Jonas
— Papai, papai! — Mylene gritou.
— Fala, minha princesa — ajoelhei-me para ficar à sua altura.
— Vai me levar na escola hoje? — Ela me olhou, ansiosa pela resposta.
— Hoje não vai dar, papai tem uma reunião — seu olhar se entristeceu e desanimou.
— Mas… você prometeu! — fez bico.
— Eu sei, meu anjo, me desculpa, mas eu preciso ir. Tenho uma reunião chata hoje, e, infelizmente, eles precisam de mim — acariciei seu rosto.
— Está bom — disse, abaixando a cabeça. — A tia Rute me leva hoje… De novo. — E saiu.
Às vezes, lamento por não ter tempo para minha filha, mas a agência precisa de mim. Afinal, eu sou o dono. Sei que minha filha também precisa, mas sem o dinheiro que ganho com a empresa, não consigo dar o conforto que ela merece.
Segundos depois, Mylene voltou com sua mochila nas costas.
— Tchau, princesa, boa aula — abaixei-me para beijar sua bochecha, mas ela desviou o rosto.
— Tchau, papai — ela nem me olhou e saiu pela porta.
Não preciso dizer que aquilo doeu meu coração. A partir de hoje, com certeza, darei mais atenção a ela.
— Rute, cuida dela para mim — disse assim que vi Rute se aproximar.
— Claro, senhor — levantei-me do chão.
Saí de casa e fui em direção à garagem. Tirei meu carro e dei partida, indo sem pressa nenhuma até a agência.
— Senhor, a reunião começa em dez minutos — disse minha secretária, Karen.
— Pode deixar, obrigado, Karen — segui em direção à sala de reuniões. Pouco a pouco, todos os empresários começaram a chegar, e a reunião se iniciou, mas não consegui ficar concentrado em nada.
Durante toda a reunião, o rostinho triste de Mylene não saía da minha cabeça, o que me fez nem prestar atenção no que estava sendo dito.
Preciso arrumar alguém para ficar com a Mylene, dar toda a atenção de que ela precisa, pelo menos, só quando eu não estiver lá para dar.
— Com licença, senhores — disse, levantando-me e saindo. Fui até a sala da minha secretária para colocar minha ideia em prática.
— Karen, preciso de você — disse, entrando sem bater.
— Diga, senhor — eficiente, como sempre.
— Quero que saia nos jornais ainda hoje que há um emprego para babá disponível. Coloca apenas o meu telefone, ok? — Ela concordou com a cabeça. — Ótimo, obrigado — saí de sua sala.
Voltei para a reunião, já com a cabeça mais tranquila, conseguindo fechar acordo com mais uma agência, o que era muito bom.
Já estava voltando para casa, mas decidi fazer uma surpresa para minha filha. Peguei meu celular e liguei para casa, avisando que eu pegaria Mylene hoje, e desliguei logo depois.
Estacionei o carro na frente da escola, no momento exato em que minha boneca estava saindo. Desci do carro, e seus olhinhos se arregalaram.
— PAPAI! — correu em minha direção.
— Oi, minha pequena — beijei sua testa.
— Você veio me buscar! Isso é bastante raro — disse, me abraçando forte. Engoli em seco.
Realmente, são poucas as vezes que consigo me lembrar de tê-la buscado na escola nesses seis anos.
— Vamos para casa? — mudei de assunto.
— Vamos! — Ela abriu a porta do carro, praticamente se jogando no banco de trás.
O resto da tarde foi normal: revendo documentos, assinando contratos depois de serem lidos. A mesma rotina de sempre. Até que meu celular tocou, e eu logo atendi.
— Alô, quem fala? — perguntei sério, já que o número na tela era desconhecido.
— Olá, boa tarde, aqui é a Alessandra Mendonça. Queria saber se a vaga para babá já está ocupada? — Vi que o anúncio já havia saído. Secretária muito eficiente.
— Não, ainda não encontrei ninguém — Até porque você é a primeira a ligar, pensei. — Você está interessada, senhorita Alessandra? — Sorri.
— Claro! — ela gritou, empolgada. Segurei o riso, mas não adiantou muito. — Desculpe pelo grito, senhor — disse, envergonhada, o que me fez sorrir novamente.
Pelo que percebi, é daquelas que não têm autocontrole. Geralmente, acho engraçado, mas às vezes me irrita.
— Sem problemas — disse, rindo. — Amanhã, às 08h00, ok? Anote o endereço — disse, mais sério, voltando ao meu eu normal. Passei mais algumas informações para ela, já a informando de tudo.
— Bom, é isso. Nos vemos amanhã, senhorita Alessandra. Minha empregada, Rute, irá te receber, ok? — disse.
— Sim, senhor.
— Ótimo, até amanhã — desliguei.
Pelo que percebi na ligação, ela parece ser uma boa pessoa, mas só vou confirmar isso pessoalmente e com o passar dos dias, caso a contrate. O que eu espero que sim, já que odeio ter que ficar fazendo entrevistas. Acertar na primeira contratação seria ótimo, me pouparia tempo e esforço.
Depois de conferir se estava tudo certo, saí do meu escritório e fui para a cozinha.
— Rute, amanhã uma mulher virá para uma entrevista de emprego. Quero que você a receba — ela concordou com a cabeça.
— Emprego para…? — perguntou.
— Babá da Mylene — ela formou um sorriso em seu rosto, e eu sorri de volta.
Entrei no quarto da Mylene e a encontrei dormindo. Aproximei-me dela e beijei sua testa.
— Boa noite — sussurrei. — Prometo que, a partir de hoje, você terá a atenção que merece.
— Beijei sua testa, acariciei seu cabelo, ajeitei seu cobertor e saí dali, indo direto tomar um banho.
Passei um bom tempo no chuveiro, até ter a consciência de que a água do mundo está acabando e decidi sair. Coloquei uma roupa de dormir qualquer, deitei na cama e apaguei.
Esperando que o destino tenha piedade de mim, e que essa tal Alessandra seja uma boa pessoa, séria, responsável e que se dê bem com crianças. Porque, como eu disse, odeio ter que fazer entrevistas, então estou com os dedos cruzados.