FORMALIDADE

2743 Words
Andando de um lado para o outro, ela arriscou outra espiadela em Tony. Um xingamento muito vulgar chegou até seus lábios, mas ela conseguiu reprimi-lo. Quando eram adolescentes, ela gostava de provocá-lo chamando-o de Principezinho por causa de seus cabelos dourados. Os cachos de sua infância tinham sido domados pelo corte curto e conservador, mas algumas mechas teimosas insistiam em cair nos olhos dele. Os tons de cor do cabelo de Tony haviam ficado mais ricos com o tempo, embora ainda lembrassem seu cereal matinal preferido, com as cores indo do mel ao trigo. Os traços dele estavam mais severos, o maxilar duro e reto. Seu breve sorriso deixou entrever dentes brancos e perfeitos. Os olhos ainda tinham o mesmo tom rico de castanho, insinuando segredos guardados em segurança por trás de uma parede. Mas o corpo dele... Ele sempre fora bastante ativo, mas, ao cruzar o escritório, o tecido elegante de suas calças claras se moveu de tal modo que delineou pernas compridas e musculosas e um traseiro firme. O suéter bege com gola em vê era uma peça ao mesmo tempo casual e apropriada para uma ida ao escritório num sábado. Algumas partes, por outro lado, eram bastante inapropriadas. Seus longos braços musculosos. Seus ombros largos e o peitoral que esticava e moldava o tecido. Sua pele dourada, bronzeada como se ele tivesse passado horas deitado ao sol. A graça ferina e natural em seus movimentos. Ele crescera, e já não podia mais ser chamado de Principezinho. Anthony era agora um homem feito (e muito bem-feito), mas olhava para ela e ainda via a amiguinha de Sophia. Quando olhou nos olhos dela, não houve reconhecimento ou apreço, apenas a afabilidade dispensada a alguém que fizera parte de seu passado. Bem, ela preferia morrer a ficar parada babando, só porque ele era atraente. Ele podia ser muito bonito, mas sua personalidade ainda era terrível. Tony tinha um imenso ego. Um imenso gênio. Um imenso... Pensar naquilo não ia ajudar em nada, por isso ela afastou a ideia de sua mente. Penelope odiava admitir que a presença dele a deixava nervosa e um pouco desnorteada. Uma semana atrás, ela havia feito um feitiço de amor, e a Mãe Terra ouvira. Ela tinha o dinheiro para salvar a casa de sua família ao seu alcance, mas e o restante da lista? O homem diante dela era contra tudo aquilo em que Penelope acreditava. A união deles não seria por amor, e sim por negócios, pura e simplesmente. Os recônditos de sua mente trouxeram de volta a memória do primeiro beijo deles, enquanto ela apostava que ele havia se esquecido daquele momento por completo. Sentiu a humilhação percorrer todo o seu corpo. Nunca mais. Se fizesse isso, estaria abrindo mão de sua moral e ética? Será que suportaria ficar casada com um homem cujo deus era a lógica e que acreditava que monogamia era coisa de mulher? – Penelope? Tudo bem? Ela o conteve com um gesto de mão e voltou a andar de um lado para o outro, desesperada, buscando respostas. Se fosse embora agora, não haveria opção além de vender a casa. Seria capaz de viver consigo mesma, sabendo que fora egoísta demais para fazer um sacrifício por sua família? Será que ela tinha escolha? – Penelope? Ela girou nos calcanhares e viu impaciência no rosto dele. Tony não tinha nenhuma tolerância a rompantes emotivos. Por mais bonito que fosse, certamente ainda era um chato, assim como havia sido quando adolescente. Provavelmente planejava com antecedência cada minuto de seu dia. Provavelmente desconhecia a palavra “impulsivo”. Será que conseguiriam viver um ano inteiro sob o mesmo teto? Conseguiriam passar 365 dias sem voar no pescoço um do outro? Ele cruzou os braços sobre o peito. O silêncio pairou sobre eles. Ela arriscou olhar na direção dele, e o surpreendeu olhando para ela como se os cachos dela tivessem virado cobras como as de Medusa. – Você está brincando. Ela sacudiu a cabeça, enfática. – Não. – Você é louca – disse ele. – O que vem de baixo não me atinge. Só me diga agora se aceita a condição, para que não percamos mais tempo. Foi quando ele fez algo que ela não o via fazer desde o episódio em que o valentão da vizinhança levara um tombo de sua bicicleta e caíra no choro de uma forma muito afeminada. Anthony gargalhou. Não uma risada ou um sorriso de canto de boca: uma bela risada que vinha lá de dentro, profunda e masculina. O som preencheu o ambiente, fazendo o escritório pulsar com vida. A própria Penelope reprimiu um sorriso, principalmente porque a gargalhada era à custa dela. – Boa tentativa, mas ao contrário dos zé-manés com quem você deve estar acostumada a sair, eu não sou facilmente convencido. Ele deu de ombros.. – Não me importo. Ela estava quase quicando de raiva, esforçando-se para impedir que seus dedos se contraíssem em punhos. Ele era tão indiferente, o desgraçado! Conseguia parecer ao mesmo tempo delicioso e perigoso, como a maçã envenenada da Branca de Neve. – Então? Quer pensar até amanhã, ou o que quer que seja que as mulheres fazem quando não conseguem se decidir? Ela mordeu o lábio inferior e forçou-se a dizer: – Está bem. Eu concordo. – Algo mais? – Acho que é tudo.. – Não exatamente. – Ele fez uma pausa, como se estivesse prestes a tratar de uma questão delicada. Penelope prometeu a si mesma manter a calma, independentemente do que estivesse por vir. Faria o mesmo jogo que ele. Seria a personificação da calma e da altivez, mesmo que Tony a torturasse com palavras. Controlou a respiração e sentou-se novamente, pegando sua xícara e tomando um gole de café. Ele respirou fundo e continuou: – Quero falar sobre s**o. – s**o? – A palavra ressoou como se fosse um tiro. Penelope piscou, mas recusou-se a manifestar qualquer alteração em sua expressão. Tony se levantou de um salto e os papéis acabaram se invertendo, já que agora era ele quem andava de um lado para o outro no luxuoso tapete vermelho-escuro. – Veja bem, precisamos ser muito discretos em nossas, ah... nossas atividades extracurriculares. – Discretos? – Sim. Tenho clientes do mais alto escalão e preciso proteger a minha reputação. Isso sem contar que os termos de contrato seriam quebrados caso nosso casamento fosse questionado. Acho que seria melhor se você se abstivesse de s**o durante este ano. Dá para fazer, não acha? – Na verdade não daria para fazer nada. A risada dele foi artificial e ela se perguntou se aquilo na testa dele era mesmo uma sugestão de suor ou se era apenas um efeito da luz. Ele parou e olhou para ela, quase como se temesse sua reação. E então o real significado das palavras dele queimou em seu cérebro como um raio. Tony queria que ela fosse a esposa perfeita durante a farsa, o que incluía que ela se mantivesse casta. Mas ele jamais mencionara que tencionava fazer o mesmo. Sophia já dera com a língua nos dentes e contado tudo sobre Gabriella, então ela sabia que Tony estava em um relacionamento. Penelope não entendia por que ele simplesmente não se casava com a namorada, mas a escolha era dele, e não cabia a ela julgar. Tudo o que lhe importava naquele momento era o porco chauvinista à sua frente e a vontade quase incontrolável de mandar tudo pelos ares. Quase incontrolável. Ela tremia de raiva, mas seu rosto continuava sereno. Anthony gostava de negociar? Ótimo. Porque quando ela saísse por aquela porta, ele teria assinado o contrato de sua vida. Penelope sorriu: – Eu compreendo. O rosto dele até se iluminou: – Compreende? – Claro. O casamento deve parecer real, de modo que pegaria muito m*l se sua esposa fosse alvo das fofocas, suspeita de ter um caso em tão pouco tempo. – Exatamente. – E você não teria de lidar com perguntas embaraçosas a respeito da sua virilidade. Se a esposa está se aventurando por aí, o problema fica muito claro. O marido não está dando no couro, não é? Ele se remexeu, desconfortável, e assentiu sem muito entusiasmo: – Acho que é isso mesmo. – Mas e a Gabriella? Ele se retraiu, surpreso. – Como você ficou sabendo? – Sophia. – Não se preocupe com Gabriella. Cuidarei dela. – Vocês estão dormindo juntos? Ele se encolheu, mas tentou agir como se não ligasse. – Isso importa? Ela ergueu as mãos de forma defensiva. – Quero que essa questão do s**o fique bem clara. Eu sei que preencho bem seus requisitos números 1 e 2. É óbvio que eu não o amo, e não sentimos atração um pelo outro. Você está dizendo que não poderei ter uma noite de s**o selvagem e casual, se quiser, mas quais são as regras para você? Os lábios de Penelope se comprimiram e ela se perguntou como ele conseguiria escapar da cova que ele mesmo acabara de cavar. Nick encarou a mulher à sua frente e engoliu seco. Aquela voz sensual evocava imagens ainda mais sensuais: Penelope nua, fazendo exigências e... s**o selvagem e casual. Ele reprimiu um palavrão e serviu-se de mais café, tentando ganhar algum tempo. Penelope exalava s**o. A inocência da juventude havia desvanecido e dado lugar a uma mulher de verdade com desejos de verdade. Ele se perguntou que tipo de homem seria capaz de satisfazer a esses desejos. Perguntou-se qual seria a sensação daqueles s***s em suas mãos, e o gosto daqueles lábios nos seus. Fantasiou sobre o que ela estaria vestindo sob o vestido vermelho justo. – Tony? – Hummm? – Você escutou? – Escutei. s**o. Prometo que você nunca será exposta a uma situação constrangedora. – Você está dizendo que pretende continuar dormindo com Gabriella? – Eu e ela temos um relacionamento. – E mesmo assim você não vai se casar com ela. A tensão crepitou ao redor dos dois. Ele deu alguns passos para longe, desesperado para impor alguma distância. – Não é esse tipo de relacionamento. – Hummm, interessante. Então o que você está dizendo é que eu não posso sair transando por aí porque não tenho ninguém fixo com quem já esteja fazendo isso. A acusação dela fez que um calor estranho emanasse de sua pele. O tom dela era irreverente, seu sorriso era fácil e genuíno. Tony se sentia à beira de uma exibição de poder feminino e perdendo terreno rapidamente. Lutou para voltar ao controle. – Se alguém já fizesse parte de sua vida, poderíamos conversar sobre essa situação. Mas estranhos são perigosos demais. Garanto que Gabriella saberá manter segredo. Penelope sorriu. Um delicioso sorriso feminino que prometia delícias além da imaginação, tudo para ele. Seu coração perdeu algumas batidas, e então voltou a bater. Aguardava, fascinado, as próximas palavras dela. – De jeito nenhum, meu bem. Ele lutou para continuar concentrado enquanto a recusa dela escorregava por aqueles lábios luxuriosos. – Perdão? – Se eu não posso f********o, você também não pode. Não me interessa se é Gabriella ou uma stripper ou o amor da sua maldita vida. Se eu não posso me divertir, você também não pode. Sua animação terá de vir do nosso casamento arranjado e de construir prédios – pausou ela. – Entendeu bem? Ele havia entendido. Decidiu não aceitar o acordo. E percebeu que estava perdendo, e que precisava virar o jogo e dar a volta por cima. Sorriu, tentando passar a promessa de compaixão, compreensão e do dinheiro de que ela tanto precisava. – Penelope, pode não parecer justo e eu entendo o seu modo de pensar, mas é diferente para os homens. Além disso, Gabriella também tem uma reputação a zelar, por isso jamais vai colocar você em uma posição constrangedora. Entendeu? – Entendi. – Então concorda com os termos? – Não. Tony sentiu a irritação emergir. Seus olhos se apertaram enquanto ele a observava e decidia que chegara a hora de resolver a situação de uma vez por todas. – Até agora, conseguimos chegar a um acordo a respeito de todos os outros pontos. Ambos cedemos. É só um ano, e depois você pode participar de quantas orgias quiser, eu não estou nem aí. Os gélidos olhos azuis de Penelope sustentavam o olhar dele com teimosia e determinação. – Se você pode participar de orgias, eu também posso. Se você quiser ser celibatário, eu também serei. Essa baboseira de diferenças entre homens e mulheres não me convence. Se eu tenho de ir para a cama sozinha por 364 noites, então vai ter de ir também. E se você quiser ter um pouco de ação, vai ter de recorrer à sua própria esposa. – Penelope jogou a cabeça para trás, como um garanhão de corrida logo após ser dada a largada. – E como sabemos que não sentimos atração um pelo outro, você terá de encontrar outras formas para aliviar a pressão. Seja criativo; dizem que o celibato estimula a atividade mental. Pois isso é tudo o que você terá. Ela não sabia, claro, que ele era um jogador habilidoso de pôquer e que passara os últimos anos aliviando as pressões do trabalho em jogos que varavam a noite, saindo das mesas alguns milhares de dólares mais rico todas as vezes. Assim como seu antigo hábito de fumar, o pôquer lhe dava prazer, e ele usava esse vício para se divertir, não para ganhar dinheiro. Tony se recusava a permitir que Penelope o derrotasse, e sentia que a vitória estava próxima. Mirou seu golpe direto na jugular: – Você quer continuar sendo irracional? Então está bem. O trato está suspenso. Pode dar adeus ao seu dinheiro. Eu só preciso enrolar o conselho da empresa por um tempo e tudo ficará bem. Ela se ergueu da cadeira, pendurou a bolsa no ombro e ficou parada na frente dele: – Foi bom ver você de novo, Principezinho. O direito dela o acertou em cheio. Tony se perguntou se ela entendia o quanto o apelido zombeteiro o irritava e lhe dava vontade de chacoalhar Penelope até ela engolir suas palavras. Ele odiara a alcunha desde quando eram crianças, e os anos não haviam amenizado o insulto. Exatamente como fazia quando jovem, travou os dentes e disfarçou a irritação com um sorriso fácil. – Foi, sim. Aparece um dia desses, vê se não some. – Pode deixar. A gente se vê por aí. Foi então que tony percebeu que estivera errado desde o início. Muito errado. Penelope era perfeitamente capaz de derrotá-lo no pôquer – não porque soubesse blefar, mas porque estava disposta a perder. Era também uma adversária muito competente no jogo do sério. Ela se virou. Marchou até a porta. Girou a maçaneta. E... – Está bem. – As palavras saltaram da boca de Tony antes mesmo que ele tivesse tempo de pensar. Algo dizia que ela iria embora de vez, não ligaria depois para dizer que mudara de ideia. E Penelope era sua única candidata, maldita. Um ano de sua vida não era nada se comparado com a dádiva de viver o resto de sua vida exatamente da maneira que sempre sonhara. Ele tinha que reconhecer: ela nem tripudiou. Ela se virou e disse em um tom prático e profissional: – Sei que esse nosso novo acordo não está na minuta do contrato. Você me dá sua palavra de que cumprirá os termos? – Posso alterar o contrato. – Não será necessário. Você me dá sua palavra? Anthony sentia a energia que emanava dela, e percebeu que ela confiava nele da mesma forma que ele confiava nela. Sentiu um formigamento de satisfação. – Eu dou minha palavra. – Isso basta para mim. Ah, sim. O fim do casamento após um ano? Não quero que minha família se chateie, por isso vamos alegar diferenças irreconciliáveis e fingir que continuamos amigos. – Posso viver com isso. – Ótimo. Vá me buscar hoje à noite, às sete, e iremos à casa da minha família para dar as boas novas. Cuidarei de todos os preparativos para o casamento. Ele concordou, seu cérebro enevoado com a grande decisão e com a proximidade de Penelope. O cheiro suave que emanava dela era baunilha? Canela, talvez? Ficou olhando, meio atordoado, enquanto Penelope deixava um cartão de visitas sobre sua mesa. – Aqui está o endereço da minha livraria – disse ela. – Vejo você mais tarde. Ele pigarreou, limpando a garganta para responder, mas era tarde demais. Ela já havia saído.
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