Kaique Lopes, vulgo KL.
- deixa eu ver isso aí. - digo chegando na boca após o meu radinho tocar avisando que chegou a d***a.
Como de costume experimentei a coca pura... Oh coisa mais boa poha.
- e como que tá o andamento do baile? - perguntei pra um de meus vapores, que são meus aliados que cuidam do morro e fazem ronda. Ou chamo de vapor, ou chamo de rato. Eles atendem pelos dois jeitos, decorar vulgo é só pros mais chegados.
- tudo certo patrão, o negócio é não chover nesse final de semana tlg? - neguei bolando um.
- da nada, todo fim de semana vai ter baile agora. Quero que convide geral, manda mensagem pras mina e manda elas trazerem as amiguinhas do asfalto. - acendi o cigarro já bolado e traguei. - tô precisando de mina nova.
- pode pá chefe.
Continuei checando a maconha e a coca que chegou, até resolver descer no barzinho e beber uma gelada. Meu braço direito, Diego, mais conhecido como DG, tava lá bebendo já.
Meu nome é Kaique, tenho 27 anos, dono do morro a 7 anos. Assumi isso aqui quando meu pai morreu numa invasão com o jacarezinho, ainda tô caçando aquele filho da put4.
Mas vida que segue.
Tenho uma irmã, Luane, e uma mãe mas minha mãe não mora no morro, já minha irmã sim. Só me dá prejuízo e eu preciso ficar de olho por que se depender de mim, ela vai ser virgem pra sempre.
Ela tem 22 e sim, eu que mando e ela sabe dos bagulhos, ela tá ligada nas fita, desobedece pra ela ver.
Chegou umas mina no barzinho e já me deram mole, já fiquei na esperta por que tô afim de f0der alguém hoje.
- fala tu. - disse Diego, adentrando o bar.
- tô só pelo baile, na real. - digo olhando as mina de shortinho.
- daqui a pouco já tá nos trinta e ainda não arrumou ninguém. - ri, bebendo minha cerveja.
- não tô a fim de ter alguém presa no meu pé pra sempre. - digo sério. - papo reto.
- tá ligado que desse jeito vai morrer sozinho né? - dei de ombros.
- já nem ligo mais, sabe como era minha mãe e meu pai né? O amor não é pra mim cara. - ele negou com desdém.
- um dia vai querer isso.
- iiih qual é menor, tá falando essas coisas por que? Tá querendo essa vida? - fiz cara f**a, na brincadeira.
- eu quero uma família, alguém que eu sei que vai tá em casa esperando por mim. - pensei até beber minha cerveja.
- tá, esse papo ja tá zoado. - encarei as meninas.
Queria f0der cada uma delas, pagava oque fosse.
Fiquei no bar até dar as horas de ir pra casa, Luane deve tá chegando do trabalho.
Ela trabalha no asfalto e foi uma encheção de saco ela me convencer disso, porém depois de dias pensando cheguei na conclusão de que ela deve conviver com pessoas do asfalto, aquelas que querem algo da vida.
Mas não a deixo ir sozinha não, ela sempre vai com um vapor de confiança meu.
Acendi um baseado e fiquei nas redes sociais, sentado no sofá com um pé pra cima e o joelho dobrado.
Luane demorou um bocado pra chegar mas os meus vapores avisaram que viram ela na ladeira.
- demorou né. - digo assim que a vejo entrar.
- aff, não começa, eu tive que ficar até mais tarde. - bufei.
- tô de olho em Luane.
- novidade. - revirou os olhos. - esse finde tem baile?
- uhum. - traguei a maconha.
- vou chamar uma amigas. - já imaginei como são essas amigas.
Não por nada mas Luane só tem amiga gostosa.
Ela subiu e eu fui pra cozinha pegar um latão, tava calor demais.
O silêncio me fez pensar que tô pegando leve demais nesse morro, já é o quinto baile que dou deixando todo mundo passar sem ser revistado, depois acontece uma troca de tiro e eu não me perdôo por ver tanto morador morto... Já aconteceu diversas vezes.
Peguei o celular pra pedir lanche mas recebi algumas mensagens e tive que responder.
Esse baile promete, vai vim até um irmão do complexo da maré.
Diz ele trazer umas gatas e só tô por isso.
Mas ainda tá cedinho e preciso sair já pra resolver mais coisas. Deixar tudo organizado pro baile.
Luane.
Kaique é muito chato, tá louco.
"Luane não pode isso, Luane não vai fazer isso, se tu fizer tu tá fudid4!"
Blá blá blá.
Faço se quiser.
E eu faço, bem escondido mas faço.
Sinceramente acho que Kaique não tem esse direito todo sobre mim mas o amo, ele é o meu irmão e esteve comigo sempre.
Mas é um chato.
Tomara que conheça uma put4 digna de amor e que ocupe a mente dele.
Tirei o salto que eu usava, o vestido social f**o e soltei o cabelo.
Sou secretaria em uma empresa de produtos bancários. Já fazem algumas semanas que comecei lá e conheci algumas amigas.
Mas fico lá até a noite e várias delas só até o meio dia, hoje que também fiquei até o meio dia.
Peguei o meu celular antes de ir pro banho e mandei mensagem no grupo que temos, feliz da vida por ter baile e eu ter quem convidar. Sempre é um saco ir sozinha.
Faixa rosa ??♀️???
Você
Oi meninas, que tal um baile no finde?
Camila
Eu topo, onde vai ser
Ju
Necessito de uma noite de curtição, só precisa arrumar uma babá pro neném
Cintia
Só dizer onde é
Helena
Eu topo, mas se for no domingo precisamos voltar cedo kkk
Você
Entt... É no morro
Mas é de boa
Aqui é tranquilo em dia de baile
Ju
Amg vc mora no morro?
Camila
Amore topo qualquer canto, desde que tenha o kitzinho
Cintia
Olha eu não me importo que seja no morro mas pelas notícias não anda tranquilo não
Helena
Mas é qual morro gente?
Você
É no alemão
Ju
Lu, vou não, tenho um nenê pequeno, fico toda paranóica com isso
Você
Tudo bem Ju, mas prometo que vai ser de boa
Cintia
Vai ser tranquilo mesmo?
Você
Vai, eu prometo
Cintia
Entt eu vou
Camila
Eu tbm
Você
E você Helena?
Helena
Ah eu topo, mas não quero ficar muito e bem beber muito
Você
Tá bom gente, vamos é curtiirrr
Marcamos direitinho, oque me deixou muito feliz.
Finalmente terei alguém pra se divertir no baile comigo, oque é muita raridade.
Normalmente Kaique nem me deixar ir me deixa e quando eu insisto fico arrependida por que fica muito chato.
Me sinto um objeto dele, cachorrinha.
E isso é papel de put4, as put4s dele.
Enfim, larguei o celular e fui pro banheiro tomar um ducha, estava exausta pelo dia de hoje... Isso que foi só até o meio dia.
Sei que ser secretaria parece sentar em uma cadeira, ficar no ar condicionado e deu, mas não!
Você precisa ficar ligando, agendando e revezando muitas coisas no computador para o seu patrão.
É uma chatice e eu não posso reclamar por que daí sim Kaique vai ter algo pra dizer e com certeza vai ser um: "eu te avisei".
Por que insisti por esse emprego e mais ainda pra depender de mim mesma, se eu abrir a boca pra reclamar ele com certeza vai jogar na minha cara oque ele sempre joga na cara de todo mundo e talvez até me proíba de continuar trabalhando.
Depois do banho eu desci pra almoçar. Temos uma faxineira mas ela nunca cozinha por que ninguém tá em casa nesse horário... Então não tinha comida em casa pra se cozinhar.
Kaique não tá aqui.
Abri a porta avistando um dos vapores do meu irmão no portão, aquele que ele deixa aqui justo quando estou e provavelmente pra me vigiar.
- ei. - chamei, não sabendo seu nome.
O brutamontes alto e moreno se virou pra mim, com cara de m*l e segurando uma arma enorme.
- algum problema? - perguntou com a mesma cara, nem me intimidou.
- sim, tô com fome. - cruzei os braços. - da pra você passar esse radinho aí pro Kaique e mandar ele ter uma casa normal? Com comida e coisas básicas? - ele ficou me encarando.
Até por que dinheiro não falta pra comprar tudo que precisamos.
- vou ver o que posso fazer. - se virou e enfureci, saindo da porta e indo em direção a ele, que nem mesmo no radinho pegou.
- escuta aqui, você vai fazer o que eu mando por que eu não posso sair daqui. - Kaique não deixa, não sozinha.
- daqui a pouco ele chega patroa.
- patroa não! Eu não sou dona de nada disso! - em um movimento rápido eu puxei o radinho da sua cintura e sai correndo pra porta mas ele não correu atrás de mim... Porém sua raiva só aumentou.
- não..
- Kaique será que você pode lembrar que tem uma irmã e que ela é um ser humano que precisa comer?! Não tem nada pra comer aqui e se eu soubesse que seria assim eu nem tinha voltado pra casa! Manda os seus vapores vagabundos irem comprar alguma coisa, por que na hora de ficar atirando tiro pro alto eles são bom, mas fazerem favores normais nunca podem né?... E... Para de comer p**a cheia de doença. - o brutamontes já estava do meu lado. - toma. - entreguei o radinho em sua mão e ele me olhava com desdém.
- todos os vapores ouviram isso. - olhei pra ele.
- não ouviram não, eu mandei pro Kaique.
- não patroa, todos os radinhos tem a mesma linha. Mas se preocupa não, Kaique também ouviu. - engoli em seco.
Tem um vapores que são barra pesada, mas eles não podem encostar em mim... Mas tenho medo que toquem só pra eu aprender, isso é bem a cara do Kaique.
Entrei pra dentro e comecei a me convencer de que eles mereceram. Deveriam estar em casa ajudando a mãe deles, mas não, tão vendendo drogas pelo morro.
Eu não quero essa vida.
Mas também não quero me desfazer do morro, gosto daqui... Quando tá calmo.
E funcionou o meu recado, em meia hora entrou três vapores, ambos com duas sacolas cada um, cheia de tudo que eu queria.
E eu nem agradeci de propósito, não fizeram mais que a obrigação.
Tinha de tudo! Leite, iogurte, arroz, feijão, carnes, frios, frutas, saladas... Tinha tudo!
Kaique precisa ver quem manda... Ou pelo menos perceber que sou um ser humano e não um objeto sem sentimentos, fome e vida.
Ok, aproveitei, fiz um almoço bem caprichado e até deixei pra ele.
Enquanto isso ficava mexendo nas minhas redes sociais... Com meu lindo e belo iPhone 11 que por algum acaso está rastreável, oque da, AO MEU IRMÃO, total acesso de tudo que faço, dados, fotos... Tudo!
Tenho que tomar cuidado com isso por que tem um vapor que é um hacker, outro dia eu tirei foto de calcinha e segurando os s***s, ele viu e meu irmão pegou ele vendo a foto. Aí na cabeça do meu irmão eu que mandei pra esse tal cara aí e deu a maior m***a.
Mas eu não fiz isso, eu em.
Então... Cuidado com o que você tem no celular.
- aiai. - bocejei, na sala. - eu vou dormir. - me levantei e segui pras escadas.
Tô ansiosa por sábado, não n**o, quero um baile com minhas amigas.
Me atirei na cama e olhei minha conta bancária, por que é por ela que eu tô trabalhando.
Já tenho 4 mil reais e uns trocados. Comecei no trabalho a quatro meses por aí e como o Kaique que me banca, ainda não gastei muito.
Sim, eu uso o dinheiro dele, só pra ele aprender.
Quer mandar em mim? Ok, mas eu vou pegar metade do seu dinheiro.
Fechei os olhos e comecei a delirar de sono, eu não sei exatamente por que isso acontece mas acontece comigo toda vez que eu pego no sono.
[...]
Eu estava no décimo sono, ou pelo menos perto, quando fui acordada com alguns tapas no rosto e o ódio já me subiu.
- aaaaaaah Kaique que saco! - foi ele que vi quando abri os olhos.
- acorda então poha, tô te chamando faz tempo! - gritou bravo e enfureci.
- pode nem dormi mais nessa casa. - me sentei na cama.
- dorme igual uma pedra.
- tá oque você quer? - me estressei, tô put4.
- vou sair.
- e eu com isso. - nos encaramos.
- já sabe né, tira um pé pra fora de casa...
- e tu coloca mais dez vapores na minha cola, mimimi, já sei. - revirei os olhos.
- bom mesmo. - saiu andando.
- até quando essa vida de cárcere. - digo baixinho mas ele escuta.
- cárcere? Ah claro, te dou tudo que me pede. - começou. - por que se eu te deixar solta, vai virar essas vagabundas aí e eu não quero isso pra minha irmã!
- se eu virasse ia viver bem melhor. - foi baixo também, mas ele ouviu.
- poha Luane, então vai! Te manda! Vai dar o r**o na esquina e fatura bem, bem mesmo, por que não volta mais. - revirei os olhos e me deitei. - não sai de casa. - saiu do meu quarto e comecei a debochar.
- mimimimimimimimimi. - bufei. - b******a, fracote. Um verdadeiro idiota.. não não, um pai da moda antiga. Daqui a pouco só falta me casar com quem ele quiser.
- tô ouvindo! - dei de ombros e virei pro lado aposto, fechando os olhos ainda brava, mas que aos poucos foi ficando normal por que senti sono outra vez.