei é que, assim que Carter assumir essa empresa, ela irá à falência, e eu não quero que a minha empresa seja destruída também.
— Do que está falando, mulher? — o Sr. Brown bateu o punho na mesa, irritado, mas não foi capaz de intimidar Alina. Ela queria que aquela família soubesse que eles não eram tão bons quanto pensavam.
— Carter tem um sério problema com drogas, e o vício dele irá destruir tudo que vocês têm. Espero que não me levem à m*l, estou dando um conselho de amiga.
— Querida, por favor, se retire do meu restaurante — a Sra. Brown levantou-se, tentando manter a elegância e a educação, mas a ruga em sua testa denunciava sua raiva.
Alina não fazia questão de ficar lá nem mais um minuto. Agradeceu pelo jantar e, em passos confiantes, saiu do restaurante sem olhar para trás.
Ela queria se manter forte diante de toda aquela situação, mas sua garganta doía com o choro entalado. Sabia que não deveria se ofender com as palavras de alguém como Carter; no entanto, suas palavras doíam e ricocheteavam em sua mente.
Chamou um táxi, com as mãos ainda trêmulas. Entrou no veículo amarelo ainda nervosa, temendo que Carter viesse atrás dela para humilhá-la ainda mais.
— Para onde? — perguntou o taxista.
— Para o hotel mais próximo.
Alina não queria ficar em casa naquela noite. Se Carter aparecesse por lá, coisa que ele era capaz de fazer, não conseguiria se sentir segura. Ela precisava de um lugar onde pudesse esquecer tudo que havia acontecido e, acima de tudo, onde pudesse ficar longe de qualquer resquício de família Brown, negócios e casamentos forjados.