Os Mistérios de Jodie
PRÓLOGO:
Existe um mundo encantador, mas também sombrio, que jamais se revelará aos pobres de alma. É lá, entre o visível e o invisível, onde os mortos falam, as florestas escutam e os pássaros são imortais. O que se encontra aqui é verdadeiro e único. Uma história de suspenses e romances. Romances e aventuras, que nem mesmo o tempo foi capaz de interferir e que agora vou contar para você:
Era uma vez um planeta triste pela maldição do inverno eterno. Foi quando o Sol resolveu dormir e as terras deixaram de dar aos seus filhos os frutos para sobreviverem... Naquele dia, no dia mais tenebroso do mundo, na mais feroz de todas as eras glaciais, não havia uma gota de água em seu estado mais puro e divino. Em apenas nove meses, grandes paredões de gelos cobriram os oceanos. A temperatura beirava setenta graus abaixo de zero. As aves buscavam proteção além das montanhas, mas as noites eram mais do que horrendas. Muitos animais foram extintos e os únicos sobreviventes foram os viajantes de Camélia, uma tribo de homens e mulheres que dominava o fogo. Eles se abrigaram nas cavernas rochosas escondidas no subsolo, até morrerem. Porém, com o fim da última era glacial, Bari e Ayanami, dois filhos de Camelianos, conseguiram migrar para as margens do mar Egeu. Estes foram os primeiros humanos a colonizarem Creta, a grande ilha grega. Posteriormente, seus registros de vida foram excluídos da história, mas eles deixaram um legado para as civilizações futuras. Após dezesseis mil anos, as águas do mar Egeu descongelaram e assumiram grandes volumes. Esse período ficou conhecido como minoico, onde muitas cidades foram construídas em volta dos arquipélagos e Creta começou a florir. Houve o desenvolvimento da economia, crescimento da população e cultos para Liam, o Supremo Criador do mundo da religião Nava. Milhares de anos depois, a ilha foi invadida por grandes embarcações vindas de Paximadia. E os paximadianos conquistaram os minoicos, trazendo em seus recintos o impiedoso rei Mahi, que espalhou seu poder até o sul do planeta. Este período também teve um nome, conhecido como micênico.
Os micênicos excluíram os minoicos de seu povo, transformando-os em escravos. A maioria trabalhava na construção de tumbas, na manipulação de argila e criação de armas de ferro. Com isso, os micênicos criaram a escrita, instalaram paredes nas fronteiras do mar Egeu e impediram ataques de invasores. Nesse processo, a religião Nava foi substituída pela religião Ouja, do deus Ruhtra, sendo instaurada à pena de morte qualquer menção a Liam.
Em dez anos, muitos altares foram feitos dentro dos templos, onde as pessoas rezavam pelos deuses de Ouja, em busca de sorte. Depois da morte de Mahi, os reis que sucederam seu trono continuaram com o legado por mais de um século. Até que um dia o vulcão Tera entrou em erupção e varreu a civilização micênica, como um castigo pelos seus pecados. As cinzas cobriram todas as ilhas, desde o mar Mirtoico, até o mar de Cárpa. Os únicos a sobreviverem foram alguns descendentes, que mais tarde reergueram a Grécia Antiga. Dois mil anos depois, tudo que restou da cultura dos micênicos se resumia a metais oriundos da Idade do Bronze. A Grécia ressurgiu devagar. O desenvolvimento da alquimia se espalhou por todo Leste Europeu, onde muitos desejavam alcançar a vida eterna e o caos começaria novamente, em um ciclo interminável de ganância.
Havia por ali uma lenda de um objeto capaz de curar qualquer doença, que surgiu entre os mais ricos. Muitos participaram de jornadas para obtê-lo, resultando na sede pelo poder que desencadeou guerras nos quatro cantos do mundo e atravessou todas as nações. Sem amor, o fim dos humanos chegaria em breve, mas o filho do Supremo Criador, Samuel, subiu até o monte Gini para escolher entre os camponeses puritanos, os dignos de herdar a verdadeira vida eterna.
Árlida de Argos e Lais Anatólia foram as escolhidas para livrar o mundo da escuridão. Juntas elas descobriram o seu inimigo, o anjo da morte, Hazej. Hazej trabalhava através do mundo espiritual, usando homens e mulheres, crianças e animais, preenchendo seus corações de maldade para que se debulhassem no pecado. Ninguém nunca conheceu sua existência. Ninguém, até aquele momento.
Quando o Império Grego enfraqueceu, Arlida e Lais saíram pelo mundo em busca da luz, pregando do Leste ao Oeste sobre a paz e o amor. E fizeram muito seguidores. Lais estabeleceu-se em Ventine, numa pequena aldeia italiana, casou-se e teve dois filhos, Otávio e Augusto. Arlida estabeleceu-se na cidade vizinha, Mentorine, onde casou-se e teve uma filha, Milena. Elas também fundaram o templo Osha para restabelecer a religião Nava. E viveram por mais de mil anos, mais do que qualquer mortal sonhou em viver, pois tinham a imortalidade que os gregos sonharam desde a fundação da alquimia. Durante seus reinados, houve mesmo um certo período de paz. Seus filhos, Milena, Otávio e Augusto, cresceram. Assim como os seus pais, eles também herdaram o Livro da Vida e a juventude eterna. Milena casou-se com Pagamon e deu à luz a quatro meninas; Ligura, Vitane, Nícia e Acaia. Acaia casou-se com Corsin e teve dois filhos; Vitense e Cadmo. Vitense casou-se com Odiome e teve Austria. Austria casou-se com Jano e teve Alice. Temendo os descendentes de Arlida e Laís, Hazej interrompeu a expansão daquele povo e destruiu o templo Osha, reduzindo suas vidas a apenas pó. Dessa forma, o anjo da morte acreditou ter encerrado qualquer ciclo divino. Mas a história dos salvadores continuou a fluir com Alice, que cresceu e herdou o Poder de Luz, e passou o poder para a sua filha chamada Jodie Marie.
JODIE MARIE KASTELARI
— Qual a chance de um garoto interessante me convidar ao baile de primavera? — perguntou Karol.
Ela anda triste com a falta de relacionamentos perfeitos. Não tem a autoestima muito boa, sofre para cuidar do irmão mais novo e vive se queixando dos meninos. A verdade é que ela deixou de acreditar no amor. Sua voz, seus pensamentos, e inevitável não saber.
— Eu queria que o Almand fosse o meu par, apesar de ele ser gay. Duch é do tipo que não me interessa — respondi —, e o Zack..., ah, o Zack vai lhe convidar depois da aula de hoje.
— Jodie, o Zack namora a líder do primeiro ano e ela é muito mais bonita que eu. Ele nunca me chamaria para o baile de primavera.
— Na-mo-ra-va! Eles terminaram ontem. Agora o garoto tem uma quedinha por você.
— E se você errou dessa vez? — Karol revirou os olhos para o holograma que saltou de seu bracelete. Então, surgiu a imagem dela vestindo roupas de Andrômeda, uma exuberante princesa da mitologia grega.
Não estou errada. Karol perdeu o pai, avô e metade dos irmãos quando um câncer altamente genético despertou no lado paterno da família. Sei também de quem ela gosta e de quem não gosta. Sei qual a sua estação preferida, o outono. Foi no outono que ela teve seu primeiro romance ao doze anos de idade e a primeira decepção amorosa, depois disso nunca namorou a sério de novo.
— Jodie, então o Marcus vai ser mesmo o seu namorado no baile de primavera?
— Acho que sim. Ele quer provar que pode sair com alguém fora do seu padrão de classe social e depois dizer que aumentou a coleção de ficantes. Enquanto a mim, veremos se posso sair da zona de conforto — eu disse. — Claro que tem universidades que não se importam se o figurino for brega, mas se não for alguém tão descolado, meu sonho de cursar moda diminuirá drasticamente.
A Festa de Primavera ocorreria apenas em agosto, um festival de formatura do ensino médio, a despedida dos veteranos, na qual tínhamos que escolher um modelo de roupa de acordo com a profissão que desejávamos seguir, inspirado no tema da noite. As turmas também montavam bandas para tocarem no pátio da escola, desde músicas gospel a rock and roll. Uma parte do tempo era tomada por leituras de poesias, desfiles e peças de teatro. E dentro da Festa de Primavera tinha ainda o baile de primavera, onde os casais se reuniriam para dançar na pista. Como o tema era sobre mitologias e lendas, um assunto que eu não dominava, passei noites pesquisando quais roupas usar, qual personagem escolher, se eu deveria me inspirar na mitologia grega ou romana, em lendas africanas ou brasileiras. Além do mais, a expectativa de saber quem seria o meu namorado realmente me tirava o sono.
— Quer uma dica? Vá logo se arrumando no estilo Psique, ou então Afrodite. Talvez o bonitão do Austin lhe note e faça você mudar de ideia — sugeriu Karol. E foi para o refeitório.
Ela não sabe que uma combinação de azar vai mesmo deixar Austin, o garoto mais bonito da sala, desesperado e ele virá correndo pedir para eu ser a sua dama da noite, a sua Psique ou Afrodite. E eu negarei da forma mais categórica possível.
Mas não quero me prolongar muito sobre coisas que já sei. Eu gosto da imprevisibilidade, do mistério e suspense. Tem coisas legais e curiosas que quero contar a vocês. Rye é uma cidade linda por fora, mas por dentro é um lugar estranho.
Nos últimos dias estão acontecendo coisas malucas. Ontem li em um site de notícias que o cemitério foi invadido. Levaram dois corpos dos túmulos, de uma menina chamada Hani Scalabrio, morta meses atrás por afogamento, e Boss Gitz, um ex-viciado em bebidas alcoólicas. Ainda não pegaram os infratores e eu me pergunto qual foi o verdadeiro motivo do crime. O que alguém vai querer com defuntos? Karol disse que eu preciso parar de me preocupar com essas coisas. Eu acho que ela tem razão. Minha vida parece aqueles filmes clichês de Hollywood, onde a garota perde a família, não tem irmãos, nem amigos. Até meu papagaio partiu dessa para melhor. Só que eu não me acho indefesa, e nem tão desinteressante assim.
Mamãe morreu em 13 de julho de 2018, três anos atrás. Lembro que estávamos saindo da torre e um carro surgiu de lugar-nenhum. Vi luzes, gritos eufóricos dentro da cabine, então, as rodas pareceram esmagá-la. Nunca esquecerei do luto, do sabor amargo da morte. Eu tento seguir a vida, ver pessoas novas, conhecer outros lugares, ou, como meu pai diz, preciso sair da concha e esquecer o passado. Agora tenho mesmo a chance de conhecer outros lugares e esquecer o passado. Pela primeira vez, estou próxima de sair de Rye. Não em definitivo como eu gostaria. Eu não vou me mudar da Inglaterra, nem nada. Será um recesso igual ocorre nos meses de dezembro, quando o colégio premia os melhores alunos com viagens patrocinadas pelo governo.
O destino nos levará rumo à Irlanda do Norte. É a oportunidade perfeita para superar a dor. A lista do passeio contará também com os irmãos Thomas e Sabrina Luchard, do segundo ano B. Os calouros Robert e Brendon. Jason, do último ano, e sua namorada Daisy, uma das meninas mais bonitas da turma de veteranos. Por último, mas não menos importante, Nicolas Henke, o intrometido.
Quando o sinal do intervalo tocou, fui para a área próxima da cantina, sentei na mesma mesa de sempre, a dos idiotas pobretões e mexi nos adaptadores. Ainda me restava algum tempo para aproveitar, antes que Karol voltasse do refeitório.
— Oi — Nicolas sussurrou.
Eu sabia que era ele pelo perfume de lavanda. Os adaptadores embolaram, a pulseira eletrônica brecou e eu vi a minha amiga tagarela nos observando de longe, curiosa.
Sentada no pátio aproveitando o intervalo, quer dizer, aproveitando não é exatamente a palavra certa, mas ele interrompeu o meu momento de solidão.
— Oi, Jodie.
— Olá? — perguntei.
— Você está pronta para Belfast? — Nicolas esboçou um sorriso, mas o que saiu foi um muxoxo trêmulo.
— Estou e você?
— Mais do que pronto — ele acabou deixando escapar um tom de deboche. Porém, ficou na espreita parecendo escolher melhor as palavras, algo menos mecanizado. Até que nós nos encaramos e veio o silêncio.
— Ok — foi tudo o que eu consegui dizer.
— Jodie, escute, você quer ser o meu par no baile de primavera?
— O Marcus já... o Marcus já me convidou.
— Sério? — Nicolas sorriu, meio desapontado — Tudo bem. Nos vemos por aí, então — e se foi no meio dos alunos.
Karol veio imediatamente me ver, depois daquele acontecimento fatídico, pronta para me interrogar com um pote de biscoitos caseiros e dois copos de suco de uva debaixo do braço. Nós nunca tínhamos dinheiro para comprar o almoço da cantina. A mãe dela, a Sra. Beatriz, quem fazia o lanche e nos dava uma porção de moedas para comprar as bebidas. Mas os biscoitos eram fedorentos, apesar de saborosos, o que nos tornava alvo de piadas por parte da turma.
Devido ao atraso de Karol, a chance de sermos barradas pela coordenação era enorme. Se isso acontecesse, a professora Lilian diria que não gostávamos de estudar. Uma fama que não combinava para alguém como eu.
— Você vai acabar estragando minha reputação nerd — eu disse, roçando seu pescoço.
— Desculpe, amiga. A fila da merenda estava demasiadamente grande.
— Demasiadamente grande? Pelo visto você está mesmo levando a escola a sério, não é?
— Não mude de assunto, amiga. Nicolas... por acaso já superou o fato de existir alguém com notas tão boas quanto a sua? — resmungou Karol.
— As notas dele não são tão boas quanto as minhas. Se quer saber, nós estamos empatados com o Almand só em uma matéria do semestre. A diferença é que Almand não fez a prova de Cartografia, porque seu avô morreu e ele ficou abalado com a perda.
— Como sabe? Credo, Jodie! Às vezes você me assusta. — Karol pegou a bolsa e saiu do corredor o mais depressa que seu espírito pedia para uma terça-feira. Durante o crepúsculo, combinamos de ir no mercado juntas comprar a ração do cachorro dela e também de ir no parque assistir os meninos jogar futebol de areia. Mas não foi um dia bom para isso. Eu comecei a sentir tontura, não por causa de sua tagarelice e sim por se tratar de uma visão. Eu me vi dentro de uma floresta, minhas roupas estavam cobertas de sangue e havia cheiro de cadáveres mortos.
Ao chegar em casa, notei papai conversando no sofá com uma mulher que mimava a sua gata de estimação Poliana. Sei disso porque sou clarividente, ou melhor, eu sou a única clarividente daqui. Vários pensamentos ruins vieram e eu comecei a imaginar um monte de situações. "Se o papai estiver saindo com ela, ele tem esse direito. Mas talvez eles estejam saindo há muito tempo. Então aposto que ele vai esquecer mamãe, aposto que vai."
— Jodie, essa é a sua tia Ema — disse papai, assim que me viu, querendo que eu a cumprimentasse a mulher.
— Tia... Ema?
— Franklin, ela não se lembra de mim, não é? Mas, puxa, veja como Jodie cresceu! Parece que foi ontem que eu a peguei no colo — Ema falou, como se eu não estivesse ali. — Puxa, puxou a mãe. Ah, com certeza, puxou Alice!
— A senhora me pegou no colo? — perguntei, meio constrangida por não me lembrar de um momento tão íntimo.
Depois de termos uma longa conversa, subi para o quarto, joguei a bolsa num canto e adormeci. Sonhei com o avião que nos levaria para Belfast caindo. Acordei assustada, quase escurecendo, e não pude ver Karol. No jantar, papai e Ema conversaram sobre os irmãos deles, meus tios que nunca cheguei a conhecer. Ela estava depressiva com a morte de seu marido, mas fingia melhor que ninguém. No dia seguinte me deu um sapato de presente, que pertenceu a minha prima Lola, e foi embora com Poliana miando.
As semanas se foram mais rápido que o normal. Com a partida de Ema, papai e eu voltamos a ficar distantes. Ele, um tipicamente reflexivo, passou a maior parte do tempo trabalhando no computador, aplicado em seus projetos. No colégio também não era tão empolgante assim. A viagem para Belfast estava cada vez mais próxima. E eu cada vez mais tensa.
— Tragam os exercícios de termodinâmica amanhã! Por hoje é só! — disse Lilian, a medida em que todos se levantaram dos seus lugares.
— Jodie? — disse Austin. — Ei, Jodie?
Sua carteira ficava atrás da minha, então ele teve que se inclinar para falar comigo. Mas se inclinou demais, desequilibrou e de repente lá estava esparramado ao chão. Livros de um lado, caderno de outro. A borracha, que pareceu estar possuída, saiu rolando e a turma caiu na gargalhada.
— O que foi? O que você quer? — ajudei a recolher os pertences do garoto.
— Quero ser o seu namorado no baile de primavera — disse Austin. — Você aceita?
— Não. Eu já tenho par. Chame Leticia ou Kerolyn.
Antes de ele dizer que Leticia se arrumou com Nicolas em tão pouco tempo e que Kerolyn estava planejando convidar alguém de fora, eu saí para sentar nos bancos do pátio. Karol esperou o espertalhão retroceder e veio contar as novidades, que não eram tão novidades assim.
Até ali, Karol nunca soube do meu segredo. Tudo começou numa noite de sono, quando tive pesadelos sobre chamas falantes. Eu caí da cama, bati a cabeça no chão e o vaso que mamãe pediu, antes de morrer, para eu guardar, que ficava perto do travesseiro, quebrou sobre minha cabeça. O líquido entrou nos meus cabelos, nos meus ouvidos, olhos e nariz. Era viscoso, queimando, ardendo minhas entranhas como se eu estivesse dentro de uma fogueira.
Horas depois tudo voltou ao normal. Ou melhor, nunca mais voltou ao normal. Eu levantei, acendi a luz e me olhei no espelho. O que vi foi o reflexo de uma garota abatida, com os olhos azuis reluzindo cabelos negros. Eu havia sofrido uma metamorfose, passando de uma garota normal para uma aberração.
O jarro que guardei, como um amuleto da sorte, não existia mais. Meu pai me obrigou a fazer consultas psiquiátricas quando percebeu algo diferente em mim. Quando, supostamente, tive meu primeiro surto. Eu conversava com as paredes, ouvia vozes vindo de dentro delas, sentia sensações estranhas, ou pensava que estavam tramando minha morte. No consultório do Dr. Julius, recebi perguntas vazias do tipo "por que você está aqui?" a partir de que momento seu mundo ficou nebuloso?" "você assiste filmes de terror?" ou sermões " concentre-se mais" "passe mais tempo com sua família" "faça amigos".
Evito tomar os remédios, mas as caixas de clozapina não podem ficar cheias para sempre, então, às vezes escondo em baixo da língua, ou jogo dentro da pia. Eu não quero voltar lá. Não quero sentar na cadeira, enquanto meu cérebro é analisado piamente. Quem são eles para dizer que sou louca? O que é a loucura? Não há nada de errado. Há um mundo lá fora. Estou ouvindo os pensamentos das pessoas, ouço vozes da minha mãe e tenho passado por experiências sobrenaturais. Certa vez, perto da lareira, senti vontade de colocar a mão no fogo. Depois, aumentou para uma enorme vontade de me jogar dentro do fogo. As labaredas pareciam tão agitadas e convidativas.
— Jodie, você estava certa! — disse Karol, cutucando-me. — O Zack realmente quer que eu seja a dama da noite dele! Isso não é incrível?
Antes de eu respondê-la, Nicolas passou perto das cadeiras do refeitório e nos cumprimentou. O que poderia ser considerado anormal finalmente teve fim. Primeiro, ele nem falava com a gente, nunca nos viu antes, nunca fez questão de dar um "Olá, perdedoras. Nós podemos sentar juntos e comer esse lanche maravilhoso da cantina, enquanto dizemos coisas como solidão, tristeza e sangue?". "Essa é a segunda vez que você dispara essa voz daqueles galãs de cinema, em o quê?! três semanas. Cara, em menos de três semanas! É sim!" eu responderia.
Se existe uma chance de eu estar enganada em relação a Nicolas, essa chance é mínima. A mente dele é fechada e complexa. Eu vejo desejos e uma intensa necessidade de ser importante. Os pensamentos que ouço vindo do super ego são como um vulcão em erupção. Tem uma certa garota no meio, gritos, sussurros, lamúrias.
— Essa noite eu sonhei com o avião caindo — Nicolas quebrou o gelo que existia entre nós.
Minhas pernas se mexeram, o coração saiu do compasso e o meu olhar ficou confuso. Nada plausível ele ter sonhado a mesma coisa que eu. Será que no meio de bilhões de habitantes no planeta, alguém já teve o mesmo sonho, sem tirar e nem pôr?
— Do que está falando? — perguntei, para ter certeza que ele voltaria atrás com a palavra, o que não aconteceu.
— Eu disse que sonhei com o avião caindo. O avião que nos levará a Irlanda do Norte.
— Quanta falta de tato, hein, amigo? Minha amiga aqui sofre de síndrome do pânico e ela está ficando assustada de verdade. Precisa vê-la quando surta. É horrível! — disse Karol, mais ironicamente do que séria.
— Vocês duas são divertidas — Nicolas caiu na gargalhada e se retirou, deixando-nos a sós na mesa dos solitários outra vez.
— Bem, talvez eu não viaje — eu disse. — Vou repensar meus planos.
— Está brincando? — respondeu Karol.
— Eu tenho aerofobia, esqueceu?
— Jodie, se você não for para Irlanda do Norte, perderá uma grande chance de conhecer a Darry's Day. Vá lá falar com o charlatão de novo. Vai!
Nicolas conversava com Leticia e Kerolyn, nossas menos prediletas colegas de turma, as encrenqueiras do fundo, do grupo da bagunça, mas naquele dia eu finalmente escutei minha consciência e tomei coragem para encará-las. Elas dispersaram e nos deixou a sós, apenas eu e o garoto charlatão.
— Oi, quero conversar com você... — eu disse.— Vamos nos encontrar no fundo da cantina. E por favor, não ria de mim, como se eu fosse uma bobona medrosa.
Para falar a verdade, eu nunca soube a verdade sobre a tal história que ele contou, de que havia sonhado com o avião caindo, entretanto, pude brincar de olhar seus pensamentos, pois eu tive a mesma sensação.
— É brincadeira, Jodie. — Nick sorriu e me analisou por alguns segundos. — Não acredite em tudo que eu falo.
— Então você vai para Irlanda do Norte? — perguntei, evidenciando meu nervosismo
— É claro! Você não vai? É a nossa chance de sair da Inglaterra. Você deveria esquecer o que eu disse. É sério. Tudo está sob controle.
— Tudo bem. Acho que você me convenceu.
Na manhã seguinte, o dia mais aguardado chegou repleto de brilho e calor. Coloquei as blusas dentro da bolsa, os agasalhos e as calças, por precaução. E fiz questão de levar a roupa que nunca usei, mas que sempre tive guardada na cômoda; uma réplica de uma farda militar e um conjunto de quepes que mamãe me deu em meu aniversário de treze anos, perfumada com colônia de gardênias. A cada momento que eu sentia aquele cheiro e via o bordado das peças, lembrava de coisas que vivi, sem ter ideia de onde e nem quando.
Quando terminei de arrumar minha mala, vi papai com aquela expressão de quem tem um pressentimento r**m. Ele me desejou boa sorte e me deu um abraço protetor.
Ao chegar na escola, observei todos da lista de viagem conversando e se enturmando muito mais rápido do que eu era capaz de me enturmar. Nicolas com Sabrina e Robert. Jason com Brendon. Daisy viera dos corredores, apressada. Seus pensamentos estavam inquietos, gritando mentalmente para o mundo que amava o namorado, desejando que chegasse o mais breve possível na Irlanda do Norte, onde planejava se casar.
Do lado esquerdo da escola, o resto dos alunos também espiava das janelas os fotógrafos que vieram prestigiar os melhores estudantes da Priest's Day.
— O táxi está pronto — a diretora Joel apontou para o automóvel. — Boa viagem, crianças.
Os professores passaram as informações do hotel, da Irlanda do Norte e de Belfast, pedindo para trazermos informações que fossem úteis nos seminários de história. Na chegada, vimos o aeroporto nos esperando na frente das montanhas. Os onze assentos e janelas eletrocrômicas faziam do nosso avião o mais moderno bimotor de Rye, da empresa do magnata dos negócios Vicent Bosc, o Queen AIRBAC-150. Cada passo até o imponente rei aéreo foi um calafrio que senti por dentro. Após as cabines terem sido pressurizadas, sentei no fundo, coloquei os cintos e vi as luzes se acenderem. O piloto deu meia volta na pista e se preparou para decolagem. Era hora de partir. Respirei fundo e tentei ficar calma. Olhei de relance, fechei os olhos. O avião estava no ar.