PONTO DE VISTA DE BLAIR
Pela primeira vez em muito tempo, eu dormi feito uma pedra. O sofá era mais confortável do que o colchão gasto com que eu estava acostumada e o fogo que crepitava proporcionava calor suficiente para dissipar o frio do meu corpo. Era uma felicidade. Eu quase chorava de gratidão. Infelizmente, fui acordada por água gelada sendo jogada bem no meu rosto, enquanto eu gritava e me levantava confusa e irritada.
— Que diabos você está fazendo na minha casa, perdedora? — Brynn cuspiu, com um sorriso pairando nos lábios.
— O Alfa Johnathon me instruiu a fazer isso — Rosnei, me levantando e a encarando.
Meu grito alertou o Alfa e a Luna, que vieram correndo. O Alfa Johnathon entendeu a situação de relance.
— Brynn — Ele repreendeu — Blair vai ficar na casa da matilha daqui para frente, por minhas instruções. Vá se arrumar para a escola — Ele rosnou. Ela fez bico e me lançou um olhar raivoso. Eu arrumei meu cabelo, sentindo algumas mechas molhadas nas minhas costas, encharcando minha camisa e tentei não tremer — Desculpe, Blair — Pediu o Alfa Johnathon — Por que você não vai se refrescar para poder ir para a escola? — Ele sugeriu com um suspiro. Ele apontou para minha mochila, arrumada no chão — Eu mandei trazer algumas de suas roupas. Seu quarto é o primeiro à esquerda neste andar — Ele acrescentou com alguma exasperação, antes de sair da sala.
Peguei minha mochila e fui em direção ao banheiro mais próximo, quando ouvi Brynn e sua mãe conversando em sussurros no saguão, atrás de grandes vasos de plantas, sem saber que eu estava ouvindo.
— Mãe, você precisa fazer algo! O pai passou dos limites. Ele a deixou entrar na casa!
— Eu sei, querida. Ele também não discutiu isso comigo. Mas ele é o Alfa e não podemos questionar a decisão dele, por mais que discordemos — Luna Bianca disse com raiva.
— Eu não a quero aqui. Mande ela embora — Brynn sibilou — Meu pai é muito mole. Ele se recusa a ver quão prejudicial Blair é para nossa matilha. Você é a Luna, por que não pode fazer algo?
— Não é tão simples, Brynn. Você não acha que ele vai perceber se ela simplesmente desaparecer? — Sua mãe rosnou.
Eu me aproximei um pouco mais, tentando controlar meu coração acelerado. Elas realmente iriam tão longe para se livrar de mim? Quer dizer, eu estava quase completando dezoito anos, o mesmo que Brynn. Eles não poderiam esperar até lá? Então, eu lembrei. Os Guardiões tinham responsabilidades sobre seus protegidos até os 21 anos, não 18. Droga. Não é de se admirar que Luna Bianca estivesse irritada. Ela sabia que eu ficaria na casa da matilha por mais alguns anos, a menos que eu fugisse ou saísse por conta própria.
— Tem que haver algo que possamos fazer — A voz de Brynn estava quase histérica agora, tingida de desespero.
— O que você sugere que eu faça? Eu já tornei a vida dela um inferno e isso não parece estar dando certo — Luna Bianca disse com raiva — Ela continua como se nada estivesse errado e isso não a afeta. É irritante pra caramba — Ela estalou a língua — É quase impossível tirar aquela v***a do sério e ela não fez nada que mereça ser banida.
Eu conseguia imaginar a expressão de decepção no rosto de Brynn e quase ri. Deve ser difícil não poder apenas exigir que eu saia e nunca mais volte, sem a interferência de seu pai. “Que pena”, pensei, com os olhos brilhando.
Então ouvi Brynn mencionar algo que me fez ficar tensa, com o coração acelerado enquanto lutava para controlar a respiração.
— E quanto ao programa de acasalamento?
Não, não, não, qualquer coisa, menos isso. Elas não iriam tão longe, iriam? Eu sentia o começo do pânico se aproximando. O programa de acasalamento era utilizado apenas pelas matilhas mais cruéis. Alfas, na maioria das vezes, pegavam fêmeas metamorfas não voluntárias que eram vendidas por outras matilhas, para serem acasaladas à força pelos Alfas e fornecerem herdeiros quando suas próprias Lunas não podiam ou porque o Alfa precisava de mais filhos do que sua esposa podia gerar com segurança. Eles não se importavam com o consentimento da garota, nem com seu desejo de participar do programa. Mais frequentemente, eram as ômegas desprezadas que eram vendidas ou oferecidas aos Alfas, algumas das garotas acabavam morrendo durante o parto, seus corpos simplesmente cedendo após dar à luz várias vezes.
Minhas mãos ficaram úmidas e eu as enxuguei na calça. O Alfa Johnathon nunca permitiria que Luna Bianca fizesse algo assim comigo, pensei desesperadamente, não é?
— Sabe — Disse Luna Bianca, com voz de aprovação — Essa não é uma má ideia, Brynn. Como guardiã parcial de Blair, eu tenho voz sobre sua criação e seu futuro. As criadoras são providas financeiramente e, se sobreviverem o suficiente, até têm a chance de serem pareadas com um guerreiro depois de cumprir suas obrigações e ainda poderem gerar filhos.
— Aposto que você poderia convencer muito bem o papai — Exclamou Brynn entusiasmada, ainda sussurrando — Principalmente se você enfatizar a parte financeira. Blair nunca vai conseguir um companheiro sem um lobo mesmo, então essa seria a única chance dela — Disse com uma risada.
Eu franzi a testa. Só porque eu estava sem lobo não significava que eu era sem valor. Meu lobo ainda poderia vir, apenas talvez com um pequeno atraso.
— Bem, se nada mais der certo, isso a tiraria da matilha. Eu sei, com certeza, que recebemos uma mensagem outro dia sobre um Alfa procurando uma fêmea reprodutora — Disse Luna Bianca com certa animação — Eu posso até desenterrar isso de novo e ver se Blair se encaixa nos critérios. Não vou permitir que Johnathon me ignore dessa vez. Como guardiã parcial, eu posso anular as decisões dele em certos assuntos e esse pode ser um deles. Estou disposta a enfrentá-lo por isso. Brynn, você fez muito bem em pensar em algo que possamos usar. Parabéns — Ela parabenizou a filha, que se exibiu.
Eu já tinha ouvido o suficiente e me afastei cautelosamente, certificando-me de manter meus passos praticamente silenciosos, e fui para o banheiro. Fechei a porta e a tranquei.
Uma reprodutora. Uma maldita reprodutora. Não havia forma alguma de eu permitir que isso acontecesse. Eu tremi com o pensamento de algum Alfa macho, se revolvendo em cima de mim enquanto eu estava imobilizada, incapaz de reagir, e senti lágrimas virem aos meus olhos. A morte seria preferível a isso.
Eu tinha apenas alguns dias até o meu e o aniversário de Brynn de dezoito anos, e se a Luna Bianca mantivesse sua ameaça, eu teria que partir em breve. Eu joguei água no meu rosto e comecei a planejar tudo cuidadosamente. Não importava o que eu fizesse, eu não podia deixar transparecer que sabia o que elas estavam planejando. Qualquer sinal de que eu sabia e elas me trancariam com certeza. Eu tinha que fingir ignorância se eu tivesse alguma chance de escapar e chegar a uma matilha próxima, uma que não tivesse um programa de reprodução em vigor.
Tudo dependia do que eu faria em seguida e me vi rezando para não ter outro ataque que me deixasse fraca e indefesa. Minha condição cardíaca era um fardo, algo com o qual eu podia conviver na maioria das vezes, mas um ataque agora e eu estava condenada, pensei miseravelmente, e não tinha ninguém para me salvar.