Quatorze

1120 Words
— Você acordou. — falei sem jeito, ao entrar de novo no seu quarto. — Eu peguei a chave emprestada, espero que você não se importe. — Achei que você já tinha ido embora. Ele estava nu ainda, mexendo no baú branco perto da janela, onde ele guardava as suas roupas, e evitava ao máximo me olhar. Era tão óbvio, mesmo assim me mantive calmo por fora. Ergui as mãos com as sacolas de comida para que ele entendesse porque eu havia saído. — Eu fiquei com fome e fui comprar algo para a gente comer. — Você devia ter ido embora mesmo, Jungkook... Coloquei as sacolas na mesinha e fiquei quieto encarando ele, até que Yoongi tivesse coragem de me encarar de volta e logo ele teve. O silêncio no quarto ficou sufocante e seu olhar não era como o de sempre, ele estava entristecido. — É o que você quer de verdade? Eu nem esperei muito pela sua resposta. Ela veio só com um gesto, um aceno suave com a cabeça e com uma dor no peito — ainda pior do que na primeira vez que ele me tirou da sua vida — eu saí do seu quarto pequeno sem mais forças para continuar tentando. Dessa vez ele realmente não me queria mais e eu tinha que respeitar isso. A noite passada provavelmente foi só o calor do momento. Porque Yoongi ainda me amava e gostava do jeito que a gente transava, mas ele estava decidido para valer. Por algum motivo Yoongi tinha certeza de que a gente não devia ficar juntos e com um bater suave da porta daquele hotel, nossa história de amor acabou definitivamente. Eu não estava de carro e muito menos sabia como pegar um ônibus, então eu liguei para o meu motorista e fiquei parado na esquina lhe esperando. Dali eu ainda pude ver o Yoongi saindo para o trabalho e foi a primeira vez que vê-lo não me trouxe bons sentimentos. — Sr. Jeon. — o carro parou na minha frente sem que eu notasse e o motorista já abria a porta para mim. Entrei no carro e ele seguiu o seu caminho. Através do vidro escuro, eu vi Yoongi seguir seu caminho, também, até a parada do ônibus. Lembrei de todas as vezes em que ele dizia que vivíamos em mundos diferentes e um novo aperto no meu peito surgiu. Talvez ele estivesse certo e por causa disso não havia nenhuma chance dos nossos caminhos se cruzarem de novo. A primeira vez em que nos vimos foi um acaso, mas todas as outras vezes era eu que ia atrás dele. Eu até pensei em colocar a cabeça para fora da janela e gritar para ele pela última vez que eu ainda o amava, mas eu não queria mais importunar ele. Me encostei no banco do carro e deixei meu corpo relaxar. — Se sente m*l, Sr. Jeon? — Muito m*l. — confessei e para responder seu olhar preocupado eu disse: — Coração partido. — Para isso só o tempo. — aconselhou com um sorriso compreensivo. — Eu desconfio que nem o tempo pode dar um jeito nisso. Eu acho que nunca vou deixar de amá-lo. — O senhor ainda é jovem. — riu amigável. — Então, porque você insiste em me chamar assim? — ri. — Você é uma das pessoas que mais cuidaram de mim desde criança, Sr. Kang, e ainda assim se refere a mim como se eu fosse mais velho. — Eu sei, Sr. Jeon, mas são formalidades do trabalho. Eu reconheço o meu lugar. — "Lugar"? Que lugar é esse? Esse sobrenome é uma maldição ou o que? — resmunguei sozinho. Parecia bem óbvio que ser um Jeon afastava as pessoas de mim. Como se existisse uma escada invisível entre nós e eu estivesse posicionado no topo dela. E, de repente, eu me vi sendo levado pelos pensamentos de novo a um dia específico. O dia em que as coisas ficaram mais estranhas com o Yoongi. O jantar que tinha acontecido com meus pais e o Yoongi, quando fizemos um mês de namoro. Não foi como planejamos, aconteceu por um acidente. Yoongi e eu estávamos na piscina da mansão dos Jeon. A gente bebia margaritas e trocava beijos em meio a conversas aleatórias. Estávamos um pouco felizes pela tarde tranquila, como eu podia dizer, era um dia despreocupado. Era a folga do Yoongi e ele veio me visitar por conta própria. Eu o chamei para passar a tarde comigo na piscina e o tranquilizei dizendo que os meus pais estavam viajando. Nem eu mesmo imaginava que de repente eles iam chegar. Eu tinha deitado o Yoongi em uma das cadeiras e meu corpo quase cobria o seu. Eu nunca conseguia ficar muito tempo longe dele. Eu acariciava a sua coxa, enquanto beijava a sua boca. Pouco a pouco o clima estava ficando mais quente e o mundo parecia calmo demais — como se o resto do mundo inteiro nem existisse além de nós dois — até que uma pergunta nos deu o maior susto: — Esse é o seu namorado, Jungkook? — era minha mãe. A encarei surpreso e vi que Yoongi estava mais pálido do que era normalmente. Eu também podia sentir o seu peito sob o meu, batendo rápido. — O que faz aqui? — perguntei um pouco rude, sem nem perceber. — É a minha casa, mocinho. — riu. — Seu pai também está por aqui. Ela não parava de olhar o Yoongi com o seu olhar crítico. Eu já estava habituado a ele, mas com certeza isso incomodaria o meu namorado. — Esse é o Yoongi, mãe, meu namorado. — o apresentei, porque era óbvio que ela estava cobrando isso com sua atitude. Ela o analisou de cima abaixo e Yoongi acenou timidamente. Era a primeira vez que eu o via assim, intimidado. Naquele dia, eles fizeram tantas perguntas ao Yoongi e mesmo que ele tenha voltado a agir como de costume, mostrando segurança, ele nem quis ficar para dormir comigo. Me disse que estava cansado demais e que aquele não era o seu lugar. Eu achava que ele estava nervoso por conhecer os meus pais, como eu ficaria se fosse conhecer os seus, mas podia ser outra coisa? Algo que eu não vi. As diferenças que ele tanto gostava de citar tinham mais peso do que eu me dei ao trabalho de imaginar? Para mim parecia tudo igual. Meus pais eram distantes, cheios de pré-requisitos e não paravam de olhar o relógio como se qualquer minuto com o seu filho fosse tempo perdido. Foi esse dia que nos condenou ou ele simplesmente fora a última gota d'água para todos os seus motivos?
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