CONTRATO

2977 Words
Anthony olhou à sua volta, satisfeito com o resultado. Sua sala particular de reuniões tinha uma atmosfera profissional, e o buquê de flores que sua secretária pusera no centro da mesa dava um toque pessoal ao elegante carpete vinho, ao brilho rico da madeira e ao couro bege das cadeiras. Os contratos estavam expostos sobre a mesa, perto de uma elegante bandeja prateada com chá, café e uma seleção de pãezinhos. Formal, mas amigável – como deveria ser o casamento dos dois. Ignorou o vazio que sentiu no estômago ao pensar em reencontrar Penelope. Ficou se perguntando como ela estaria depois de adulta. As histórias de sua irmã a retratavam como uma mulher impulsiva e imprudente. A princípio, ele reprovou a sugestão de Sophia, achando que penelope não correspondia ao que ele precisava. Seus pensamentos eram provocados pela lembrança insistente de uma menina de r**o de cavalo, livre e espontânea; apesar disso, ele sabia que hoje ela era a respeitável dona de uma livraria. Ainda pensava nela como a amiga de infância de Sophia, embora não a visse há anos. No entanto, o tempo estava se esgotando. Eles tinham um passado distante em comum, e Anthony sentia que podia confiar em penelope. Talvez ela não correspondesse à sua noção de esposa perfeita, mas estava precisando de dinheiro. E rápido. Sophia mantivera sigilo a respeito do motivo, mas pelo modo como descrevera, penelope estava desesperada. Ele se sentia confortável com essa necessidade de dinheiro, pois era uma questão preto no branco, sem áreas cinzentas. Não seria necessário i********e entre eles. Uma transação formal de negócios entre dois velhos amigos, nada mais. Anthony podia aceitar essas condições. Fez menção de chamar sua secretária pelo interfone, mas nesse instante a pesada porta se abriu e se fechou suavemente, com um “clique” firme. Ele se virou. Olhos de um azul profundo o encaravam com uma franqueza e uma clareza que evidenciavam que aquela mulher perderia qualquer jogo de pôquer – ela era de uma honestidade brutal e não parecia inclinada a blefar. Ele reconheceu o olhar, mas a idade havia transformado a cor daqueles olhos numa mistura desconcertante de água-marinha e safira. Algumas imagens surgiram em sua mente: um mergulho nas profundezas do mar do Caribe em busca de seus tesouros; um enorme céu azul, como aquele cantado por Sinatra, uma pintura de tamanha imensidão que ninguém seria capaz de encontrar o início ou o fim. Os olhos dela se destacavam de forma impressionante contra o preto de seus cabelos, que descia em caracóis até abaixo de seus ombros, emoldurando seu rosto com um ar selvagem que ela parecia incapaz de domar. As maçãs do rosto protuberantes destacavam os lábios carnudos. Quando eram crianças, ele zombava dela, perguntando se ela havia sido picada por uma abelha e caindo na gargalhada. A piada se voltava contra ele agora. Uma boca como aquela suscitava as fantasias masculinas mais ousadas – e nenhuma delas tinha a ver com abelhas. Só com mel, de preferência morno, despejado sobre aqueles lábios cheios, prontos para serem lambidos devagar. Ah, mas que inferno. Ele se conteve e terminou sua inspeção. Lembrou-se de quando descobriu que ela já precisava usar sutiã, do quanto a havia torturado. Ela se desenvolvera cedo e ficara mortificada por ter sido descoberta e ele usara essa informação para zombar dela. Mas não estava rindo agora. Os s***s dela eram tão exuberantes quanto sua boca e combinavam à perfeição com as curvas em seus quadris. Ela era alta, quase tão alta quanto ele, e para completar, esse conjunto de tentações femininas vinha embalado em um vestido vermelho sem mangas que realçava o decote, ajustava-se aos quadris e caía, solto, até o chão. Sandálias vermelhas deixavam à mostra unhas também vermelhas. Ela ficou parada à porta, como se estivesse permitindo que ele terminasse de sorvê-la com os olhos antes de decidir falar. Sentindo-se um tanto descompensado, Anthony combateu sua descompostura e recorreu ao profissionalismo para esconder sua reação. Penelope Jones crescera e virara uma mulher bonita. Bonita até demais. Mas não havia necessidade de dizer isso a ela. Ele a recebeu com o sorriso neutro que oferecia a qualquer parceiro de negócios: – Olá, Penelope. Faz muito tempo. Ela sorriu de volta, mas o sorriso não alcançou seus olhos. Jogou o peso do corpo de um pé para o outro, as mãos fechadas em punhos. – Olá, Anthony. Como vai? – Bem, obrigada. Por favor, sente-se. Aceita um café? Um chá? – Café, por favor. – Leite? Açúcar? – Leite, por favor. Obrigada. Ela se sentou graciosamente na cadeira acolchoada, afastou-se da mesa e cruzou as pernas, e o tecido justo marcou o contorno de suas pernas, lisas e atléticas. Ele se concentrou no café. – Mil-folhas? Strudel de maçã? São da confeitaria do outro lado da rua. – Não, obrigada. – Tem certeza? – Tenho. Jamais conseguiria comer um só. Aprendi a não me deixar cair na tentação. A palavra “tentação” saiu de seus lábios em um tom baixo e meio rouco. Aquela voz acariciou os ouvidos dele, e quando o tecido de suas calças se esticou um pouco, ele percebeu que a carícia se estendera a outros lugares. Desconcertado com sua reação a uma mulher com quem não queria ter nenhum tipo de contato físico, concentrou-se em servir o café e sentou-se diante dela. Eles se estudaram mutuamente por alguns momentos e o silêncio se prolongou. Ela brincava com a delicada pulseira de ouro em seu pulso. – Sinto muito pelo seu tio Earl. – Obrigada. A Sophia te contou os detalhes? – Contou. É uma loucura, tudo isso. – É, sim. Tio Earl acreditava em família, e antes de morrer estava convencido de que eu jamais me casaria. Por isso, resolveu me dar um empurrão rumo ao que julgava ser o melhor para mim. – Você não acredita em casamento? Ele deu de ombros. – Casamento é desnecessário. O sonho de algo que dure para sempre não passa de um conto de fadas. Príncipes encantados e monogamia não existem na vida real. Ela se retraiu, surpresa. – Você não acredita que seja possível se comprometer com outra pessoa? – Compromissos têm vida curta. É claro que as pessoas são sinceras quando declaram seu amor e sua dedicação, mas o tempo corrói todas as coisas boas e deixa para trás só o que há de r**m. Você conhece alguém que seja casado e feliz? Ela entreabriu os lábios, mas ficou em silêncio. Algum tempo depois, disse: – Além dos meus pais? Acho que não. Mas isso não quer dizer que não existam casais felizes. – Talvez. – O tom da voz de Anthony contradizia sua concordância parcial. – Acho que discordamos em muitos pontos – disse ela, mudando de posição em sua cadeira e cruzando as pernas para o outro lado. – Precisamos passar algum tempo juntos para ver se essa ideia vai dar certo. – Não temos tempo. O casamento precisa acontecer até o fim da semana que vem. Não importa se nos damos bem ou não, isso é um acordo estritamente de negócios. Os olhos dela se apertaram. – Vejo que você continua sendo o mesmo valentão que ria de mim por causa do tamanho do meu peito. Algumas coisas não mudam nunca. Ele concentrou o olhar no decote dela e disse: – Acho que você está certa. Algumas coisas permanecem as mesmas. Outras continuam se expandindo. A respiração dela vacilou, mas ela o surpreendeu ao sorrir e dizer: – E outras continuam pequenas. – Os olhos dela se fixaram na protuberância na frente das calças dele. Anthony quase cuspiu seu café, mas conseguiu  a calma e a dignidade ao colocar a xícara na mesa. Uma onda de calor o acertou direto no estômago ao se lembrar daquele dia na piscina, quando eram crianças. Ele estava zombando impiedosamente de Penelope e das mudanças em seu corpo quando Sophia se esgueirou por trás do irmão e, num golpe rápido, baixou a bermuda dele. Exposto em todos os sentidos, Anthony foi embora e fingiu que o episódio não o incomodara. Mas esse evento ainda mantinha o primeiro lugar como o momento mais constrangedor de sua vida.. Anthony gesticulou para os papéis à frente dela: – Sophia me disse que você precisa de uma soma específica em dinheiro. Estou disposto a negociar essa quantia. O rosto dela foi tomado por uma expressão estranha, e seus traços endureceram antes de suavizarem-se mais uma vez: – Este é o contrato? Ele assentiu com a cabeça: – Imagino que vá querer que seu advogado o leia para você.. – Isso não será necessário. Tenho uma amiga que é advogada e eu aprendi muito quando a ajudei a estudar para a prova da Ordem dos Advogados. Posso vê-lo? Ele deslizou os papéis sobre o tampo de madeira polida. Ela buscou um par de óculos de leitura de armação preta na bolsa e os colocou, empurrando-os para a ponte do nariz. Passaram-se minutos enquanto ela lia o contrato, e ele aproveitou a chance para perscrutá-la. A forte atração que sentia o irritava. Penelope não era seu tipo. Era curvilínea demais para o seu gosto, direta demais... real demais. Ele queria a certeza de que estaria a salvo de qualquer rompante emocional caso algo não saísse como ela desejava. Mesmo quando Gabi ficava chateada, ela sempre se portava de forma contida. Penelope o intimidava como o d***o. Seus instintos diziam que não seria fácil lidar com ela, já que ela dava opiniões e demonstrava suas emoções sem pensar. Essas reações causavam perigo, desordem e bagunça, ou seja, tudo de que ele não precisava em um casamento. E ainda assim... Ele confiava nela. Aqueles olhos de safira transmitiam determinação e honestidade. Uma promessa dela seria para valer. Ele sabia que, findo o prazo de um ano, ela iria embora sem olhar para trás ou desejar mais dinheiro. A balança estava pendendo a favor de Penelope. Uma unha pintada de vermelho-cereja tamborilava na borda da página com um ritmo cadenciado. Ela olhou para cima. Anthony se perguntou por que a pele dela havia ficado tão pálida de repente, já que momentos antes ela estava com um aspecto corado e saudável. – Você tem uma lista de exigências? – disse ela, como se o estivesse acusando de um crime, e não de fazer uma lista de qualidades e defeitos. Ele pigarreou. – São apenas algumas das qualidades que eu gostaria em uma esposa. Ela abriu a boca para falar, mas nenhuma palavra saiu. Penelope parecia estar travando uma batalha interna para libertá-las. – Você quer uma anfitriã, uma órfã e um robô, tudo em uma pessoa só. Acha isso justo? Ele respirou fundo. – Você está exagerando. Só porque quero me casar com uma mulher elegante e atenta aos negócios não significa que eu seja um monstro. – Você quer uma Amélia, sem o s**o. Não aprendeu nada sobre mulheres desde que tinha catorze anos? – Aprendi o suficiente. E foi exatamente por isso que meu tio Earl precisou me forçar a abraçar uma instituição que beneficia as mulheres. Ela ficou indignada. – Os homens se beneficiam muito com o casamento! – Em quê? – s**o frequente e companheirismo. – Depois de seis meses começam as dores de cabeça, e logo os dois chateiam um ao outro infinitamente. – Alguém com quem envelhecer. – Homens não querem envelhecer nunca. É por isso que vivemos atrás de mulheres mais jovens. O queixo de Penelope caiu. Ela fechou a boca com um ruído rápido.. – Filhos... uma família... alguém que o ame na saúde e na doença.. – Alguém que gasta todo o seu dinheiro e te azucrina toda noite, reclamando o tempo todo de ter que limpar a bagunça que você faz. – Você é doente. – Você é uma iludida. Ela sacudiu a cabeça, fazendo que os cachos negros e lustrosos se agitassem em volta de seu rosto, acomodando-se depois. A pele dela estava corada mais uma vez. – Meu Deus, seus pais realmente ferraram com você – murmurou ela. – Obrigado, Freud. – E se eu não me encaixar nessas categorias? – A gente dá um jeito. Os olhos dela se estreitaram e ela mordeu o lábio inferior. Os pensamentos de Anthony se remeteram à primeira vez em que ele a beijara, aos dezesseis anos. Lembrou-se de como sua boca havia se colado à dela, sentindo-a tremer sob a pressão de seus lábios. Os dedos dele acariciando de leve a pele exposta dos ombros dela. O cheiro fresco e limpo de sabonete e flores brincando com o olfato dele. Depois do beijo, o rosto dela irradiava pureza, inocência e beleza, aguardando a parte do felizes-para-sempre. Ela então sorrira e dissera que o amava. Que queria se casar com ele. Ele devia ter sorrido, dito algo educado e seguido seu caminho. Em vez disso, o comentário dela sobre casamento fora doce e tentador de uma forma que o deixara assustadíssimo. Mesmo aos dezesseis anos, Anthony sabia que nenhum relacionamento podia ser belo – todos ficavam feios no fim. Por isso ele riu, chamou-a de pirralha e a deixou sozinha no bosque. A vulnerabilidade e a mágoa no rosto dela partiram o coração dele, mas ele se resguardou desses sentimentos. Quanto mais cedo ela aprendesse, melhor. Naquele dia, Penelope encarregou-se de que ambos aprendessem lições difíceis. Ele afastou as lembranças e se concentrou no presente. – Que tal me contar o que espera deste casamento? – Cento e cinquenta mil dólares. Em dinheiro. Adiantado, e não daqui a um ano. Ele se inclinou na direção dela, intrigado: – É uma bela quantia. Dívidas de jogo? Uma parede invisível surgiu entre eles. – Não. – Exagerou um pouco nas compras? Os olhos dela faiscaram com irritação: – Não é da sua conta. Parte do trato consiste em você não me fazer perguntas sobre o dinheiro ou o uso que pretendo dar a ele. – Hummm, algo mais? – Onde vamos morar? – Na minha casa. – Não quero entregar meu apartamento. Vou continuar pagando o aluguel, como sempre. Anthony se surpreendeu. – Quando for minha esposa, precisará de um guarda-roupa apropriado. Você receberá uma mesada e terá acesso ao meu personal shopper. – Vou vestir o que eu bem entender, quando bem entender, e usarei o meu próprio dinheiro. Ele tentou conter um sorriso. Quase se divertia com a necessidade de Penelope em afrontá-lo, como nos velhos tempos. – Você bancará a anfitriã para meus associados. Estou prestes a fechar um grande negócio, portanto você terá de conviver bem com as outras esposas. – Acho que consigo manter os cotovelos longe da mesa quando estiver com elas e prometo rir das suas piadas idiotas. Mas preciso ter tempo para cuidar do meu próprio negócio e ter minha própria vida social. – Claro. Espero mesmo que você mantenha sua individualidade. – Desde que eu não o envergonhe? – Exato. Ela começou a bater o pé, no mesmo ritmo do tamborilar de suas unhas. – Tenho algumas ressalvas em relação à lista. – Sou um homem flexível. – Sou muito próxima da minha família, e eles precisarão de um bom motivo para acreditar que decidi me casar de forma tão repentina. – Diga que nós nos reencontramos por acaso depois de todos esses anos e resolvemos nos casar. Alexa revirou os olhos. – Eles não podem saber do nosso acordo, então precisam acreditar que estamos loucamente apaixonados. Você tem que vir a um jantar na casa da minha família para darmos a notícia. E precisa ser convincente. Ele se lembrou que o pai dela tivera problemas com bebida e havia abandonado a família. – Você ainda fala com seu pai? – Falo. – Você o odiava. – Ele se redimiu de seus erros, e eu decidi perdoá-lo. Em todo o caso, meu irmão, minha cunhada, minha sobrinha e as gêmeas, todos eles moram com meus pais e farão um milhão de perguntas, por isso você precisa ser bem convincente. Ele fechou a cara. – Não gosto de complicações. – Azar o seu. Isso faz parte do acordo. Anthony admitiu que teria de conceder a ela essa pequena vitória. – Está bem. Algo mais? – Sim. Quero uma festa de casamento de verdade. Os olhos dele se estreitaram. – Eu estava pensando num juiz de paz e nada mais. – E eu estava pensando em um vestido branco, uma festa ao ar livre, em estar com a minha família e ter Sophia como madrinha. – Não gosto de casamentos. – Você já disse isso. Só que minha família nunca vai acreditar que eu casei às escondidas. Temos que fazer isso por eles. – Penelope, estou casando com você por uma questão de negócios, não por causa da sua família. Ela ergueu ligeiramente o queixo. Ele fez uma nota mental sobre esse gesto, que parecia o prenúncio de uma ofensiva por parte dela: – Pode acreditar, também não estou muito contente com a situação, mas temos de representar bem nossos papéis se quisermos que as pessoas acreditem que nosso casamento é real. Ele se retesou, mas acabou assentindo com a cabeça: – Certo. – A voz dele transbordava sarcasmo. – Algo mais? Ela olhou para ele, um tanto nervosa, levantou-se da cadeira e se pôs a andar de um lado para o outro no escritório. A atenção dele se voltou para o traseiro perfeito de Alexa balançando de um lado para o outro e seu zíper se retesou de modo desconfortável. Um último e efêmero pensamento sensato passou pela sua cabeça como um lampejo. Desista disso enquanto ainda há tempo e vá embora sem olhar para trás. Essa mulher vai virar sua vida de cabeça para baixo, na diagonal e de um lado para o outro, e você nunca foi muito fã de montanha-russa. Nick combateu esse arroubo repentino de medo e esperou pela resposta dela
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