Primeiro Império

1340 Words
Eu nunca precisei de muito tempo pra entender como as coisas funcionavam. Enquanto a maioria ainda tava tentando sobreviver, eu já tava pensando em dominar. Não era sobre ganhar dinheiro rápido, era sobre construir algo que ninguém pudesse tirar de mim. E isso começou quando eu percebi que quem mandava no morro não era o mais forte… era o mais inteligente e o mais disposto a ir até o fim. No começo, eu observava mais do que agia. Ficava quieto, escutando conversa, entendendo quem era quem, quem devia, quem mandava, quem fingia mandar. O erro de muita gente era achar que respeito vinha do grito ou da arma na mão. Não vinha. Respeito vinha da consequência. Do que acontecia quando alguém te desafiava. E quando alguém me desafiava… acontecia coisa r**m. A primeira boca que eu assumi já tava funcionando, mas m*l administrada. Produto r**m, dinheiro sumindo, gente roubando por dentro. O dono achava que tava no controle, mas não tava vendo o que acontecia debaixo do nariz dele. Eu vi. E quando vi, não perdi tempo. A cena volta como se estivesse acontecendo agora. Noite abafada, som de funk estourando ao longe, moto subindo e descendo a viela. Eu encostado na parede, observando o movimento. Dois caras na contenção, um deles claramente drogado, o outro distraído demais. Aquilo ali não era operação, era bagunça. Eu caminhei até eles sem pressa. Quando perceberam, já era tarde. “Cadê teu chefe?”, eu perguntei. O mais novo tentou crescer. Erro clássico. “E tu é quem pra perguntar?” Eu não respondi. Só puxei a arma e encostei na barriga dele. O corpo travou na hora. O outro nem tentou reagir. “Agora pergunta de novo pra mim, com mais calma”, eu falei. Não perguntou. Apontou com a cabeça. Eu entrei. O dono da boca tava sentado, contando dinheiro. Nem levantou o olho quando eu cheguei. Esse foi o último erro dele. Eu lembro do barulho do dinheiro caindo no chão quando puxei ele pela camisa. Lembro da expressão de surpresa virando desespero em segundos. Ele tentou falar, tentou negociar, tentou explicar. Eu não deixei. O tiro foi seco. Curto. Final. E ali, naquele chão sujo, com dinheiro espalhado e sangue misturando com a poeira, eu assumi meu primeiro pedaço. Não teve cerimônia. Não teve anúncio. Só teve resultado. A partir dali, tudo mudou. Na terceira pessoa, quem olhasse de fora começava a perceber a diferença. O movimento ficou mais organizado, os horários mais controlados, a qualidade do produto melhorou, e principalmente, ninguém mais roubava. Não porque virou gente boa, mas porque sabia o que acontecia se tentasse. Cristian Torres não precisava repetir ameaça. Ele precisava executar uma vez. Depois disso, o resto aprendia sozinho. Eu comecei a expandir rápido. Não porque era fácil, mas porque eu não hesitava. Enquanto outros traficantes ficavam presos em território pequeno, com medo de conflito, eu ia pra cima. Eu não pedia espaço, eu tomava. Teve um morro que demorou mais. O dono era antigo, respeitado, tinha gente fiel. Não era qualquer um. Foi a primeira vez que eu precisei montar algo maior. Na terceira pessoa, a cena parecia uma operação militar. Posições definidas, entrada pelos becos laterais, gente na cobertura, comunicação constante. Não era bagunça, era estratégia. Eu tava no meio. Sempre estive. Nunca fui de mandar de longe. Quando começou, foi rápido. Disparo de um lado, resposta do outro, gritaria, gente correndo. Em menos de dez minutos, já tinha corpo no chão. Em vinte, o controle já era meu. O antigo dono tentou fugir. Não conseguiu. Eu mesmo encontrei ele escondido dentro de uma casa, atrás de um armário improvisado. Quando puxei ele pra fora, ele ainda tentou manter dignidade. “Tu não vai durar”, ele disse. Eu olhei pra ele por alguns segundos. E atirei. Sem resposta. Sem discurso. Duração não se prova com palavras. Se prova com permanência. E eu permaneci. Foi assim que meu nome começou a crescer de verdade. Não era só mais um cara violento. Era um cara que organizava, expandia, lucrava. E com dinheiro… tudo fica mais fácil. Arma começou a chegar melhor. Contato começou a aparecer. Gente que antes ignorava, começou a procurar. E eu escolhia. Sempre escolhi. Não era qualquer um que trabalhava comigo. Tinha que servir. Se não servisse… saía. Ou sumia. Teve uma negociação que marcou bem isso. Era um fornecedor novo, de fora. Produto bom, preço alto, arrogância maior ainda. Achou que podia me testar. A gente se encontrou num galpão afastado. Lugar neutro. Ele veio com dois caras, eu com mais gente, mas deixei só um comigo na hora da conversa. Eu gosto de olhar no olho. Ele começou falando demais. Tentando impor condição, aumentar valor, justificar risco. Eu deixei ele falar. Quando terminou, eu perguntei: “Tu acha que eu preciso de você?” Ele sorriu. “Todo mundo precisa.” Eu neguei com a cabeça. “Eu não preciso de ninguém.” Ele ainda tentou rir, mas não terminou. Porque quando olhou pro lado, viu o corpo do cara dele no chão. Meu homem já tinha feito o trabalho. Eu voltei o olhar pra ele. “Agora você precisa de mim.” A negociação acabou ali. Ou ele aceitava… ou virava exemplo. Ele aceitou. Sempre aceitam quando entendem o jogo. E assim foi crescendo. Arma melhor, d***a melhor, território maior. Eu não ficava limitado ao básico. Enquanto alguns ainda trabalhavam com o que dava, eu buscava o que era superior. Fuzil de guerra, munição que atravessa parede, equipamento que nem deveria circular por aqui. Eu queria vantagem em tudo. E eu tinha. Teve uma vez que a polícia resolveu entrar pesado. Operação grande, mídia envolvida, viatura subindo em comboio. Achavam que iam desmontar tudo. Na terceira pessoa, a cena era quase caótica. Helicóptero no céu, sirene ecoando, policial descendo armado até os dentes. Mas do lado de dentro… já tava tudo preparado. Porque eu sabia. Sempre soube. Tinha gente minha lá dentro. Aviso veio antes. Tempo suficiente pra tirar o que importava, reposicionar, esconder, armar resposta. Quando eles entraram… encontraram pouco. E o pouco que encontraram… custou caro. Dois policiais caíram naquele dia. Não porque eu queria chamar atenção. Mas porque eles estavam no caminho. E caminho… não se negocia. Se limpa. Eu nunca tive problema com isso. Nunca tive problema em ver notícia depois, em ver família chorando, em ver revolta. Isso nunca chegou em mim. Não atravessava. Porque pra mim, aquilo era só consequência de escolha. Eles escolheram entrar. Eu escolhi reagir. Simples. Não existe lado certo. Existe lado forte. E eu sempre fiquei no lado forte. Teve um político também. Esse foi interessante. Não porque era diferente, mas porque achava que era intocável. Tinha nome, influência, dinheiro. Achou que podia mexer nas minhas áreas pra ganhar moral. Erro. Na terceira pessoa, tudo foi limpo. Sem barulho, sem exposição. Homem entrando na casa dele de madrugada, segurança neutralizada, operação rápida. Quando ele percebeu, já tava dentro do carro. Eu gosto de fazer pessoalmente quando o recado precisa ser claro. Ele tentou negociar. Ofereceu dinheiro. Prometeu parar. Falou da família. Sempre falam. Eu fiquei olhando. Esperando ele terminar. Quando terminou, eu só falei: “Agora não é mais sobre você.” E dei o sinal. Ele sumiu. E junto com ele… qualquer tentativa de me desafiar daquele lado. Eu não precisava repetir. O recado já tava dado. E assim, pouco a pouco, tudo foi se encaixando. Eu não era só mais um nome. Eu era o nome. E quem sabia… não esquecia. Porque no final, não era sobre violência. Era sobre controle. E controle eu sempre tive. Mesmo agora. Mesmo aqui dentro. Porque o erro de quem olha de fora é achar que prisão muda quem eu sou. Não muda. Só muda o endereço. Eu continuo sendo o mesmo cara que entrou naquela viela com quinze anos e puxou o gatilho sem hesitar. A diferença… é que agora o alcance é maior. Muito maior. E o que vem pela frente… também vai ser.
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