Francisco narrando
O gelo estalou contra o cristal do meu copo de uísque Macallan 25 anos, um som solitário que ecoava pelas paredes revestidas de camurça italiana do meu escritório. Ali, no quadragésimo andar, o mundo lá fora não passava de um aglomerado de formigas operárias lutando por migalhas. Eu não era uma formiga. Eu era o dono do formigueiro.
Observei o reflexo da minha silhueta no vidro fumê da janela. O terno sob medida, a postura impecável, o semblante de um homem que a sociedade respeitava e temia. Ser Francisco Gomes exigia um esforço constante de polimento, uma fachada de filantropia e progresso que escondia a verdadeira engrenagem do meu sucesso: a eliminação sistemática de qualquer obstáculo.
E Valentina era, sem dúvida, o obstáculo mais irritante que já cruzei.
Caminhei até a minha mesa de mármore n***o e abri o mapa topográfico da Baixada Fluminense, ali estavam elas, as terras de Bento Melo, milhares de hectares que, nas mãos certas as minhas se transformariam em um complexo logístico multibilionário. Mas aquela garota, com sua ética inabalável e seu diploma de Direito usado como escudo, ousava travar a engrenagem, ela não queria apenas justiça; ela queria a minha ruína.
— Tão bonita, Valentina. Tão brilhante... e tão burra — sussurrei, sentindo o calor do uísque descer pela minha garganta.
Na minha mente, o problema já estava resolvido, eu não lidava com incertezas. Quando entreguei aquele envelope ao Ceifador no Morro dos Prazeres, eu não estava apenas contratando um matador; eu estava selando o destino. O Ceifador não era um homem, era um fenômeno da natureza. Uma força bruta que eu controlava com o poder do meu dinheiro. Ele era o meu cão de guarda mais letal, e eu nunca o vira falhar.
A essa hora, Valentina já deveria ser apenas uma lembrança amarga. Um corpo sem nome em algum aterro sanitário ou uma mancha de sangue lavada pela chuva, o pensamento não me trazia remorso. Remorso é um luxo para os fracos, e a fraqueza é o único pecado mortal no meu dicionário.
O interfone da minha mesa tocou, interrompendo minha contemplação.
— Senhor Gomes? O senhor Rafael está aqui. Ele insiste em vê-lo imediatamente. Está... bastante alterado — a voz da minha secretária era um sussurro de cautela.
Sorri discretamente. Rafael. O elo fraco da corrente.
— Deixe-o entrar, Flávia. E traga outro copo. Meu sócio parece precisar de um pouco de coragem líquida.
A porta dupla se abriu com um estrondo. Rafael entrou desgrenhado, o nó da gravata frouxo, o rosto vermelho de uma mistura de fúria e pânico. Ele era um homem atraente, mas a falta de fibra moral o tornava patético sob pressão.
— Ela sumiu, Francisco! — ele gritou, antes mesmo da porta se fechar. — A Valentina não apareceu no escritório hoje. O carro dela foi encontrado abandonado perto da Lagoa. A polícia já está fazendo perguntas!
Caminhei calmamente até o bar e servi uma dose para ele, ignorando seu desespero.
— Sente-se, Rafael. Você está fazendo mais barulho do que o necessário. Beba.
— Beber? Como você pode estar tão calmo? — ele pegou o copo, as mãos tremendo visivelmente. — Eu avisei a ela. Eu implorei para que ela assinasse! Se algo aconteceu com ela, se o seu... "contato" fez alguma coisa, isso vai acabar em cima de nós dois!
Inclinei-me sobre a mesa, meus olhos fixos nos dele até que ele baixasse o olhar.
— O que aconteceu, Rafael, foi o progresso — falei, a minha voz baixa e letal. — Valentina era um câncer na nossa operação. E cânceres precisam ser extirpados. Você não conseguia controlá-la. Seu sentimentalismo por aquela mulher estava nos custando milhões por dia. Eu apenas tomei a decisão que você não teve colhão para tomar.
Rafael empalideceu, o copo quase escorregando de seus dedos.
— Você... você mandou matá-la. Meu Deus, Francisco... ela era a minha mulher!
— Ela era a sua mulher até o momento em que decidiu que o ego dela valia mais que o nosso império — retruquei, contornando a mesa e parando atrás dele, pousando a mão no seu ombro. — Pense no futuro, Rafael. Com Valentina fora do caminho, o inventário de Bento Melo será liberado em semanas. As terras passarão para a nossa holding. Você terá mais dinheiro do que seus netos poderão gastar. Tudo o que você precisa fazer é manter a boca fechada e interpretar o papel do ex-namorado enlutado por alguns meses.
— A polícia não é i****a, Francisco. Eles vão ligar os pontos.
— A polícia trabalha para quem paga melhor, meu caro. E eu pago muito bem. Além disso, o homem que cuida desse tipo de... limpeza... para mim, é um artista. Não haverá corpo. Não haverá arma do crime. Apenas um mistério que as redes sociais esquecerão em três dias.
Rafael bebeu o uísque de um gole só, o peito subindo e descendo com força. Ele era um cúmplice agora. O sangue de Valentina estava nas mãos dele tanto quanto nas minhas, e ele sabia disso. Era a beleza do meu método: eu nunca caía sozinho, o que garantia que ninguém jamais me derrubaria.
— O Ceifador já confirmou? — Rafael perguntou, a voz rouca.
— Ele não precisa confirmar com palavras, Rafael. O silêncio dele é a confirmação. Ele é um profissional. Quando ele pega um trabalho, o alvo deixa de existir no instante em que ele fecha o envelope.
Eu visualizei a cena. O Morro dos Prazeres. O Ceifador dedilhando aquele rosário macabro que ele carrega. Eu sentia um desprezo instintivo por sujeitos como ele bárbaros que viviam na lama, mas reconhecia sua utilidade. Ele era a minha borracha. Ele apagava os erros da minha vida.
— E se ela tiver deixado provas? — Rafael insistiu, a paranoia voltando a brilhar nos olhos. — Ela estava estudando o dossiê da grilagem. Se ela enviou algo para o Ministério Público antes de...
— Valentina era meticulosa, mas não era suicida — interrompi, voltando para a minha poltrona de couro. — Ela achava que o Direito a protegeria. Pessoas como ela acreditam em regras. Eu acredito em resultados. Todo o material que ela tinha foi recolhido. O apartamento dela será "visitado" esta noite para garantir que nenhuma ponta fique solta.
Rafael suspirou, parecendo murchar na cadeira. A ganância estava finalmente vencendo o luto. Eu podia ver o brilho do ouro substituindo o brilho das lágrimas em seus olhos.
— O que eu faço agora? — ele perguntou.
— Vá para casa. Tome um banho. Amanhã, dê uma coletiva de imprensa curta. Diga que está devastado, que Valentina estava sob muito estresse e que você espera que ela apareça sã e salva. Deixe que a narrativa do "desaparecimento voluntário" ganhe força.
Ele assentiu, levantando-se, ao chegar à porta, ele parou e olhou para trás.
— Ela era especial, Francisco. Realmente especial.
— O cemitério está cheio de pessoas especiais, Rafael. O mundo pertence aos que sobrevivem.
Assim que ele saiu, a máscara de calma absoluta que eu mantinha relaxou levemente. Peguei o telefone criptografado na gaveta. Nenhuma mensagem. O Ceifador era um homem de poucas palavras, mas a demora em enviar a prova o anel estava começando a me dar uma leve coceira na nuca.
Não que eu duvidasse dele. Duvidar do Ceifador era como duvidar da gravidade. Mas eu queria aquele anel na minha mesa. Queria sentir o peso da vitória final sobre a herança dos Melo. Aquelas terras eram a chave para o meu próximo nível de poder, o degrau que me levaria da elite carioca para a política nacional.
Caminhei novamente até a janela, o Rio de Janeiro estava mergulhado na escuridão, as luzes das favelas brilhando nos morros como feridas abertas na cidade. Em algum lugar ali, o Ceifador estava terminando de limpar o meu caminho.
Imaginei Valentina no seu último momento. Será que ela implorou? Será que ela tentou usar seus argumentos jurídicos contra o cano de um fuzil? A ideia me fez sorrir. A arrogância da virtude sempre morre de forma feia diante da realidade da violência.
— Adeus, Doutora Valentina — brindei ao vazio. — Sua morte será o alicerce do meu reino.
Bebi o último gole, sentindo o poder fluir por mim. Eu tinha vencido.