Enquanto Clara se debatia com sua própria resposta, Lucas, pensativo, foi trabalhar:
Lucas (olhando o celular, murmurando): “Se eu fosse solteira, você teria todas as chances…”
João: Ô, Lucas, tá estranho hoje. Aconteceu algo?
Lucas: Nada… só uma coisinha.
Pedro: Cê tá sério demais. Nem parece você. Tá doente?
Lucas: Não, é só uma conversa.
João: Conversa com quem? Com a Maria? (risos)
Lucas: Não. Com uma moça aí. A gente troca mensagens há uns dias.
Pedro: E por que isso te abala tanto?
Lucas: Sei lá. Não entendo por que me importo tanto com alguém que nunca vi pessoalmente.
João: Talvez porque, quando é inesperado, pega a gente desprevenido.
Lucas: É isso. Em poucos dias, já sinto algo profundo. Me assusta.
Pedro: Medo de quê? De se apegar e tomar um fora?
Lucas: Medo de perder o pouco que tenho com ela. Medo de me apaixonar sozinho.
João: Então fala com ela, cara. Diz o que sente.
Lucas: E se eu falar e ela se afastar de vez?
Pedro: Ou ela pode gostar da coragem. Ou, no mínimo, você para de martelar isso na cabeça.
Lucas (olha o horizonte, com um sorriso breve): Talvez. Ou talvez eu só precise aprender a conviver com esse martelo.
João: Bom, vai por mim: não enterra isso no peito. Ou desabafa, ou trabalha até esquecer.
Lucas (segurando o celular): Vou pensar. Não sei se quero perder o pouco que tenho com ela… nem se aguento continuar assim, doendo em silêncio.
Em casa, Clara reforçava o silêncio do outro lado da tela, que pesava como chumbo. Segurava o celular com as duas mãos, os polegares parados sobre a conversa. Releu a última mensagem de Lucas pela quinta vez e sentiu o peito apertar, como se uma mão invisível lhe fechasse a garganta.
Rolou a conversa até o início, buscando o momento em que tudo mudou. Parou na própria mensagem: “Sou casada.” As palavras, firmes e necessárias, tinham saído antes da razão. Depois, a resposta dela para ele: “Se eu fosse solteira, você teria todas as chances.” Ela sabia, mesmo sem querer admitir, que aquelas palavras foram uma lâmina para ambos.
Clara olhou as notificações: nada. O espaço da conversa, antes vibrante com risos, emojis e memórias matinais, agora estava mudo. Virou o celular de lado, como quem evita encarar um espelho.
“Fiz o certo”, murmurou, quase para si. Mas a frase soou tão frágil que ela mesma duvidou. Levantou-se, foi à janela e ficou olhando a rua sem enxergar nada. Na cozinha, abriu a geladeira por hábito, fechou-a, foi ao quarto e mexeu nas roupas sem propósito. Cada objeto parecia ecoar o espaço que Lucas ocupava nas conversas. As notificações das redes sociais vinham e iam como vultos; ela deslizava o dedo por stories alheios, riu baixo de algo trivial e logo parou. A risada não sustentava nada.
Na noite seguinte, antes de dormir, Clara escreveu uma mensagem, apagou, reescreveu e, por fim, resolveu enviar:
Clara (digitando): “Sinto muito, Lucas. Não foi por m*l. Não queria te magoar.”
Esperou, o coração acelerado, a tela oferecendo apenas as palavras já apagadas. Não veio resposta. No escuro do quarto, a ausência dele deixou um frio que nem as cobertas podiam aquecer. Virou-se para o lado, ouvindo o próprio silêncio, agora com o gosto amargo de suas escolhas.
Clara rolava o feed no i********:, parando em vídeos que antes a faziam rir, mas que agora arrancavam apenas sorrisos fugazes. As risadas dos stories soavam distantes, sem eco. As cores das fotos pareciam desbotadas, como se a tela tivesse perdido o brilho. Sem as mensagens de Lucas, até o café da manhã tinha gosto de prato esquecido.
Enquanto isso, Lucas afundava no sofá, o celular pesado nas mãos, como se tivesse sugado todo o ar do ambiente. Releu a última mensagem de Clara pela décima vez; cada palavra era um estilhaço.
“Sou casada”, murmurou, repetindo as letras como se pudesse desfazer o impacto.
As conversas antigas rodavam na mente: o riso dela ao falar do trabalho, a madrugada em que dividiram segredos, os elogios que agora pareciam impossíveis. Abriu o chat e deslizou o dedo pelas mensagens antigas, como quem tenta reconstruir uma paisagem após um desabamento.
“Não pode terminar assim”, disse ao vazio da sala.
Raiva e tristeza se entrelaçavam: vontade de gritar, de chorar, de apagar tudo. Pensou em bloquear Clara, em excluir o chat e fingir que nada acontecera. Mas a ideia de cortar a ligação doía mais que a própria dor.
Começou a digitar, sem conseguir terminar:
Lucas (digitando): “Entendo…”
Lucas (apagando): “Não entendo.”
Lucas (apagando tudo): “…”
No fim, deixou o celular no colo e fechou os olhos. Preferia sentir a dor a enfrentar o vazio de algo que nunca existira.
Clara apagou a luz e contou as batidas do próprio coração; Lucas deixou o celular no colo e contou as palavras que não enviou. Em quartos diferentes, sob o mesmo céu, ambos seguravam a mesma ferida: ela, o peso da escolha; ele, a falta de resposta. Lá fora, a madrugada se estendia como um convite ambíguo, prometendo silêncio, mas carregando, no horizonte, a possibilidade de um amanhecer em que nenhuma das dores seria fácil de apagar.