Capítulo quatro

2961 Words
Imagine trabalhar enquanto a imagem de um paciente sempre lhe sonda as ideias? Era h******l. Eu me sentia culpado. Sim, eu sentia. Não poderia ter beijado Brian. Não deveria ter o beijado. Mas caramba, acho que a minha falta de senso junto a minha falta de beijos e calor humano me fez fazer esse tipo de besteira. Me sentia péssimo, porque, infelizmente, eu não criaria sentimento nenhum por Brian. Sentia muito por ele e por talvez ter duvidado dos seus sentimentos. Agora, pensando nele e em seu sorriso de dentes avantajados e em seu nariz sempre com o cateter torto eu penso se posso mesmo quebrar seu pobre coração. Não quero que isso aconteça. Sou um médico, eu conserto órgãos, não os quebro. Se bem que, no literal, o coração é apenas “mais” um órgão do corpo, seu trabalho é apenas nutrir todo o corpo humano com o sangue que bombeia através de cada artéria distribuída por nós. Mas ainda assim, na literatura, o órgão é sempre descrito como o responsável por nos fazer nutrir o que chamamos de sentimentos, onde muitas das vezes, nasce o amor. Mas eu sabia que não o amaria, por tanto, me sentia realmente m*l. E não foi fácil caminhar pelos corredores do hospital sem realmente lembrar dele. Tudo ㅡ literalmente ㅡ me lembrava ele! E estar em um hospital não ajudava nem um pouco porque eu sabia que ele estava aqui também. Estava em seu quarto e começa a sentir medo de encontrá-lo e não saber como reagir. Lembrar do que houve e de como eu me senti com ele também foi impossível de esquecer. Porque, mesmo eu tendo a “convicção” de que não vou me apaixonar por ele ou algo assim, como eu disse, estive carente desde meu último relacionamento, e beijá-lo de fato foi bom. Muito bom. Mas foi só. Mas com o passar dos dias ㅡ mesmo fugindo dele sem sequer perceber ㅡ eu ainda o via. Sempre! E Brian também não me ajudava muito. Sempre o via perdido pelo hospital, caminhando e conversando com todos, e todas às vezes em que ele me via, ele sorria de forma que me desconcertava por completo e de um jeito que eu nem sequer entendia. Ele acenava para mim com seu jeito todo bobo e eu também ficava bobo. Porque não sabia como reagir nunca! Teve uma das vezes ㅡ juro, eu quase gritei de susto ㅡ ele apareceu do nada na minha frente e só sorriu. Meu coração disparou sem ritmo e ele só continuou lá, parado. Depois, olhou para os lados, vendo que só havia alguns enfermeiros no final do corredor e me puxou pela cintura até a escadaria. E me surpreendeu a velocidade que ele subiu a escada de mais ou menos oito degraus. Mas no final dela, Brian parou e respirou fundo, repousando as mãos sobre os joelhos como se estivesse corrido uma maratona. E é claro, eu quase morri de preocupação! Eu o fiz sentar no último degrau, buscando meu estetoscópio para ouvir como seus pulmões faziam um som muito bruto para conseguir fazê-lo respirar bem. ㅡ Precisa tomar cuidado. ㅡ foi o que eu lhe disse, mas Brian, mesmo ainda buscando por oxigênio, só me deu mais um de seus sorrisos bonitos e perguntou o que era bem obvia de sua parte. ㅡ Quado a gente vai se beijar de novo? Eu juro, senti minhas bochechas queimarem e me envergonhei por estar com vergonha! Um médico como eu, com um nome de peso, diversas cirurgias bem sucedidas e com artigos publicados e prêmios ganhos, estava de bochechas rosadas por causa de um cara! I.N.A.D.M.I.S.S.Í.V.E.L! Inadmissível... era o que eu sempre repetia para mim e dizia a ele ㅡ mesmo sempre ficando vermelho ㅡ que aquilo não aconteceria mais. Eu via como ele reagia e sabia que ele não iria desistir. Mas eu também já começava a não querer que ele desistisse, o que, é claro, é bem hipócrita da minha parte, já que eu sempre acabo o colocando para trás. No fundo, eu sabia que minha vontade era completamente o contrário do eu o respondia. Eu sempre focava mais em sua boca do que qualquer outra área do corpo e pensava nela o restante do dia. Também adorava quando via o modo em como seus olhos se abriam quando eu me aproximava para arrumar seu cateter torto e acaba tocando em sua pele. Eu me arrepiava apenas com aquilo! Outra vez digo: I.N.A.D.M.I.S.S.Í.V.E.L! Mas, no fundo, era só medo... Não entendia o porquê de me sentir tão fraco quando a lembrança do beijo retornava as noites. Eu poderia estar em casa, de plantão, nunca consulta, ou, sei lá… comprando um café. Eu me lembrava do toque, do gosto e do momento de nosso beijo e me sentia totalmente franco... Eu sabia que não era pena o que eu sentia por Brian Ferri, mesmo que eu soubesse claramente como estava sua saúde e como ela ficava cada vez pior. Mas eu não tinha, e talvez nunca terei, esse sentimento por Brian. Ele não merece que sintam pena de si. Mesmo que ele andasse com seu cateter no nariz e seu concentrador de oxigênio para todos os lados, ele sempre mostrava-se apenas alegre, sempre falante demais e cheio de piadas e sorrisos, o que fazia com que qualquer um esquecesse que ainda estava doente realmente. Agora imagine. O nosso beijo ㅡ ou o beijo dele para mim ㅡ teve gosto de café. E café é algo que eu com certeza não vivo sem. Mas beber até mesmo a bebida tornou-se impossível e pelo simples fato de que isso também remetia a Brian, O destino com certeza tentou ser bastante engraçado quando me fez beijar um cara que eu não deveria e que ainda teve o gosto da minha coisa favorita no mundo inteiro! Puta destino b****a! Mas como eu disse, os dias foram passando e admito, quando eu parei de ver Brian pelos corredores, senti falta dele. Mas eu sentia muita mesmo. Eu sempre ficava me esgueirando pelas brechas e folgas de cirurgia em cirurgia que tinha para escapar até a lanchonete e esperava para vê-lo ou rezava para ele aparecer como sempre aparecia: do nada! E depois de tantos dias sem vê-lo, começo a pensar se gosto dele ou se estou ainda mais carente. É difícil de pensar. Meu coração diz uma coisa quando a mente diz outra completamente diferente. E hoje, ao acordar, pensei como seria ter mais um dia sem vê-lo. Não gostei da sensação. Pesquisei por seu quarto ㅡ o número do quarto ㅡ e até passou por minha mente ir até lá, sei lá, talvez fingir que estava só de passagem. Mas não queria parecer pretensioso e inconveniente. Com o tanto de “Não” que eu dei a ele é capaz dele realmente não querer mais saber de mim. Até passou pela minha mente ir até seu quarto, mas talvez fosse inconveniente demais. Mas eu realmente quero ver Brian, talvez eu precise disso, e com isso ainda não aconteceu, infelizmente ainda não pude sorrir... ㅡ O que houve? ㅡ perguntou meu companheiro de trabalho, Levi, o nosso médico pediatra. Ele também é meu melhor amigo, o amigo de todas as horas e tempos. Levi se tornou a minha pessoa favorita ㅡ o que costumamos até mesmo chamar de “alma gêmea” ou metade da maçã” ㅡ porque ele é médico e gay, ou seja, ele me entende em tudo. Serio. EM TUDO! E, ok, às vezes é um pouco descarado, mas, eu o amo assim mesmo. ㅡ Como assim? ㅡ perguntei olhando o quadro e verificando as cirurgias que teria para hoje. ㅡ Você está sem atenção... ㅡ ele disse pondo seu nome num dos vagões ali e encostou-se, sorrindo. ㅡ quer me ajudar? ㅡ Não. Você vai operar uma criança muito pequena e eu só estou em busca de felicidade na minha vida. ㅡ Ué, e desde quando operar um pequenino é tristeza? ㅡ Quando ele morre. Estou vendo que irá fazer uma cirurgia oncológica, ou seja, criancinha com câncer, sabe que eu não gosto de ver isso… ㅡ Mas é um tumor em estágio dois. Vou retirá-lo cem por cento. ㅡ Mesmo assim, obrigado, mas, não. Levi suspira, assentindo. ㅡ Certo, mas você ainda não disse o porquê de estar tão sem atenção. ㅡ Sem atenção? ㅡ franzo meu cenho. ㅡ É, você está aéreo e fica olhando para os lados. Está procurando alguém? ㅡ Você está louco. ㅡ respondi ㅡ sou um médico cirurgião, concentração é tudo o que mais tenho, só quero fazer algo feliz. ㅡ Você vai fazer uma apêndicectomia, Dylan! ㅡ Não enche, eu gosto... ㅡ Se você diz... ㅡ ele fala, abandonando o assunto e caminhando mais rápido até parando a minha frente. ㅡ Preciso te contar algo. Eu vejo no sorriso de Levi que é sobre sua vida partícula. Mais precisamente sua vida íntima. ㅡ Ha, não. ㅡ respondo sorrindo porque eu sei de quem ele quer falar. Levi ergue sua carranca que logo toma conta de seu rosto com uma caretinha. ㅡ eu sei que isso vai ser sobre o outro cirurgião geral daqui. E você sabe que eu não sou tão fã dele assim. ㅡ Ah, ele é legal comigo ㅡ E é exibido comigo. ㅡ Você também é com ele, e isso não te faz não ser legal. ㅡ Não? ㅡ rio, cruzando os braços. ㅡ Não! ㅡ Bem, então eu acho que um exibido não gosta de outro exibido, é isso. ㅡ Só me escuta, vai... ㅡ ele me puxa como uma criança chata e olha ao redor, sorrindo cúmplice ao se aproximar mais de mim e falar: ㅡ nós fomos ao hollys ontem. ㅡ O bar do outro lado da avenida? ㅡ pergunto sem muita emoção, mas Levi assente com muito vigor. ㅡ Esse mesmo! ㅡ Não é nada de mais, todos os médicos, enfermeiros e até atendentes vão para lá. Nada de especial. ㅡ Sinceramente? Acho que você é chato sim! Eu rio, me divertindo do jeito que ele fala. Mas é exatamente que faz Levi e eu sermos melhores amigos. Nós nos alfinetamos demais, mas mesmo assim, ele me faz um bem gigantesco com seu jeito. Sem ele eu com certeza seria a pessoa mais amargurada do mundo. Sem ele e sem café, é claro. Aliás… café, beijos… Brian… Suspiro me lembrando dele mais uma vez. Balanço a cabeça para afastar os pensamentos quando volto a pensar em Brian outra vez e foco no que Levi quer falar. ㅡ Só me escuta, ok? ㅡ ele pede, segurando meu rosto. Eu assinto, vendo-o voltar a abrir seu sorriso. ㅡ depois que bebemos um pouco no Hollys, nós fomos lá para casa. O Taylor, aquele carinha que alugou o quarto vago, sabe? Ele reclamou um pouco porque a gente tem a regra de avisar antes de simplesmente levar alguém para lá, mas eu e Johnny não fizemos tanto barulho assim… Ele só é um chato mesmo... ㅡ Me desculpe Levi, mas eu não quero saber da sua noite repleta de luxúria com o Johnny. Preciso ir trabalhar, sabia? ㅡ Você também, hein... ㅡ Levi diz me olhando e estala a língua em desaprovação. ㅡ eu sei bem o que é isso... ㅡ Se você continuar com o que eu sei que quer falar, eu te corto com meu bisturi. ㅡ ameaço, mas ele apenas ri. ㅡ E eu faço o quê? Te dou um dos meus pirulitos? ㅡ negou. ㅡ Dylan... Você precisa sair um pouco, precisa conhecer pessoas novas. Jhosef está no passado, ele já se foi! ㅡ Literalmente. ㅡ rio amargo, me lembrando do meu ex. ㅡ ele está lá, do outro lado do mundo, sendo o médico salvador perfeito que me deixou sem sequer se despedir. Filho da mãe... ㅡ Exatamente, e o que você faz? Nada! Você só está aqui... reclamando… ㅡ ele negou e me abraçou pelos ombros. ㅡ Você precisa mostrar a ele que não é só um “gado”. ㅡ Eu não fui corno, Levi! ㅡ Você quem acha. Eu já te falei que eu vi ele uma vez conversando no ouvido de um enfermeiro e eles pareciam bem íntimos. ㅡ Grr… isso é passado, esquece! O olhei e o vi revirar os olhos. Freei os meus passos e outra vez vi Levi sorrir. ㅡ Deixa de ser tão ridículo! ㅡ o pedi, vendo-o negar, mas ainda rindo. ㅡ É sério, Dylan, você precisa beijar na boca um pouco! ㅡ E quem disse que eu não beijo?! Levi cessou o riso e abriu os olhos. Dessa vez sou eu quem rio. Ele é muito curioso! ㅡ Beijou na boca de quem?! ㅡ eu sei que ele se controla quando, na verdade, ele quer é gritar a pergunta. ㅡ Não te interessa, seu curioso! ㅡ Claro que interessa, eu sou seu melhor amigo! Vai, me diz logo, quem é o sortudo que beijou essa boquinha ai, hein? Minha nossa, você está namorando e nem me contou?! ㅡ Não seja i****a, Levi! Eu não estou namorando ninguém! ㅡ Então o quê? ㅡ Nada. Aliás, preciso ir trabalhar agora. ㅡ Não vai mesmo me contar? Volto a caminhar devagar, olhando para ele enquanto rio e n**o. ㅡ Não mesmo. ㅡ Me diga ao menos vai beijá-lo mais! ㅡ Quem sabe... ㅡ Que raiva de você, agora me deixou curioso! Do jeito que você é duro na queda, bem capaz de nem beijar esse pobre coitado aí. Não seja assim, doutor Dylan King! Transe, viva! Revirei meus olhos e continuei minha caminhada, ainda tendo Levi como uma pulga grudada em mim. ㅡ Trevis e Atena, vocês ficam comigo hoje. ㅡ Avisei aos meus residentes em sua sala e os vi assentir rápido, se erguendo para me acompanhar. Não é me gabando, mas eles sempre agem assim quando sou eu quem os escolhe. Dylan King é bastante conhecido por sua perfeição e destreza. E ser ele é muito bom. ㅡ Josh, venha. ㅡ Levi pediu um tanto amargo. O rapaz assentiu e sorriu, mas Levi não pareceu muito feliz. ㅡ O que foi? ㅡ perguntei curioso e baixo. ㅡ Ele fala muito e é alegre demais, não gosto de tanta felicidade perto de mim. ㅡ Você trabalha com crianças, Levi! Alegria é algo muito importante, não acha? ㅡ Talvez, mas não demais. A risada de Josh é excepcionalmente alta, dói nos ouvidos. E eu não gosto mesmo de quem sorrir demais. ㅡ Nossa como você é hipócrita… ㅡ Ué, por quê? ㅡ Porque você literalmente está transando com o dono da risada e sorriso mais escandaloso desse hospital inteiro. Johnny Bennett é tão feliz que dá enjoo ㅡ eu disse, vendo-o outra vez revirar os olhos. Trevis e Atena pararam ao meu lado, mas eu me atento ao modo em como Levi não tem mais sua caretinha para mim, e sim um sorriso gigante para quem vem atrás de mim. E quando eu olho sobre o ombro, é a minha vez de fazer careta. ㅡ e por falar nele... Johnny, o segundo cirurgião geral vinha em nossa direção, cumprimentando e sorrindo para todos por onde passava, e... credo, nunca vi alguém sorrir tanto assim a essa hora da manhã. Pura falsidade. Tenho certeza. ㅡ Bom dia. ㅡ ele fala, aproximando-se de Levi e deixando um selar em sua bochecha. ㅡ está lindo hoje, meu bem. Trouxe café para você. Levi sorriu, agradecendo-lhe o elogio e a bebida. Aproveitando a aproximação para roubar um beijo rápido do Bennett, e não sei por que, mas outra vez Brian me vem à mente rapidamente. Talvez seja porque tudo que o garoto fala ㅡ ou falava ㅡ é de beijos e mais beijos. Acho que sinto saudade dele. ㅡ Bom dia, doutor King. ㅡ Johnny me deseja, olhando sorrindo e me forçando a sorrir de volta também. ㅡ Bom dia, doutor Bennett. ㅡ Irá à conferência? ㅡ ele pergunta, mas antes que eu responda, ouço sua alfinetada ㅡ Quer dizer, você foi convidado? Eu apenas sorri debochado. ㅡ Fui, mas não irei. Eles precisam de médicos “bons de verdade” aqui, então faço questão de ficar. Mas desejo que você aproveite bem a conferência, talvez te ajude a dar um ‘up’ na carreira... Bennett sorriu tão debochado quanto eu, enquanto Levi revirava os olhos para nós dois. ㅡ Vocês parecem duas crianças… ㅡ Levi soltou aquilo, mas bebeu o café e foi abraçado pelo outro. ㅡ Bom, preciso ir, tenho que ver meus pacientes. ㅡ avisei-os. ㅡ bom trabalho a vocês. Afastando-me, tudo o que eu ouvia agora eram os passos dos meus residentes que viam logo atrás, e aquilo chegava a ser até irritante. Mas me mantive firme. Eu precisava ajudá-los a aprender como ser tão bom quanto eu. Assim, adentrando em um dos quartos, parei na porta para que eles adentrassem primeiro. ㅡ Trevis, apresente o paciente, por favor. ㅡ pedi. Caminhando até a cama cujo paciente estava, vi Trevis apresentá-lo calmamente e sem erros e logo encaminhei os exames necessários para o caso. Não gostava tanto de apenas averiguar situações, eu realmente amava as cirurgias. Mas alguns dos pacientes eram visitas pós cirúrgicas, e esses mereciam minha total atenção porque eram pessoas que me confiaram suas vidas numa cama cirúrgica, então eu até me divertia com esses ao vê-los acordando e sorrindo aliviado. Os outros casos eram casos emergenciais que precisavam de minha atenção. E de “muita” atenção. E um dos casos em específico, fez meu coração acelerar por parar em frente a porta do quarto e verificar o número. De todo o tempo em que eu vi os casos, nunca pensei que seria logo aquele. Logo ele!
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