Meu nome é Cristian Torres.
E antes de você tirar qualquer conclusão… deixa eu te contar por que eu tô aqui.
Mas já vou te avisando pra não perder seu tempo:
não, eu não sou inocente.
E também não vou mentir pra parecer melhor.
Não vou inventar história triste pra você sentir pena.
Não vou jogar culpa no mundo.
Não vou dizer que fui obrigado a nada.
Tudo que eu fiz…
eu fiz porque quis.
Simples assim.
Eu sei o tipo de história que você espera.
O cara que cresceu na miséria, sofreu, apanhou da vida… e por isso virou criminoso.
Bonito, né?
Dá até pra justificar.
Mas comigo não tem isso.
Eu cresci no meio do lixo, sim.
Mas não foi o lixo que me fez assim.
Fui eu que escolhi não sair dele.
Porque no fundo…
eu sempre entendi uma coisa que a maioria demora pra aceitar:
o mundo não respeita quem é bom.
Respeita quem tem poder.
E eu quis poder.
Desde cedo.
Eu não lembro exatamente quando comecei.
Mas lembro da primeira vez que senti.
O gosto.
A sensação.
O controle.
Eu devia ter uns quinze anos.
Magro, roupa velha, tênis furado.
Ninguém olhava pra mim.
Ninguém via nada em mim.
Eu era só mais um moleque qualquer…
até o dia que deixei de ser.
O cara me devia dinheiro.
Troco.
Coisa pequena.
Mas não era sobre o valor.
Nunca foi.
Era sobre o que aquilo significava.
Ele achou que podia ignorar.
Me enrolar.
Me tratar como se eu fosse invisível.
Erro dele.
Eu encontrei ele numa viela.
Tarde da noite.
Chuva fina caindo.
O tipo de clima que deixa tudo mais lento… mais pesado.
Ele tentou rir.
Tentou brincar.
— Relaxa, depois eu te pago…
Eu não respondi.
Só puxei a arma.
Era velha.
Pesada.
Nem sabia direito usar.
Mas não precisava saber muito.
A expressão dele mudou.
Na hora.
O sorriso morreu.
Ali…
eu vi.
Pela primeira vez.
Medo.
E aquilo…
aquilo foi melhor que qualquer dinheiro.
— Tá maluco, mano… baixa isso aí…
Eu dei um passo pra frente.
Ele deu dois pra trás.
E naquele momento…
eu entendi tudo. Não era sobre quem eu era antes.
Era sobre o que eu podia ser agora.
Eu atirei.
O som ecoou na viela como um trovão seco.
Ele caiu.
Sem drama.
Sem discurso.
Sem última palavra.
Só caiu.
E ficou ali.
Parado.
Eu fiquei olhando.
Esperando alguma coisa.
Algum peso.
Alguma culpa.
Qualquer coisa.
Nada veio.
Nada.
Só silêncio.
E uma sensação…
de controle absoluto.
Foi ali que tudo começou.
Não teve volta depois disso.
Porque depois que você entende que pode tirar uma vida quando bem entende…
o resto perde importância.
A polícia?
Só mais um obstáculo.
Político?
Só mais um alvo.
Concorrente?
Só mais um problema pra resolver.
Eu cresci rápido depois disso.
Muito rápido.
Primeiro, comecei pequeno.
Cobrança.
Entrega.
Movimentação de d***a.
Mas eu nunca fui de obedecer.
Nunca gostei de receber ordem.
Eu observava.
Aprendia.
Calculava.
E quando vi oportunidade…
eu tomei.
O primeiro ponto que eu assumi não foi dado.
Foi tirado.
O dono achava que era intocável.
Achava que mandava.
Eu matei ele também.
Sem aviso.
Sem conversa.
Direto.
E foi assim que comecei a subir.
Um por um.
Quem ficava no caminho…
caía.
Simples.
Eu não fazia acordo.
Não fazia promessa.
Não fazia amizade.
Eu fazia negócio.
E negócio tem regra:
ou você domina…
ou você é dominado.
Eu escolhi dominar.
Em pouco tempo…
eu já não era só mais um nome.
Eu era referência.
As pessoas começaram a falar de mim.
No começo, baixo.
Depois… alto.
Cristian Torres.
O cara que não negocia.
O cara que não perdoa.
O cara que resolve.
E eu gostava disso.
Gostava de entrar em qualquer lugar e ver o silêncio cair.
Gostava de olhar nos olhos de alguém e ver o respeito nascer… misturado com medo.
Porque o medo é o tipo mais puro de respeito que existe.
Dinheiro começou a entrar.
Muito dinheiro.
E com dinheiro…
vem poder.
Com poder…
vem influência.
E com influência…
você compra tudo.
Tudo.
Policial?
Tem preço.
Político?
Tem preço.
Sistema?
Tem preço.
E eu paguei.
Quantas vezes foram necessárias.
Eu tinha informação antes de operação acontecer.
Eu tinha gente dentro de delegacia.
Eu tinha gente dentro de gabinete.
Eu não corria de problema.
Eu eliminava.
E quando o assunto era armamento…
eu não economizava.
Enquanto muito traficante se contentava com o básico…
eu queria superioridade.
Eu queria vantagem.
Fuzil de guerra.
Munição pesada.
Equipamento que nem devia estar no país.
Eu tinha.
Não porque podia.
Mas porque eu fazia questão.
Se fosse pra entrar numa guerra…
eu não entrava pra disputar.
Eu entrava pra vencer.
E foi assim que eu comecei a dominar mais território.
Um morro virou dois.
Dois viraram quatro.
Quando perceberam…
eu já estava espalhado.
Organizado.
Estruturado.
Não era bagunça.
Não era improviso.
Era sistema.
Cada área com responsável.
Cada rota controlada.
Cada movimentação calculada.
Eu não era só um traficante.
Eu era o dono.
E quem mexia com o que era meu…
sumia.
Sem explicação.
Sem corpo.
Sem rastro.
Eu nunca precisei fazer espetáculo.
A fama fazia isso por mim.
Teve uma vez…
um político resolveu atrapalhar.
Quis aparecer.
Quis bater de frente.
Erro dele.
Eu não fui até ele.
Eu mandei buscar.
Levaram de madrugada.
Sem barulho.
Sem testemunha.
No dia seguinte…
ele não existia mais.
E ninguém perguntou.
Porque todo mundo já sabia a resposta.
Esse era o nível.
Eu não diferenciava.
Se estivesse no meu caminho…
caía.
Polícia?
Já derrubei vários.
Alguns por necessidade.
Outros… por exemplo.
Porque às vezes…
você precisa mostrar até onde vai.
E eu sempre fui longe.
Muito longe.
Nunca tive problema em sujar as mãos.
Nunca tive problema em olhar alguém implorando…
e ignorar.
Porque no meu mundo…
sentimento atrapalha.
E eu nunca fui de me atrapalhar.
Eu não sinto culpa.
Não sinto pena.
E não romantizo nada disso.
Não tem beleza.
Não tem poesia.
Tem poder.
E é isso que importa.
Se eu tiver que escolher entre alguém…
e o meu império…
Eu escolho o império.
Sempre.
E não importa quem seja.
Família.
Mulher.
Amigo.
Tudo substituível.
Tudo descartável.
Porque no final…
só fica quem é forte o suficiente pra se manter no topo.
E eu me mantive.
Por muito tempo.
Até cair aqui.
Cadeia.
Engraçado, né?
Tem gente que acha que isso aqui é o fim.
Pra mim…
é só uma pausa pro descanso.
Porque lá fora…
tudo continua.
Minhas áreas continuam.
Meu dinheiro continua.
Meu nome continua.
Eu ainda mando.
Mesmo preso.
Então não…
isso aqui não me derrubou.
Só mudou o cenário temporariamente.
Mas o jogo…
é o mesmo.
E eu ainda tô jogando.
Agora com uma variável nova.
A tal da juíza.
Luiza Souza.
Nome comum.
Mas dizem que ela não é.
Dizem que ela derruba gente grande.
Que não se vende.
Que não cede.
Que não tem medo.
Interessante.
Eu já vi esse tipo antes.
Gente que acha que é diferente.
Até me encontrar.
Mas o curioso…
não é isso.
O curioso…
é que esse nome…
não me é estranho.
E isso…
é raro.
Muito raro.
Mas não importa.
No final…
todo mundo é igual.
Todo mundo quebra.
Só depende de como você pressiona.
E eu sei pressionar.
Muito bem.
Então se você tá esperando redenção…
mudança…
arrependimento…
Pode parar por aqui.
Porque eu não sou esse tipo de história.
Eu não sou o cara que aprende lição.
Não sou o cara que muda por amor.
Eu sou o problema.
E sempre fui.
Então se você quer um herói…
fecha esse livro agora.