Nova Delhi, Índia. Dois meses antes.
Maya.
O som de passos apressados pelo corredor principal do andar me fez acordar, olhei o relógio em cima do pequeno móvel ao lado da cama. Duas da manhã, mas que d***a estavam fazendo as duas da manhã? Afastei o cobertor e me levantei. Vesti um roupão e não tive paciência para prender meus cabelos cacheados, abri a porta do quarto sem me preocupar com quem ia espantar.
Várias empregadas passavam de um lado para o outro, carregando toalhas dobradas.
— O que está acontecendo? – Parei uma delas, a senhora baixinha me encarou sem saber o que dizer, ao invés de resposta me deu seu silêncio. Em suas mãos estava uma bacia de prata com água. — Para onde está levando isso?
— Para o quarto de sua mãe, senhorita.
Minha mãe.
O pânico tomou conta de mim e meu coração acelerou, saí em direção ao quarto de Shaila com passos largos e desesperados. Ao me aproximar vi a porta aberta, uma pequena movimentação ao lado de fora de três empregadas e dois homens parados bloqueando a passagem.
— Saiam da minha frente agora mesmo. – Ordenei. Um deles me lançou um olhar repulsivo da cabeça aos pés. De repente me senti sem o roupão.
— Desculpe senhorita, não temos autorização para deixá-la entrar. – O outro respondeu.
Eu ri, ri porque isso é ridículo.
— Desde quando preciso de autorização para ver minha mãe? – Apoiei uma das mãos na cintura.
— São ordens de Bhav, sushree. – O abusado sorriu descaradamente. Me aproximei mesmo que ele fosse muito mais alto que eu e olhei em seus olhos.
— É melhor me deixar passar. – Seu sorriso diminuiu mas os olhos desceram para a minha boca. Não tive paciência, desviei dele tentando passar mas seus braços me impediram, antes que eu acertasse um t**a na cara dele o doutor saiu do quarto.
Perdi o foco de tudo, se o doutor estava aqui era porque Shaila não estava bem, e a julgar pela expressão dele...
— Doutor, por favor, me diga como ela está. – Ele ultrapassou os dois homens que o deixaram passar tranquilamente. O homem de meia idade veio em minha direção e tocou meu braço.
— Sinto muito, Maya. – Ele engoliu seco e fiquei esperando mais palavras, uma explicação, qualquer coisa que me fizesse crer que não era isso que estava pensando.
— Shaila está morta? – Senti vontade de chorar mas as lágrimas não vieram. O doutor afirmou e me deixou ali no corredor, sozinha.
Fiquei paralisada não sei por quanto tempo, não chorei, não gritei, apenas fiquei em silêncio, um silêncio estranho e com a sensação de garganta seca, como se estivesse sendo enforcada. Bhav apareceu depois de muito tempo e dispensou os dois seguranças, ele entrou no quarto e esperei onde estava, não queria olhar nos olhos desse infeliz. Só entrei no quarto quando ele saiu, e fui grata por ele ter passado direto como se eu não existisse pois do contrário não sei o que faria.
Ao adentrar o cômodo o corpo de Shaila estava estendido perfeitamente sobre a cama, os cabelos negros e longos lindamente penteados, as mãos cruzadas em cima da barriga. As empregadas arrumaram tudo enquanto eu estava congelada no corredor, não consegui chorar, na minha mente ouvi todos os conselhos que ela me deu e que com certeza eu iria precisar.
Não parecia ser real, ela iria acordar.
Shaila estava tão linda que parecia estar apenas dormindo. Levou quase vinte minutos para que eu tomasse a atitude de tocá-la. Primeiro no rosto, depois os braços, senti bem a textura de sua pele, olhei atentamente seus traços. Nunca mais poderia fazer isso de novo, era nossa despedida. Bhav conseguiu matá-la, primeiro matou seus sonhos, sua felicidade, mas ele não vai fazer isso comigo.
Eu iria me vingar.
Não sei bem descrever o que estava sentindo, mas sabia de uma coisa, Bhav não faria de mim o mesmo que fez com minha mãe. Shaila casou com meu pai, um homem de trinta anos quando tinha apenas dezessete, contra a sua vontade. Ela me teve um ano depois e esperou que eu crescesse um pouco para concretizar seu plano. Quando eu tinha apenas três anos de idade ela juntou coragem e arrumou nossas coisas para fugir do país, de Bhav e de sua ignorância e prepotência. Refez a vida com muito esforço nos Estados Unidos, na cidade de Beaufort, Carolina do Sul. Ela queria ser livre assim como eu, segundo os relatos dela não foi fácil, mas ela conseguiu, no mesmo ano conheceu Adam, um americano por quem se apaixonou.
Ela sentiu o gosto de fazer suas próprias escolhas durante seis anos, mas é claro que tinha que ter um fim. Bhav nos encontrou e apesar de ser apenas uma criança me lembro bem desse dia, ele simplesmente nos arrastou de volta para casa, como se fôssemos animais fugidos.
Bhav não se tornou melhor depois disso, ele não soube sobre Adam nesse momento mas o fato de Shaila ter fugido acendeu ainda mais sua ira. Nossa família é conhecida na Índia graças a empresa de tecnologia do meu pai, não que isso me interesse, mas por aqui importa, e muito. Bhav sempre disse que minha mãe era motivo de vergonha para ele, mas isso nunca aconteceu comigo pois tudo que sempre senti foi orgulho de sua coragem. Senti muita falta dos Estados Unidos e da vida que levava lá, tive que me habituar aos costumes, regras e tradições. Meu pai é um extremista, a empresa dele é uma referência por aqui e o motivo de trazer muita gente importante para a Índia. O que garante o prestígio e o respeito dos indianos.
Viver nessa casa significa muitas restrições, e as alimentares foram as que mais senti no começo. Com o tempo fui me habituando, mas como convencer um presidiário que a prisão é o melhor lugar para se estar quando ele já viu a face da liberdade? Não escolhi viver aqui e passei anos sonhando com o dia que poderia voltar aos EUA e amaldiçoando cada segundo que me senti presa não ao país, mas a Bhav e toda sua ignorância.
Cinco anos depois Shaila decidiu fugir novamente, dessa vez sem mim. Mas não sem antes conversar comigo e me prometer que acertaria um plano para me buscar o mais rápido possível, compreendi pois por mais que Bhav fosse continuar sendo o mesmo ditador maluco de sempre, ele nunca me fez m*l fisicamente. Eu tinha 14 anos quando vi minha mãe partir em busca da nossa liberdade pela segunda vez. Quando Bhav descobriu sua fuga quase colocou a casa abaixo, literalmente. Todos os vidros que estavam a vista foram quebrados, seus gritos foram ouvidos por toda vizinhança, quando olhei em seus olhos vi ódio, naquele instante tive medo de que ele a matasse. Bhav me pressionou para que eu dissesse o que sabia a respeito da fulga mas mantive o discurso de que não sabia de nada, era o mínimo que eu poderia fazer pela minha mãe.
Durou apenas quatro anos, Bhav investigou seu paradeiro sem que ninguém soubesse, mandou m***r Adam quando descobriu a existência dele e a encontrou dias depois, a arrastando de volta novamente há alguns meses atrás, minha mãe estava diferente dessa vez, chorou durante dias e perdeu o brilho de determinação e coragem que sempre teve. Só fui entender o motivo dois dias depois da sua morte, ao mexer em suas coisas para m***r um pouco da saudade encontrei uma carta com meu nome escrito no envelope.
“ Minha filha, espero do fundo meu coração que você encontre esta carta. Há alguns anos saí daqui para buscar uma vida melhor para nós duas, mas agora não somos só nós, não tive coragem de te contar antes, lhe escrevi porque sei que seu pai jamais se daria ao trabalho de tocar em minhas coisas caso eu não estivesse mais aqui. Você tem duas irmãs, Maya. Gêmeas.
Elas tem apenas três anos e meio e se chamam Íris e Ísis, Adam tem parentes brasileiros e quis homenageá-los. Quero que procure saber delas se o pior acontecer, guarde o número que deixarei ao fim desta carta, ele pertence a Rosalie Smith, uma amiga com quem deixei as meninas depois que Adam se foi pois sabia que estávamos em perigo. Você é tão linda, Maya. Se tornou uma mulher e tanto mesmo tão nova. Quero que me perdoe pelos anos que passamos separadas, e também quero te fazer um pedido, não se destrua.
Sei que não estive presente para você por anos, não participei de muito que aconteceu na sua vida. Não sei tudo que você passou na minha ausência, mas entendo que você não confie totalmente em mim já que não estive aqui por muito tempo. Mas eu sei que aconteceu algo com você, algo que te transformou. Eu não sei o que houve, sei que não quis me contar e está tudo bem, só não deixe o rancor tomar conta de você! Quero que recomece a sua vida da melhor forma que puder, você e suas irmãs, não se esqueça delas.
Você é forte, Maya. Soube disso desde que nasceu, eu sei que você consegue, consegue tudo que quiser, mas não deixe essa força ser a sua maior fraqueza, não deixe que o que te aconteceu te enterre viva. Você precisa viver, se permitir, amar, ser amada.
Não se negue esta chance. Eu te amo, mamãe.”
As lágrimas escorriam pelo meu rosto, molhando o papel e marcando meu sofrimento, uma avalanche de sentimentos me soterrou, saudade, raiva, dor, surpresa. Eu tinha irmãs, era reconfortante saber que não estava sozinha nesse mundo com Bhav, mas por outro lado era assustador, é tarde demais mãe, já deixei o ódio me consumir. Me afoguei em um mar de rancor há muito tempo, desde a noite que me roubaram minha inocência.
Eu não era a pessoa adequada para criar nenhuma criança, quanto mais duas, sou fria, seca e oca por dentro, incapaz de demonstrar bons sentimentos para aqueles que amo.
Eu sempre quis ser diferente, queria ser carinhosa e aberta a me expressar mas era como se fosse vergonhoso, e ninguém merece crescer com alguém assim. Eu encontraria as gêmeas, Bhav provavelmente não sabe da existência delas e se soubesse não duvido que poderia mandar fazer m*l às minhas irmãs. Eu morreria antes de deixá-lo fazer uma coisa assim. Dobrei a carta o máximo que pode e a escondi entre as roupas, eu precisava pensar no que faria da minha vida dali para frente.