Penelope Melissa Jones observou o pedaço de papel em suas mãos listava todas as qualidades que ela desejava para sua alma gêmea.
Lealdade.
Inteligência.
Senso de humor.
Dar importância à família
adorar animais.
Ter uma renda considerável.
Penelope era dona de uma livraria em uma cidade universitária modernosa no interior do estado de Nova York, e isso, pensou ela, lhe permitia algumas esquisitices – dentre elas, fazer uma prece para que a Mãe Terra a ajudasse a encontrar o homem perfeito.
pegou uma garrafa de vinho seco e ficou pensando em seu dilema.
Sua livraria já fora hipotecada tantas vezes quanto possível. A obra de expansão para o café iria requerer um planejamento cuidadoso, e ela não podia dispor de nenhum centavo. Correu os olhos pelo loft vitoriano e calculou facilmente que não havia ali nada que pudesse ser vendido.
Ela estava com 27 anos e talvez devesse morar em um apartamento estiloso, vestir roupas de grife e ter um encontro a cada fim de semana. Em vez disso, penelope abrigava cães abandonados do canil local e comprava echarpes elegantes para dar uma cara nova às suas roupas. Acreditava no lado bom das coisas, em estar aberta às possibilidades e seguir seu coração.
Infelizmente, nada disso a ajudaria a salvar a casa de sua mãe.
Bebeu um gole do vinho vermelho-rubi e admitiu que não havia nada mais a fazer. Ninguém tinha dinheiro suficiente, e dessa vez, quando o cobrador de impostos viesse, não haveria final feliz. duvidava que sua tentativa desesperada de atrair o homem perfeito fosse funcionar.
A campainha tocou.
O queixo de Penelope caiu. Meu Deus, será que era ele? Olhou para suas calças de moletom velho e sua camiseta cortada e pensou se daria tempo para trocar de roupa. Levantou-se e começou a revirar o guarda-roupa, mas a campainha tocou de novo, então ela foi até a porta, respirou fundo e virou a maçaneta
– Finalmente você abriu essa porta. Já não era sem tempo.
As esperanças de Penelope morreram ao dar de cara com sua melhor amiga, Sophia . Penelope a encarou, de cara fechada:
– Era pra você ser um homem.
Sophia deu um riso sarcástico e entrou no apartamento. Fez um gesto com uma das mãos, unhas cor vermelho-cereja, e se jogou no sofá:
– Vai sonhando. Você botou seu último pretendente para correr, e eu não pretendo arrumar outro encontro para você tão cedo. O que aconteceu aqui?
– Como assim, botei ele para correr? Eu achei que ele fosse me atacar.
Sophia ergueu uma sobrancelha:
– Ele só queria te dar um beijo de boa noite. Você tropeçou e caiu de b***a no chão, e ele se sentiu um completo i****a. As pessoas se beijam depois de um encontro, Al. É quase um ritual.
Penelope esvaziou em um saco o lixo que restava no balde.
– Ele tinha comido muito alho no jantar e eu não queria que ele chegasse perto de mim.
Sophia pegou a taça de vinho e bebeu um belo gole. Esticou as longas pernas vestidas em calças de couro e enganchou os saltos altos da bota na beirada da velha mesinha de centro..
– Por que resolveu dar o ar de sua graça em plena noite de sábado? Você está bonita.
– Obrigada. Vou encontrar um cara às onze para beber. Quer vir também?
– Pro seu encontro?
Sophia fez uma careta e bebeu o vinho que restava na taça:
– Você seria uma companhia mais agradável. O cara é um mala.
– Então por que vai sair com ele?
– Ele é bonitão.
Alexa se largou no sofá ao lado da amiga e suspirou:
– Queria tanto ser como você, Sophia. Por que eu tinha que ser tão complicada?
– E eu, tão pouco complicada? – Os lábios de Sophia se torceram em um riso autodepreciativo. Apontando para o balde, disse: – Qual é a da fogueira?
Penelope suspirou:
– Fiz uma fogueira em honra à Mãe Terra – sussurrou.
– Ah, meu Deus.
– Estou desesperada, tá? Ainda não conheci O Cara Perfeito, e apareceu um outro probleminha que eu preciso resolver, então combinei as duas coisas em uma só lista.
– Que lista?
– Uma cliente me disse que fez uma lista com as qualidades que procurava no homem ideal, ele apareceu.
Agora Sophia pareceu se interessar:
– Apareceu um homem na vida dela com todas as características que ela queria?
– Isso. A lista precisa ser bem específica. Não pode generalizar demais, senão o universo fica confuso com os seus desejos e não faz nada. Mas ela disse que, se você fizer o homem perfeito vai aparecer.
Os olhos verdes de Sophia brilharam:
– Deixa eu ver esse livro.
Nada como outra mulher solteira para fazê-la se sentir melhor na busca por um homem. Penelope jogou para a amiga o pequeno livro encapado com tecido, sentindo-se menos i****a.
– Hummm. Quero ver a sua lista.
Penelope apontou para o balde:
– Queimei.
– Sei que você deve ter uma cópia debaixo da cama. Deixa pra lá, eu mesma pego.
A amiga levantou-se de um salto em direção ao futom amarelo-canário e enfiou a mão por debaixo das almofadas. Segundos depois, segurava, em triunfo, a lista entre seus dedos de unhas vermelho-vivo, lambendo os lábios como se estivesse prestes a mergulhar em um livro picante.
Penelope se acomodou no carpete e relaxou. Que comece a humilhação.
– Número um – recitou Sophia. – Ser fã de beisebol.
Penelope se preparou para o impacto.
– Você não tem jeito. Desisto – disse Sophia. – Número dois: amar livros, arte e poesia. – Parou, pensou e deu de ombros. – Esse eu aceito. Três: acreditar em monogamia. Muito importante. Número quatro: querer filhos. – Olhou para a amiga: – Quantos?
O pensamento fez Penelope sorrir:
– Eu gostaria que fossem três, mas ficaria satisfeita com dois. Será que eu deveria ter especificado o número na lista?
– Não, tenho certeza de que a Mãe Terra vai acertar – continuou Sophia. – Número cinco: saber se comunicar com uma mulher. Boa. Não aguento mais livros sobre Vênus e Marte: já li todos e continuo perdida. Número seis: amar animais. – Fez um muxoxo. – Esse foi tão r**m
Penelope se revirou no carpete para poder olhar a amiga nos olhos:
– Se ele detestar cães, como eu vou poder continuar a ser voluntária no canil? E se ele gostar de caçar? Eu acordaria no meio da noite e daria de cara com um alce morto pendurado sobre a lareira olhando para mim.
– Como você é dramática... – Sophia voltou à lista. – Número sete: ter um código de ética e acreditar em honestidade. Esse deveria ser o primeiro item da lista, Número oito: ser bom de cama. – Ergueu as sobrancelhas sugestivamente. – Esse seria o número dois na minha lista, mas fico orgulhosa de você por ter incluído esse item. Talvez ainda haja esperança para você, afinal de contas.
Penelope engoliu em seco, o pavor dando um nó em seu estômago:
– Continue.
– Número nove: dar grande importância à família. Faz sentido: vocês até parecem os Walton. Certo, número dez...
O relógio fez tique-taque. Penelope observou Sophia ler o item mais uma vez.
– Penelope, acho que estou entendendo errado o item dez.
Penelope suspirou:
– Provavelmente não.
Sophia recitou a última exigência:
– Ter cento e cinquenta mil dólares disponíveis em dinheiro vivo. – Levantou os olhos da lista. – Mais detalhes, por favor.
Penelope ergueu o queixo:
– Preciso de um homem a quem eu possa amar e que tenha cento e cinquenta mil sobrando. E preciso dele para já.
Penelope sacudiu a cabeça como se estivesse saindo de dentro d’água:
– Mas para quê?
– Para salvar Tara.
Sophia piscou, confusa:
– Tara?
– A casa da minha mãe. Como em ... E o vento levou, sabe? Lembra que a minha mãe dizia, brincando, que precisava de mais algodão para pagar as contas? Eu não cheguei a contar para você a que ponto as coisas chegaram, Sophia. Mamãe quer vender a propriedade, e eu não posso permitir que isso aconteça. Eles não têm dinheiro, nem para onde ir. Eu faço qualquer coisa para ajudar, até mesmo me casar.
Sophia suspirou e pegou sua bolsa, sacou o celular e começou a digitar.
– O que você está fazendo? – Penelope tentou conter o pânico de que sua melhor amiga não a compreendesse. Afinal, ela nunca havia desejado que um homem resolvesse seus problemas até então. A que ponto chegamos...
– Estou cancelando o meu encontro. Acho que precisamos conversar sobre esse item. E depois vamos ligar para a minha terapeuta. Ela é ótima, discreta e aceita consultas no meio da noite.
Penelope riu:
– Você é uma amiga e tanto, Sophia.
– Nem me fale, nem me fale.