CAPÍTULO 2: VIDA EM ROTEIROS DE CLARA

1334 Words
Clara, aos 41 anos, atravessa a cozinha com passos curtos e decididos, ajustando a posição de uma xícara aqui, dobrando um guardanapo ali, enquanto dita instruções aos seus filhos sem elevar a voz. Seus cabelos, salpicados de mechas douradas que dançam sob a luz da manhã, balançam levemente a cada virada de cabeça. Seus olhos cor de mel varrem o ambiente: param no relógio da parede, deslizam para a mochila caída no chão, captam o bocejo de Elias, de 15 anos, antes de pousarem em Gustavo, de 12, que remexe o cereal na tigela. Ela fala em tom baixo, pausado, transformando o café da manhã em uma sequência ordenada: "Elias, pegue o suco; Gustavo, termine isso antes de sair; Marcelo, lave as mãos." A casa pulsa com o som dos pés dos meninos . Elias arrastando os tênis, Gustavo tropeçando na cadeira, Marcelo, de 8 anos, correndo para o banheiro , um eco que faz seus ombros relaxarem, como se cada ruído confirmasse que a cena está no lugar certo. Nas raras brechas entre as tarefas domésticas, ela se dirige à sala, onde uma mesa improvisada abriga a câmera sobre um tripé improvisado. Acende a luz do anel, e um brilho se acende em seus olhos, dilatando as pupilas. Ela segura um caderno surrado em uma mão, folheando páginas amareladas, e ajusta o microfone com a outra, testando-o com um "um, dois". Seu sorriso se alarga, os lábios se curvando para cima enquanto ela se posiciona no enquadramento, inclinando o corpo para frente como se convidasse alguém para se aproximar. Grava vídeos onde lê trechos de livros, pausando para erguer as sobrancelhas em ênfase, ou faz lives onde gesticula com as mãos abertas, espalhando frases como "E se você tentasse isso amanhã?" para uma audiência que pisca na tela em forma de corações e comentários. O RITUAL E A CONEXÃO INVISÍVEL Antes de cada gravação, Clara coloca post-its coloridos ao redor da câmera: um amarelo com "sorriso", um rosa com "pausa", um azul com "pergunta". Seu dedo indicador traça a lombada do caderno, parando na página inicial, como se ancorasse ali. Toma um gole de café, o vapor subindo e embaçando seus óculos por um instante, antes de colocá-lo de lado. O som dos passos de Elias ecoa na escada, descendo com um baque ritmado, e ela se volta para si mesma, soltando os ombros com uma expiração longa. Inclina-se para a lente, os cantos da boca se erguendo em um sorriso que plissa os olhos, como se recebesse um velho conhecido. Ao falar, sua voz flui em ondas suaves, cada frase é pontuada por uma inclinação de cabeça ou um gesto amplo das mãos. Em um momento, ela baixa o tom, os olhos se suavizando enquanto descreve uma perda, as palmas se unindo como em um abraço; em outro, solta uma risada curta, cobrindo a boca para disfarçar um bocejo, transformando uma falha em piada. Seu sorriso se espalha, iluminando o quarto, e ela gesticula para a câmera, apontando como se tocasse o espectador, compartilhando histórias que fazem suas próprias mãos tremerem levemente de empolgação. OS SILÊNCIOS E AS MENSAGENS NÃO OUVIDAS Após a gravação, a luz da câmera se extingue com um clique, e Clara desliza o mouse para postar o vídeo, os dedos batendo na mesa enquanto carrega. Ela se levanta, recolhendo os post-its um a um, e volta à cozinha, onde agendas se empilham na bancada. Só apaga a luz da sala quando o último quarto silencia, varrendo o chão com uma vassoura rápida, deixando o espaço imaculado. No escuro, a luz vermelha da câmera pisca intermitente, e ela para, passando a mão pelos cabelos. Pega o celular, digita "Preciso conversar" ,a tela iluminando seu rosto enquanto espera. Minutos se arrastam; uma notificação pisca um coração solitário no grupo da família. O aparelho vibra uma vez e silencia. No amanhecer seguinte, ela abre o planner sobre a mesa, a caneta vermelha riscando "Consultar peça do projeto" com traços firmes, o papel cedendo sob a pressão. Dobrando a página, ela guarda uma nota amassada no bolso do caderno. No café da manhã, serve suco a Marcelo, que derrama gotas na toalha; ajeita a mochila de Gustavo, enfiando um lanche extra; e planta um beijo rápido na bochecha de Otávio, que já carrega as bolsas. Ele beija de volta com os olhos desviando para o relógio. Otávio joga a mochila no ombro, destravando o carro com um bip. A porta traseira se abre para os filhos: Elias entra primeiro, enfiando fones nos ouvidos, o volume vazando em batidas baixas; Gustavo se acomoda no meio, chutando acidentalmente o banco; Marcelo luta com o cinto, os dedinhos escorregando no fecho. Otávio se vira, a mão na maçaneta, e solta: "Comportem-se." Acena para Clara na porta e acelera. Na esquina, ele puxa o celular do bolso, uma mensagem iluminando a tela; seus lábios se curvam em um sorriso fugaz antes de guardá-lo. O carro desvia da rota usual, rumando para uma cafeteria escondida, onde ele para e acende a tela novamente. Clara fecha a porta com um clique suave, o eco reverberando na casa vazia. Pega o celular, vendo seu próprio nome no histórico de mensagens, sem respostas piscando. A luz vermelha agora reflete em sua palma. Ela inspira fundo, os ombros subindo e descendo, e ajusta o sorriso, os músculos do rosto se contraindo. Aperta o botão de gravação, a voz emergindo cálida: "Hoje, vamos falar sobre ouvir o outro, acolher a dor..." Seus gestos fluem, mãos abertas convidando, enquanto ela descreve empatia, os olhos fixos na lente, deixando ecos não respondidos pairarem no ar. O ROTA DO OLHAR Na cozinha, Clara mexe a panela no fogão, o vapor subindo com cheiro de alho e cebola fritando, preenchendo o ar. A luz vermelha da câmera sobre a mesa pisca, e ela lança um olhar rápido, os olhos se demorando por um segundo antes de voltar ao fogão. Seu rosto, que na véspera carregava sombras sob os olhos, agora se mantém sereno, as linhas ao redor da boca relaxadas. A campainha soa, seguida de passos arrastados se aproximando. Ela reconhece o peso de cada um: o tropeço de Marcelo, o arrastar de Gustavo, o passo firme de Elias. Abre a porta, os braços se estendendo para abraços , um aperto rápido em cada, sentindo os ombros caídos de cansaço. Eles largam as mochilas no chão com baques surdos, e ela aponta para o banheiro com um gesto: "Lavem as mãos; o jantar está na mesa." O som da água correndo e vozes abafadas ecoam enquanto ela se senta, o prato intocado à frente. Em vez de comer, abre o caderno surrado, os post-its coloridos ainda colados ao redor da câmera como sentinelas. Sua caneta desliza pela página em branco, traçando linhas fluidas: descreve um casal de amigos que se afastam, pausas longas entre mensagens, palavras engolidas em silêncios. As horas escorrem, a luz externa esmaecendo para tons de cinza. Ela ergue a cabeça, notando o lugar vazio de Otávio à mesa, o peito subindo e descendo em batidas aceleradas. O FIM DA NOITE DESCONFORTÁVEL A porta se abre com um rangido, e Otávio entra, os ombros rígidos, os olhos desviando para o chão. Seus lábios se curvam em um sorriso apertado, as bordas não se erguendo por completo. "Por que você está acordada a essa hora?", pergunta com voz cortante, sem o tom suave habitual. Seus olhos evitam os dela, e a camisa branca, a mesma da manhã, aparece amassada, com uma mancha rosada no colarinho. Ele não menciona o atraso, não oferece explicação, apenas vira as costas e segue para o quarto, os passos ecoando no corredor. Ela fica ali, com os olhos marejados, mas a boca fechada, sem uma palavra escapando. Deita-se na cama, uma mão sobre o caderno, a outra alisando o lençol que carrega apenas o cheiro de lavanda fresca. Fecha os olhos, o corpo relaxando apesar do peito apertado, escolhendo ignorar o sussurro interno que ecoa como um aviso distante.
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