As manhãs de inverno quase nunca eram as mais calmas no hospital.
sempre havia pacientes chegando, mas estranhamente aquela não era assim.
Tido estava calmo demais, então apenas as visitas diárias era o que eu tinha para fazer no dia de hoje, e, calmamente, analisaria apenas as fichas dos pacientes que eu ainda tinha nos quartos.
ㅡ O paciente Kang receberá alta hoje, certo? ㅡ pergunto a um dos residentes que sempre me acompanham nas visitas. Além de hospital emergencial, o nosso ainda é um hospital escola, então, eu sou obrigado a ter residentes em meu encalço para que no futuro, sejam tão bons quanto eu sou hoje.
ㅡ Sim, doutor King. Você precisa apenas assinar a alta e eu posso dispensá-lo. ㅡ um deles me responde.
ㅡ Não, deixe que eu assino e entrego, eu gosto demais daquele senhorzinho para não dar um tchau digno e vê-lo com seu sorriso calmo quando enfim estar livre para sair daqui.
Ele assente, então caminhando pelo corredor bem iluminado do hospital, sou recebido pelo cantarolar de meu paciente assim que adentro o quarto no qual está.
ㅡ Bom dia, senhor Kang. ㅡ Cumprimento-lhe, parando em frente com sua cama.
ㅡ Bom dia, doutor King. Veio me liberar, certo? Não aguento mais esperar por isso.
Sorri ao assentir.
ㅡ Claro que vim, mas ainda lembra do nosso trato, não é?
ㅡ Claro que lembro, doutor. Nunca mais ficar sem tomar os meus remédios no horário correto. Te prometi dedinho e tudo, pode confiar, não sou de quebrar promessas.
ㅡ Estou confiando em você. ㅡ sorrio. ㅡ e aqui está, já pode voltar para a casa, para o seu conforto, e, de coração, espero não ver o senhor mais aqui.
Ele ri quando entrego sua alta. Vejo-o ler o que há no papel rapidamente e se animar ao guardá-lo junto às suas coisas.
ㅡ Alguém vem buscar o senhor, não é? ㅡ pergunto.
ㅡ Claro que vem. Minha esposa já deve estar aqui
ㅡ Bem, na verdade... ㅡ aquela voz me fez virar com certa pressa. ㅡ Eu vim buscá-lo.
Sorrir de imediato ao notar o sorriso de covinhas fundas bem na entrada da sala. Não consigo explicar o porquê de gostar de ouvi-la e de ter reconhecido com tanta facilidade, já que só a ouvi uma vez em toda a minha vida.
ㅡ Você? ㅡ viro-me para Ferri e o vejo sorrir ainda mais, assentindo.
Seus olhos brilham enquanto ele assente, e não sou capaz de controlar o meu próprio riso em resposta.
ㅡ É mentira desse garoto, doutor! ㅡ senhor Kang fala, fazendo-me olhá-lo. ㅡ Minha esposa vem me buscar. Ele é só um chato que invadiu meu quarto atrás de conselhos ontem a noite.
ㅡ Conselhos? ㅡ volto meu olhar Brian e percebo seu semblante tímido de imediato. Suas bochechas ficam vermelhas no instante em que ele arregala os olhos.
O que esse garoto está querendo?
ㅡ Não me caguete assim, senhor Kang! E vamos logo, sua esposa já está lá embaixo. Eu que me ofereci para vir buscar o senhor já que me ajudou ontem. Ela está no saguão.
ㅡ Eu não confio muito nele. ㅡ senhor Kang diz-me, mas caminha em direção a Brian. ㅡ ele é meio doido.
Negando, eu vejo ambos saírem juntos. Brian carrega consigo seu concentrador, mas ajuda mesmo assim o senhor a carregar a mala pequena.
ㅡ Ele, com certeza, é meio doido mesmo... ㅡ falo comigo mesmo, ainda os observando.
Voltando outra vez para minhas visitas, eu me despeço de cada um de meus pacientes, e reviso outros que ainda precisam ficar internos. Tranquilamente caminhando pelos corredores, finalizo meu turno. Me sinto cansado e necessitado de um bom e grande copo de café quente com leite, por isso faço o caminho quase automático em direção a lanchonete.
ㅡ Um café com leite bem grande, por favor. ㅡ peço, encarando os doces na vitrine, perguntando-me se posso me permitir comer ao menos um deles.
ㅡ O de avelã está bem gostoso.
Outra vez, ouvindo a voz de Brian, eu rio, desacreditado de que ele realmente já está aqui, bem ao meu lado.
ㅡ Garoto, você sempre aparece assim do nada? Parece que está sempre me seguindo...
Olhando-o, eu vejo o modo em como ele sorri e encolhe os ombros.
ㅡ Desculpe, não quero parecer um louco perseguidor. Não sou um, juro. Só vim aqui em busca de um doce, e... te vi...
Eu busco meu café com a atendente e agradeço, desistindo por completo do doce, entregando-lhe meu cartão para ser feito o pagamento.
ㅡ Qual você quer? Eu pago. ㅡ digo, olhando-o.
ㅡ Não precisa, eu tenho dinheiro.
ㅡ Anda logo, diz.
Brian semicerra os olhos, mas aponta para o de avelã.
Peço então seu doce, fazendo o pagamento junto com o café.
ㅡ Você sabe que esse tipo de coisa me deixa ainda mais bobo? Doutor, você está tomando conta de todo o meu coração assim, poxa.
ㅡ Você é um completo bobo. ㅡ digo virando as costas quando entrego-lhe seu doce, buscando um lugar no canto para sentar-me e descansar. ㅡ e não pode falar esse tipo de coisa assim... ㅡ falo baixo, percebendo que ele me segue até uma mesa.
ㅡ E porque não? ㅡ ele pergunta, sentando-se comigo assim que sento, mesmo que eu sequer tenha lhe dado permissão para isso.
ㅡ Porque nós não nos conhecemos e eu sou um médico importante aqui, não posso cair em rumores com um paciente...
ㅡ Diz isso porque ainda não se apaixonou por mim também. Eu sou um paciente importante também... ㅡ ele fala balançando sutilmente os ombros, mordendo seu doce. Observo o modo em como faz um leve biquinho para comer. Parece adorável.
ㅡ Ah é, e porque?
ㅡ Porque eu sou o futuro de um estudo médico. Estou aqui para testes.
ㅡ Mesmo? Quais?
ㅡ Bem, agora eu não sei. ㅡ ele riu. ㅡ tudo bem, estou mentindo. Mas eu já participei de testes médicos sim, mas nenhum muito bom, então eu posso ser importante caso algum muito bom apareça.
ㅡ Sei.
ㅡ Mas eu sou uma pessoa muito legal, você vai se apaixonar mais cedo ou mais tarde.
ㅡ Eu não vou me apaixonar por você, Brian. ㅡ falo, querendo enfim findar o assunto.
ㅡ Você não é gay? ㅡ ele pergunta. Eu n**o com tranquilidade. ㅡ Eu também não sou.
ㅡ Não é? ㅡ rio, porque claramente o garoto quer somente brincar.
ㅡ Não. Sou Bissexual. ㅡ fala dando outra mordida no doce.
ㅡ Bissexual? ㅡ franzo meu cenho olhando-o.
ㅡ Sim, você sabe o que é, certo?
ㅡ Sim, é claro que sei. ㅡ falo enfim tomando meu café. ㅡ mas continua não fazendo muita diferença. Ainda somos médico e paciente.
ㅡ Como você é difícil, doutor.
Eu sorrio do bico instintivo em que ele forma, mas dou de ombros em seguida, desviando meus olhos quando percebo que os dele voltam a me encarar.
ㅡ Você não deveria estar no seu quarto agora? ㅡ mudo o rumo da conversa, tentando me livrar de seu olhar persistente, pois, outra vez, sinto minha pele queimar.
É singelo, mas de alguma forma ainda é intenso e me deixa nervoso.
ㅡ Meu médico é legal, ele me deixa caminhar livremente. Ainda não estou morrendo. ㅡ ele brinca, tocando o fio de seu oxigênio. ㅡ Ainda.
ㅡ Mas você deveria tomar cuidado.
ㅡ Estou bem, doutor, pode ficar tranquilo.
ㅡ Falo sério. Só estou pedindo para que tome cuidado porque você realmente precisa tomar. ㅡ explico-o. ㅡ Não é bom que fique fazendo muitos esforços. Eu li sua ficha médica, seus pulmões ainda estão doentes.
ㅡ Você leu?
ㅡ Claro que li. Você parecia interessado em mim, eu também me interessei por você. Pela sua ficha, na verdade. Não você... você. Não.
Brian ri, me fazendo ficar levemente de bochechas coradas.
ㅡ Não precisa se preocupar doutor, estou sossegado. ㅡ ele pisca. ㅡ Mas então, sabe o senhor Kang? Eu conversei com ele sobre o nosso futuro encontro.
ㅡ Nossa futuro encontro? ㅡ pergunto sorrindo.
ㅡ É, eu te disse que te levaria a um, lembra?
ㅡ Céus, garoto, eu nunca vi uma pessoa tão insistente quanto você é.
Brian apenas ri, dando de ombros.
ㅡ Você gosta de cinema, doutor?
ㅡ Eu tenho meu próprio cinema em casa. Um sofá bem grande e uma TV igualmente enorme num cômodo com ar condicionado. Também tenho pipoca à vontade, então prefiro meu próprio cinema.
ㅡ Caramba, e eu ia te convidar para ir comigo ao cinema na terça porque é o dia mais barato, mas deixa pra lá.
Sinto-me m*l por um instante ao perceber que fui arrogante com ele e pigarreio antes de falar:
ㅡ Mas eu gosto muito de passeios ao ar livre. Gosto da natureza...
Brian ergue os olhos e sorri instantaneamente.
ㅡ Passeios ao ar livre são muito românticos, doutor. Você com certeza iria se apaixonar por mim assim... Mas já que você não é gay e nem bi ou nada do que inclua gostar do mesmo gênero que o seu, não rolaria, não é?
Ele claramente está debochando de mim.
Mas parece que Brian consegue arrancar risos fáceis de mim até mesmo com seu modo de debochar, pois, outra vez, eu rio deliberadamente e percebo minha visão escurecer por breves segundos devido minhas bochechas que são grandes e esmagam meus olhos, mas respiro profundamente e outra vez tenho a visão de seu rosto com um sorrisinho óbvio demais pintado.
ㅡ Foi tão engraçado assim? ㅡ ele pergunta. Parece contente.
ㅡ Bem, não muito. Mas há uma coisa que você parece não ter percebido...
ㅡ O quê?
ㅡ Eu também não disse que era hétero, disse?
Brian abre a boca, surpreso e eu não consigo deixar de sorrir outra vez.
ㅡ Você está me dando mole, doutor? ㅡ ele pisca, animado. ㅡ Mesmo, mesmo? Porque assim, meu coração está acelerando outra vez!
ㅡ Só estou brincando com você, Brian. Digo, não na parte em que não sou hétero, porque eu realmente não sou. Eu acho. Mas eu te disse, um médico não pode se relacionar com um paciente.
ㅡ Eu não sou seu paciente, então isso nem rola com a gente! ㅡ ele diz rápido.
ㅡ Eu sou um médico geral, Ferri, então basicamente posso sim, ser seu médico.
ㅡ Mas não é. Não agora.ㅡ fala outra vez, ligeiro. ㅡ é isso é o que importa. Então posso tentar fazer você se apaixonar por mim sim! Posso te levar a um encontro ao ar livre, te beijar e quem sabe, casar com você!
Ele realmente parece convicto disso, mas eu só consigo rir e rir, incapaz de acreditar que uma pessoa é tão emocionada quanto Brian é.
ㅡ Você nunca namorou, não é? ㅡ pergunto.
ㅡ Só uma vez, mas não sou legal.
ㅡ E porque não?
ㅡ Porque eu era muito apaixonado e ele não. Assim, eu resolvi dar um pé na b***a dele e esperar. Aí você apareceu e 'tchan!
ㅡ Tchan?
ㅡ É, como no filme dos monstros, sabe? Você é meu Tchan...
Arregalo meus olhos ao finalmente entender o que ele fala.
ㅡ Você é mesmo doido. Deveria dar uma passadinha na ala da psiquiatria, falar com um terapeuta, sabe?
ㅡ Doutor, não me chame de louco! Só sou um mero apaixonado, poxa...
Meu Pager sinaliza. Eu verifico e vejo ser um chamado para uma cirurgia emergencial.
ㅡ Preciso ir. ㅡ falo me erguendo rápido, tomando de uma só vez todo meu café. ㅡ até qualquer hora dessas.
ㅡ Tudo bem, mas me responde só mais uma coisa antes de ir. ㅡ ele pede com seus olhos brilhantes, também se pondo de pé. ㅡ Aceita sair comigo?
ㅡ Você está internado. ㅡ falo. ㅡ não pode sair.
Brian bufa.
ㅡ c****e, eu estou mesmo...
Seu semblante é de frustração e faz ligeiramente meu coração entristecer.
Imagino que para um garoto tão jovem e extrovertido como ele é, viver com certa limitação e internado em um hospital vinte e quatro horas por dia, deve ser cansativo a beça.
E talvez eu possa estar equivocado e agindo por puro impulso, mas não quero ver um garoto que já sofre com suas limitações triste por minha culpa, então ainda olhando-o, decido falar:
ㅡ Te pago um café amanhã, tudo bem? E então vamos até o estacionamento.
Brian sorriu, encolhendo-se ainda mais.
ㅡ O estacionamento?
ㅡ É, assim vai ser meio que sair... e de um modo literal. ㅡ rio, vendo-o revirar os olhos.
Meu riso também ganha vida e antes de correr pelos corredores até meu destino, ergo meu dedo e falo já caminhando.
ㅡ Mas isso não é um encontro.
Ouço seu riso, mas não me dou ao prazer de vê-lo sorrir. Preciso fazer o que faço de melhor. Preciso salvar vidas.
ㅡ Não ainda! ㅡ mas consigo ouvir Brian gritar antes que eu suma por um novo corredor.