Sentia-me estranhamente nervoso.
Carregava comigo dois copos grandes de café, enquanto caminhava até o estacionamento de trás do hospital.
O inverno ainda era consistente, e o frio, indescritível.
Meus ombros estavam encolhidos, enquanto a fumaça expeça do café misturava-se à neblina que pairava no ar.
Todas as vezes em que eu respirava, fumaça branca também saia do meu nariz, mas isso sempre me divertiu, desde minha infância.
Sorri quando vi-a mais uma vez ali, sentindo-me como bobo.
Mas meu nervosismo aumentou quando eu vi que Ferri realmente estava ali.
Brian estava todo empacotado. Vestia um casaco enorme e preto. Ele sorria enquanto estava sentado na capota de um carro qualquer, já me esperando.
Aproximei-me e logo entreguei seu café, sentando-me ao seu lado sobre aquele carro. Ele olhava para as estrelas, analisando o céu que já havia parado de nevar, e estava tão limpo e iluminado.
ㅡ Acho que vir com você até o estacionamento não tenha sido uma boa ideia. Está frio demais aqui, sua saúde é frágil...
— Boa noite também, doutor King. ㅡ ele diz sorrindo, bebericando o café.
Sorri para ele brevemente, vendo como seu nariz estava vermelho devido a sua exposição ao frio.
— Isso não foi mesmo uma boa ideia. — disse-o. — sua saúde é frágil, vamos entrar, será melhor para você.
— Não. — ele disse assoprando um pouco do café quente, bebericando-o outra vez. — A noite está bonita, e só podemos vê-la aqui de fora. Faz muito tempo que eu não aprecio as estrelas.
ㅡ Podemos tirar uma foto e apreciar do seu quarto quentinho, o que me diz?
ㅡ Não vai ser a mesma coisa. ㅡ ele fala, rindo, ajeitando-se melhor sobre o carro.
Eu também me ajeito, unindo minhas pernas para abraçá-las.
— De quem é esse carro? — pergunto.
Brian olhou para o veículo de cor vermelha e deu de ombros, fazendo-me rir em descrença.
— Não me diga que estamos sentados sobre o carro de um desconhecido, Ferri!
— O café está uma delícia. — ele desconversou.
— Brian!
Desta vez ele riu ao me ouvir chamar seu nome de forma alta, mostrando-me seus dentes protuberantes e sorriso bonito enquanto negando.
— Não vamos levar um carão. O carro já estava aqui quando eu cheguei.
ㅡ É claro que estava, isso aqui é um estacionamento!
ㅡ Não vamos ser presos, então relaxa, doutor. Bebe seu café, ele vai ficar frio logo, logo.
— Eu sou um médico renomado, não posso ser expulso do hospital por algo assim. — disse tentando assustá-lo, mas bebi meu café que ainda permanecia quente, desviando meus olhos para as estrelas que pareciam acender ainda mais ao serem apreciadas.
Brian suspirou, bebendo seu café. O silêncio tomou conta do ambiente por alguns breves momentos, mas eu me sentia tão em paz que eu sequer ligava, já que não chegava a ser desconfortável.
— Então doutor, isso não é mesmo um encontro, certo?
— Exato. Não é não. — respondi sem olhá-lo, ainda encantado com as estrelas.
— Então... porque meu coração está acelerado?
Desviei meu olhar para Brian e outra vez sorri.
— Tem certeza que não está mesmo tendo um infarto? ㅡ toquei o centro de seu peito. ㅡ seria muito irresponsabilidade minha, te deixar morrer assim. Já estou me sentindo culpado o suficiente em ter marcado isso aqui, num dia de frio tão denso.
— Veja você mesmo? Seria um infarto ter ele batendo tão forte assim? — Ferri ainda abriu o casaco, me fazendo tocá-lo mais diretamente.
Me perdendo em riso, aproximei melhor minha mão e toquei o centro de seu peito.
O coração estava batendo forte demais.
Franzindo o cenho, buscando meu estetoscópio no bolso do jaleco mais uma vez, e aproximei-me ainda mais, preocupado.
— Sente alguma dor? — perguntei ouvindo cada batimento.
— Só quando estou longe de você. — respondeu.
Medi olhar com Brian e neguei.
— Falo sério. Me responda, por favor.
— Estou respondendo e falando sério também. Meu coração quer ser só seu, mas como você o rejeita, ele dói todas às vezes que você se afasta.
Desistindo de fazer meu papel como médico, afastei-me de Brian e encarei-o nos olhos.
— Você é um bobo, mas não deve brincar com saúde.
— Viu? Está começando a doer outra vez. — ele diz, fingindo dor, apertando a mão livre sobre o peito. — você o maltrata, doutor. Você tem mesmo um diploma?
É inevitável não rir perto de Ferri, ele transcende essa coisa que faz-me ficar bobo em segundos, então outra vez sorrindo, desviei o olhar.
— Sou o melhor cirurgião geral do país, então sim, tenho um diploma.
— E onde ele está agora?
— Na minha casa. — respondi-o bebendo de meu próprio café.
— Poderia me mostrar?
Outra vez olhando Brian, ergui as sobrancelhas.
— Você quer ir à minha casa?
Ele apenas assentiu, dando um gole generoso na bebida.
— Você não tem um pingo de vergonha, não é?
ㅡ Estou morrendo, pra quê perder tempo, hein?
ㅡ Você é um galanteador, Ferri.
— Eu tento.
Encostando-me mais no carro, mas com cuidado e medo de que algo ali quebrasse, relaxei um pouco meus ombros.
O dia não havia sido intenso outra vez, apenas algumas emergências de acidentes domésticos ou pela neve alta nas ruas, então agora tirava um pouco de tempo para descansar, apreciando as estrelas e a companhia.
— Pode dizer doutor. — Brian falou, também encostando-se no carro, descansando, virando de lado para mim.
Olhei-o e sorri.
— Falar quê? Que esse vidro provavelmente irá quebrar? ㅡ brinco, também me virando para si.
— Nah, ele é temperado.
— E como sabe? — arqueei outra vez as sobrancelhas.
— Intuição, mas não fuja do assunto, doutor King...
— O que quer que eu diga?
— Que você também está se apaixonando por mim.
— Não seja bobo, Brian. — falei desviando o olhar.
Eu não estava, estava?
Senti sutilmente o movimento que ele fez sobre o carro e me atentei ao barulho que a lataria fez. Olhando-o agora de perto, senti meu próprio coração acelerar.
ㅡ Pare com isso... ㅡ pedi, ainda me sentindo atordoado.
Afastando-me sutilmente, bebi o restante de meu café, sem conseguir desviar meus olhos dos dele quando ele voltou a se aproximar mais.
— Se eu sou bobo, então... Por que você está tão nervoso?
— Eu não estou nervoso. — disse convicto, afastando o copo agora vazio.
— Está sim, doutor. Suas bochechas estão ficando vermelhas. — falou, constatando o que provavelmente era causado pelo frio.
Toquei, sentindo-as frias, e neguei.
— Não tem nada a ver. É devido ao frio.
— Tudo bem, então. Mas por que está aqui? Porque me convidou para isso? — perguntou baixo, ainda próximo demais.
Não, eu não estou aqui porque estou apaixonado por Brian. Isso é impossível.
Eu sou médico, e ele é um paciente. Brian está doente, e eu preciso deixá-lo bem. Apenas isso.
Erguendo-me, desci do carro, vendo-o completamente me olhar confuso.
— Vamos entrar, não é bom para você ficar muito tempo no frio. ㅡ falo, assoprando a fumaça apenas para me distrair, já que ainda me sinto completamente nervoso.
Brian desce do carro, aproximando-se de mim, rindo.
— Estou bem doutor King, mas, por favor, me empreste o Dylan por um minuto. Eu quero o humano normal, e não o médico aqui.
— Eu sou humano normal e médico. — rebato. — e por isso estou pedindo para entrarmos. Se você piorar, eu vou me sentir muito culpado. Não sou nenhum adolescente para achar o perigo bonito, Ferri. Eu prezo sempre pelo bem-estar.
— Tudo bem, eu faço o que quer, mas com uma condição.
Olhei-o e entendi bem o que queria.
Neguei.
— Não. Não vou fazer isso. — respondi-o.
— Ok, então. — ele fez bico, adentrando as mãos nos bolsos do casaco, ficando os pés na neve. — Ficarei bem aqui.
— Meu Deus, como você é chato! — rosnei, vendo-o com o semblante mais pleno possível. — isso é chantagem, sabe disso? Até é crime, eu acho.
— Não, não é crime coisa nenhuma. E isso é só um jeito que planejei para dar um beijinho da pessoa que está me deixando todo coisado. É natural.
— Isso não teria a mínima condição de acontecer... Você sabe bem o porquê.
— Doutor... — ele falou, aproximando-se com seu corpo mais alto, parando a poucos centímetros de mim. — Por que não ficamos aqui mais um pouco? As estrelas estão lindas. Você pode olhá-las, enquanto eu apenas te observo. — tocou meu queixo.
Ainda olhando-o, suspirei.
ㅡ Pare de tentar me conquistar, é nulo.
ㅡ Será que é mesmo? ㅡ ele sorriu, ainda me tocando.
Bufei.
— Brian, você está doente, precisa entrar. Não seja burro.
— Você sabe porque estou aqui?
ㅡ Porque está doente.
ㅡ Não. Porque nada mais me cura, então estão apenas me mantendo preso nesse lugar, com a desculpa de que um novo estudo está acontecendo, mas eu sei que nada vai me ajudar. E eu também sei que não tem um pulmão novo para mim aí dentro, então não precisam de mim agora.
— Mas você precisa se cuidar... ㅡ amoleci minha voz, olhando-o nos olhos. ㅡ por favor. Ao menos se cuide por mim...
— Então me dê só um beijo. — pediu manhoso, subindo também sua mão livre e com ambas em minha bochecha, encarou-me. — Por favor, doutor... Só um beijo, Dylan.
Neguei fraco, desviando meu olhar com meu coração tão acelerado quanto o dele também estava, analisando a quietude ao redor.
— Por favor, doutor King, eu posso morrer de amor agora mesmo. ㅡ ele brincou, escorregando os polegares por minhas bochechas, acariciando-as.
Sorrindo com sua piada sem hora, mordi meu lábio inferior.
Que moleque atrevido...
— Nós não podemos. — falei, voltando a olhá-lo outra vez. — Eu realmente falo sério. Não podemos, Brian...
— Podemos sim. Basta apenas querer.
— Mas não devemos. — reformulei. — Eu não posso beijar um paciente do mesmo hospital que trabalho, é contra a ética.
— Não há ética quando se há desejo. E eu desejo muito te beijar. Um coração apaixonado merece ter o que deseja, não acha? Ainda mais o meu que está num corpo tão doente e logo, logo parará de bater...
ㅡ Não fale assim.
ㅡ É só a verdade. Se eu vou morrer, porque tudo precisa ser levado tão a sério? Vamos quebrar as regras.
Olhando-o por segundos de quietude, vi Brian esperar por mais uma de minhas respostas negativas para devolver a sua réplica.
Mas eu apenas sorri, vendo-o ainda com o nariz vermelho e com o cateter mais uma vez torto. Observei seu corpo embalado como um bombom trufado naquele casaco, e suspirei.
Porque estou agindo assim? É só uma brincadeira.
— Você não parece ter a idade que têm, sabia? — disse-o. — Age como um moleque. Parece um moleque...
— Você não parecia ser tão do m*l assim. — ele rebateu, aproximando-se enquanto me dava um belo sorriso. — seu médico do mal...
Ainda com meu rosto sendo seguro por ele, respirei fundo e fechei meus olhos, finalmente me entregando quando percebi como Brian apenas esperava por uma atitude minha, e sem tempo para pensar mais, porque eu realmente estava ficando preocupado com sua saúde e com meu próprio coração acelerado, rompi a pequenina distância entre nós dois e uni nossos lábios gelados, suspirando com o modo surpreso em como ele ofegou ao sentir aquilo.
Eu não quis pensar demais sobre o que estava fazendo. Parecia errado demais na minha mente.
É claro que Brian é um dos pacientes do hospital no qual trabalho, e era mais nítido ainda que ele não poderia ficar ali, no frio.
Então, ainda pensando no lado mais racional de todos, cedi ainda mais e segurei-o com delicadeza através do casaco que vestia, sentindo sua língua deslizar sorrateiramente sobre a minha, envolvendo-se ao beijo tão amedrontado e surpreso que estávamos dando.
Na verdade, o lado racional era apenas uma máscara na qual eu podia usar livremente caso nos víssemos ali, caso fossemos pegos de surpresa. Eu estava apenas cedendo a algo que já crescia dentro de mim sem sequer entender e que eu queria, com todas as forças, reprimir, mas não conseguia quando o tinha bem a minha frente implorando com um sorriso que me deixava mole nos lábios, os olhos pidões e a pontinha do nariz tão vermelha que parecia se acender na imensidão branca da neve.
Então, ainda juntos, aproveitei o beijo demorado. Eu sentia vontade de mais daquilo, o gosto era de café, mas se tornava mais gostoso pela forma em como ele parecia querer muito por aquilo. Afastei-me, dando um último selar nos lábios dele e abri meus olhos com vagareza, encarando os escuros que pareciam se acender como lindas estrelas.
Um sorriso recíproco veio ao meu.
Juntando ligeiramente nossos lábios outra vez, ainda sem prensa, pude ouvir o arfar de Brian mais uma vez.
Meu próprio coração batia ainda mais forte, mas eu sabia que era por ainda mais desespero.
Sentindo como os lábios meramente finos se encaixavam bem aos meus, dei outra vez impulso ao toque, trocando as posições de nossos lábios e deixando com que os meus se deslizassem entre os dele.
Minhas mãos subiram até sua cintura, adentrando o casaco quente para segurá-lo com ainda mais firmeza, me prendendo completamente a ele.
Eu poderia realmente desmaiar com o tamanho do nervosismo que completava o meu corpo, a cada vez que ele descia seus dedos frios e tocava minha nuca, brincando com meus cabelos loiros, talvez ansiando puxá-los.
Talvez até mesmo eu queria que ele ansiasse por aquilo, pois, quando em o puxei mais um pouco, abraçando ainda mais sua cintura, senti enfim seus dedos deslizarem por meus cabelos, adentrando-os ali em carícias leves, me fazendo suspirar entre o toque e a cada vez que se atrevia a puxar com calma.
Com o brilho das estrelas sobre nós dois e o gosto dos cafés se misturando ainda mais em nossas bocas, foi assim que dei meus primeiros beijos em Brian.
Era bom, viciante, mas ainda assim, eu era o médico e ele o paciente.
Lentamente findei a embolação de nossas bocas e me afastei devagar, vendo-o com um sutil avermelhado em seus lábios, combinando agora perfeitamente com o tom que tinha sobre seu próprio nariz.
Seus olhos sequer piscavam, esperavam algo ser dito por mim.
Mas eu ainda me sentia perdido na vontade que crescia lá dentro e que parecia gritar: beija ele outra vez.
Talvez ele quisesse que eu voltasse a beijá-lo? Era uma vontade que crescia mesmo em mim, mas eu não podia, ainda mais porque naquele momento a neve voltou a cair, e eu me atentei a como a imunidade de Brian ser tão baixa que um resfriado poderia matá-lo.
Então vesti o doutor King durão que eu estava sendo desde o início e o encarei, suspirando levemente antes de dizer:
— Agora que eu te dei o que queria, por favor, entre.