4. ECO DE UMA DECEPÇÃO

887 Words
No dia seguinte, a engrenagem doméstica gira sob o controle de Clara, mas, à noite, ela decide se cuidar. Demora mais no espelho, escolhe uma roupa que desperta o desejo, passa um batom que parece prometer coisas pequenas e possíveis. No quarto, entra com a expectativa no peito. Otávio vira-se para o lado, cobrindo a cabeça com o travesseiro, e murmura: “Amanhã cedo eu trabalho.” Em outra noite, Clara, de banho tomado, encontra Otávio debruçado sobre o celular. Ao passar por ele, seu braço roça no dele. Ele não desvia o olhar da tela, m*l reagindo ao toque. "Tudo bem, Otávio?", ela pergunta. Ele levanta o celular, mostrando-lhe uma tela com fotos de um churrasco. "A Ana Luísa do escritório mandou, olha só a quantidade de carne!", ele comenta, a voz animada, contrastando com o silêncio que ele costuma oferecer a ela. Clara sente uma pontada de ciúme ao ver uma foto de Ana Luísa ao lado de Otávio, os dois sorrindo de forma íntima. Ela fica ali, de pé, sentindo o vestido no corpo e o som do silêncio do marido como um tapa em uma noite de frio. O impulso de mandar uma mensagem para Lucas cresce como uma chama que só precisava de um fósforo. Lembrou da pergunta: “Eu teria chances com você?” e o dilema tomou conta: dizer sim era trair o juramento diário de dignidade que ela repetia mentalmente; dizer não era arriscar perder a única conversa que a fazia sentir-se viva de novo. Entre um pensamento e outro, ela abre o celular. Na rede social, uma notificação brilhava: Lucas tinha enviado um vídeo. Ela aperta o play com o cuidado de quem manuseia algo frágil. No vídeo, ele faz uma cantada para ela, não exagerada, só o suficiente para acender algo que não se apaga com raciocínios. O efeito é imediato: calor, vaidade, a sensação de ser vista. Clara se lembra, com uma pontada de raiva e ternura misturadas, de quantas vezes Otávio preferia a cama ao diálogo, a rotatividade do trabalho à presença. O espelho moral ainda reflete a mulher que sabia o preço de suas escolhas. Ela era de caráter; não faria nada que arruinasse a imagem que construía. Sentada na beirada da cama, com a luz do corredor filtrando, o telefone quente na mão, ela volta à pergunta como quem repete uma oração polvilhada de dúvida. O que responder? Dizer sim e abrir uma porta que talvez não tenha volta. Dizer não e arriscar perder o único sopro de desejo que a manteve inteira. O vídeo terminou, mas a resposta ainda não nascia. Clara, com o coração apertado, decide responder à pergunta de Lucas. Mas antes, pergunta: Clara: Se a resposta não for o que você espera, você vai deixar de falar comigo? Lucas: Claro que não. Ao ouvir isso, Clara toma sua decisão e responde: Ela responde que, se fosse solteira, sim, ele teria todas as chances. Afinal, parecia trabalhador, uma ótima pessoa e muito bonito. Mas, sendo casada, ela jamais faria algo que pudesse entristecer o esposo. Foi então que tudo desabou. Lucas, embora tenha dito que não deixaria de falar com ela, não conseguiu esconder a decepção: Lucas: (a mensagem demora a aparecer; depois um emoji seco) Entendi. Clara: Como assim? Você está bravo? Lucas: Não. Clara, com sua sensibilidade aguçada, sente a facada no peito: a tristeza dele do outro lado da tela a atinge também. Além da dor, veio uma onda de vergonha por ter deixado as coisas irem longe demais, por Lucas talvez achar que ela era uma mulher “fácil” e sem caráter. A ficha cai pesadamente, e a vergonha só aumenta. Ainda assim, a ideia de cortar o contato com Lucas parecia insuportável: as conversas com ele lhe traziam paz, uma sensação boa e, acima de tudo, reacendiam seu amor próprio. A tela do celular ilumina o quarto escuro. Uma bolha de mensagem: visto. Clara prende a respiração, os dedos flutuando sobre o teclado como se pesassem chumbo. O copo de chá, esquecido na mesa de cabeceira, deixa uma marca úmida no lençol; a caneca ainda quente treme sob a mão que não a ergue. Ela olha o próprio reflexo no vidro da janela: olhos mais fundos, maquiagem levemente borrada, lábios comprimidos. Passa a palma da mão pelo peito, como quem tenta apagar com a pele um ponto incômodo. Um riso curto e sem som escapa, que soa mais como uma desculpa para si mesma. Na conversa, as últimas mensagens, palavras claras, firmes, brilham inertes. Clara abre o perfil de Lucas, contempla o botão “chamar” e, sem tocar, fecha o aplicativo. O cursor no campo de texto pisca vazio, insistente. Ela começa a digitar, apaga; escreve outra coisa, deleta. Cada tentativa parece reduzir o ar dos pulmões. Do lado do guarda-roupa, uma blusa dobrada fora do lugar denuncia noites de indecisão. Ela passa os dedos por ela, sentindo a textura, como se buscasse uma resposta. Um calor vermelho sobe ao rosto; Clara vira o rosto para a parede, as costas curvando-se, protegendo-se até de si mesma. No final, encaixa o celular de volta no travesseiro, deixa-o virado para baixo e se encolhe. O silêncio deixa um gosto metálico na boca, não há gritos, apenas a distância que pesa como chumbo entre duas telas.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD