Penelope se remexeu no banco do BMW preto, inquieta com o silêncio que pairava entre os dois. Seu futuro marido parecia tão desconfortável quanto ela, e preferiu concentrar suas energias no rádio do carro. Ela tentou não manifestar seu desagrado quando, por fim, ele decidiu ouvir Mozart. Ele gostava mesmo de música sem palavras. Ela reprimiu um tremor ao pensar em morar sob o mesmo teto que ele. Durante um ano inteiro.
– Então, tem Black Eyed Peas aí?
– Isso é de comer? Ela conteve um gemido.
– Olha, eu até me contento com algum dos clássicos. Sinatra, Bennett, Martin.
Ele continuou quieto.
– Eagles? Beatles? Algum desses nomes lhe soa familiar? – Sei quem eles são. Que tal Beethoven?
– Deixa para lá
Ficaram em silêncio, com um piano ao fundo. Penelope sabia que ambos estavam ficando cada vez mais nervosos conforme os quilômetros passavam e eles se aproximavam da casa de seus pais. Não seria fácil bancar o casal apaixonado, se não conseguiam sequer manter dois minutos de conversa. Resolveu tentar de novo
– Sophia disse que você tem um peixinho.
O prêmio por seu comentário foi um olhar gélido.
– Tenho sim.
– Como ele se chama?
– Peixe.
– Nem um nome você deu ao coitado?
– Desde quando isso é crime?
– Você não sabe que os animais também têm sentimentos?
– Não gosto de animais – disse ele.
– Por quê? Tem medo deles?
– Claro que não.
– Mas teve medo da cobra que achamos no bosque aquela vez. Lembra que você não quis nem chegar perto e aí arrumou uma desculpa para dar no pé?
A temperatura no carro pareceu cair alguns graus.
– Não estava com medo; só não gostei. Já disse, não gosto de animais.
Ela soltou um riso forçado e voltou a ficar em silêncio. Podia riscar mais uma das qualidades da sua lista de homem ideal. A Mãe Terra só podia estar de brincadeira. Penelope resolveu não contar a ele sobre o abrigo para animais abandonados.
Sempre que eles ultrapassavam a capacidade máxima, Penelope levava alguns dos animais para casa até que surgissem novas vagas. Algo lhe dizia que Antohny daria um chilique caso descobrisse – se é que ele seria capaz de manifestar tanta emoção.
A possibilidade a deixou curiosa.
– Por que está sorrindo?
– Não é nada. Lembra-se de tudo o que combinamos?
Ele deu um suspiro aborrecido.
– Lembro. Já passamos e repassamos todos os detalhes sobre os membros de sua família. Sei todos os nomes e a história geral de cada um. Pelo amor de Deus, Penelope, esqueceu que eu brincava na sua casa quando éramos crianças?
Ela riu.
– Você só estava atrás dos biscoitos de chocolate que minha mãe fazia, e adorava torturar minha irmã e eu. Além do mais, faz muitos anos. Você não teve nenhum contato com eles na última década. – Por mais que ela tentasse se livrar da amargura, a facilidade com que Anhony descartara seu passado sem olhar para trás a deixava um pouco irritada. – Falando nisso, você nunca menciona os seus pais. Tem visto o seu pai? A frieza que irradiou dele era tão intensa que podia até causar hipotermia, pensou ela.
– Não – disse ele.
Ela aguardou alguns instantes, mas ele não disse mais nada.
– E sua mãe? Ela se casou de novo? – Não. Não quero falar dos meus pais. Não há necessidade disso.
– Ótimo. O que diremos à minha família sobre eles, então? Porque eles vão perguntar.
As palavras dele eram duras.
– Diga que meu pai está de férias no México e que minha mãe está viajando com o namorado novo. Diga o que quiser. Eles não estarão no casamento mesmo.
Ela abriu a boca, mas o olhar agressivo que recebeu dele indicou que o assunto estava encerrado. Ótimo. Ele era uma companhia agradabilíssima. Penelope apontou para a próxima entrada.
– Entre ali na frente
.
Anthony estacionou na via circular e desligou o carro. Ambos observaram a casa branca em estilo vitoriano. Mesmo do lado de fora, desde os pilares clássicos até a varanda charmosa, tudo na casa irradiava uma energia acolhedora. O gramado era cercado por salgueiros, de modo quase protetor.
A fachada era ocupada por enormes janelas com persianas escuras. Como era noite, a escuridão escondia os sintomas da negligência, fruto das dificuldades financeiras da família. Escondia a tinta branca descascada das colunas, o degrau rachado no alto da varanda, o telhado maltratado. Ela suspirou enquanto o lar de sua infância a envolvia como um cobertor aconchegante.
– Estamos prontos? – perguntou ele
Ela o olhou. Seu rosto era indecifrável; seus olhos, distantes. Ele estava descolado e informal de calça Dockers social despojada, camiseta Calvin Klein branca e mocassins de couro. Seu cabelo loiro queimado de sol estava arrumado e domado, exceto por uma onda teimosa que caía sobre a sobrancelha. Seu peitoral enchia bem a camiseta – bem demais para o gosto dela. Ele obviamente fazia musculação. Ela se perguntou se ele teria uma barriga de tanquinho, mas o pensamento fez coisas estranhas com o estômago dela, então Penelope afastou a ideia e se concentrou no problema imediato.
– Você está com cara de quem pisou em c**ô de cachorro.
A expressão neutra dele se desvaneceu. O canto da boca dele se ergueu ligeiramente:
– Hummm. Sophia disse mesmo que você fazia poesia.
– Devemos parecer um casal muito apaixonado. Se alguém desconfiar, não poderei casar com você, e aí a minha mãe vai fazer da minha vida um inferno. Então veja se representa bem o seu papel. Ah, e não tenha medo de me tocar. Juro que não tenho sapinho.
– Não tenho medo de... A respiração dele morreu em um sopro quando ela esticou a mão e tirou a mecha rebelde de sobre os olhos dele.
Ela gostou da sensação do cabelo sedoso entre seus dedos. A expressão de choque no rosto dele encorajou-a a prolongar o carinho, e ela deslizou as costas da mão na bochecha dele em um movimento lento. A pele dele era macia e áspera ao mesmo tempo.
– Está vendo? Nada de mais. Os lábios cheios dele se contraíram no que ela achou ser irritação. Era óbvio que Anthony a via não como uma mulher adulta, e sim como uma espécie de ser assexuado. Como uma ameba.
Ela escancarou a porta e cortou qualquer resposta que ele pudesse dar:
– Hora do show.
Ele balbuciou algo inaudível e a seguiu.
Nem precisaram tocar a campainha. A família saiu numa enxurrada pela porta, um por um, até que a varanda da frente estava lotada com as irmãs dela, dando gritinhos, e dois homens que o avaliavam. Penelope já havia avisado por telefone sobre o noivado. Inventara uma história sobre um romance às escondidas, uma paixão avassaladora e um noivado impulsivo. Ela dera uma manipulada no passado, fazendo seus pais acreditarem que eles nunca haviam perdido contato todos aqueles anos e continuavam amigos.
Anthony tentou se esquivar, mas as irmãs não deixaram. Isabella e Isadora se lançaram nos braços dele para um grande abraço, matraqueando sem parar.
– Parabéns! – Bem-vindo à família!
– Viu, Izzy? Eu disse que ele ia ficar um gato. Não é demais? Amigos de infância e agora marido e mulher! – Já marcaram a data? – Posso ser dama de honra?
Anthony parecia prestes a saltar por cima da sacada e fugir. Penelope caiu na gargalhada. Afastou as irmãs mais novas, puxando-as para si e abraçando-as.
– Parem de assustar o pobre coitado, meninas. Eu finalmente arrumei um noivo, não estraguem tudo agora! Elas deram risinhos.
Em frente a Penelope estavam duas meninas de dezesseis anos, cabelos castanho-chocolate, olhos azul-escuros e longas pernas finas. Uma usava aparelho nos dentes, a outra, não. Penelope podia apostar que os professores estavam gratos pela distinção entre elas. Suas irmãs viviam aprontando e adoravam trocar de lugar. Um gritinho agudo atraiu sua atenção, e ela se virou para o anjinho loiro aos seus pés. Abaixou-se e pegou no colo a sobrinha de três anos, enchendo-a de beijos.
– Mel, a Terrível – disse ela –, este é Anthony . Tio Tony para você, fedelha.
Mel o observou com a atenção meticulosa de que só uma criança é capaz. Tony esperou, paciente, o parecer dela. E então o rosto da menina se abriu em um sorriso luminoso. – Oi, Tony!
– Olá, Mel . – Ele sorriu de volta.
– Aprovado – disse Penelope, guiando Anthony . – Vamos ao resto das apresentações. Minhas irmãs, Isabella e Isadora , agora já crescidas e bem longe das fraldas. – Ela ignorou os lamentos das irmãs e sorriu. – Minha cunhada, Gina, e você já conhece meu irmão Isaian e meus pais. Pessoal, este é Anthony , meu noivo. Ela nem titubeou ao dizer a palavra.
A mãe apertou as bochechas de Anthony e sapecou-lhe um beijo.
– Anthony , como você cresceu! – Ela abriu os braços em um gesto de boas-vindas. – E como está bonito!
Penelope teve a nítida impressão de que ele corou, mas não quis acreditar.
Ele pigarreou e disse:
– Hum, obrigado, sra. Jones. Faz muito tempo. Isaian o cumprimentou com um soco amigável no ombro.
– E aí, Tony ? Eu não te via há séculos, e agora descubro que vai fazer parte da família. Parabéns
– Obrigado.
O pai de Penelope se aproximou e estendeu a mão para cumprimentar Tony .
– Por favor, me chame de Jim – disse. – Lembro que você vivia perturbando a minha garotinha. Acho que ela disse seu primeiro palavrão falando de você.
– Acho que ainda causo esse efeito – comentou Anthony.
O pai riu.
Gina se soltou dos braços de Lance e deu um grande abraço em Anthony.
– Agora as coisas finalmente vão ficar mais equilibradas por aqui – disse ela, seus olhos verdes brilhando. – Quem é de fora costuma ficar em desvantagem numérica nas reuniões de família.
Penelope riu.
– Ele ainda é um homem, Gina. Pode acreditar, ele sempre vai ficar do lado do Isaian.
Isaian puxou a esposa de volta e a abraçou pela cintura.
– O jogo está virando, amor. Finalmente teremos outro homem na casa para ajudar a combater tanta TPM.
Penelope socou um de seus braços. Gina socou o outro. Maria fez um “tsc, tsc”, estalando a língua.
– Isaian, cavalheiros não falam assim na presença de damas.
– Que damas? Maria deu um tapinha na lateral do corpo dele e disse: – Todo mundo para dentro. Vamos fazer um brinde com champanhe, comer e tomar um bom expresso.
– Posso tomar champanhe?
– E eu?
Maria sacudiu a cabeça para as duas meninas, que imploravam
.
– Vocês tomarão sidra sem álcool. Comprei uma garrafa só para vocês.
– Eu também, eu também!
Penelope sorriu para a sobrinha em seus braços:
– Tudo bem, fedelha. Suco de maçã para você também. Pôs a sobrinha de volta no chão e ficou olhando a menina correr para a cozinha, ansiosa para participar de toda aquela animação.
A hospitalidade acolhedora de sua família se enroscou nela como uma capa felpuda, neutralizando sua ansiedade. Será que ia dar tudo certo? Uma coisa era fazer um feitiço pedindo por um homem sem nome e sem rosto que tivesse o dinheiro para ajudar sua família. Outra coisa era a presença de Anthony em carne e osso durante um ano inteiro.
Caso seus pais suspeitassem que ela havia negociado seu casamento em um contrato para salvar a casa, eles jamais a perdoariam. Nem a si próprios. Mesmo com o fluxo constante de custos médicos decorrentes do problema de coração de seu pai, o orgulho daquela família havia provocado a recusas de toda a ajuda que lhes fora oferecida. Ficariam de coração partido ao saber que a filha sacrificara sua integridade para livrá-los de seus problemas. Anthony a estudava com uma expressão estranha no rosto, como se estivesse tentando entender algo. Ela precisou contrair os dedos para conter o movimento de esticar a mão e tocá-lo.
– Tudo bem? – perguntou ela.
– Tudo. Vamos entrar.
Anthony entrou na casa, e ela tentou não se sentir magoada com a frieza em suas palavras.
Ele já a alertara de que não gostava de famílias grandes, e seria infantil da parte dela sentir-se pessoalmente ofendida pela atitude dele. Ela redobrou sua determinação, ergueu o queixo e o seguiu. As horas seguintes foram cheias da melhor lasanha italiana, pão de alho fresco com queijo e ervas e uma garrafa de Chianti. Quando todos se retiraram para a sala de estar para um expresso e uma dose de Sambuca, uma vibração agradável zunia em seu sangue, alimentada pela boa comida e boa conversa.
Olhou para Anthony quando ele se sentou ao lado dela no velho sofá bege, mantendo uma distância cuidadosa. O sofrimento marcava os traços dele. Anthony ouvia a todos com educação, ria nos momentos certos e bancava o perfeito cavalheiro. Mas ele se recusava a olhá-la nos olhos, se esquivava sempre que ela tentava tocá-lo e estava longe de agir como o noivo devotado que deveria ser. Jim Jones bebericava o café, despreocupado.
– Então, Anthony, conte-me sobre o seu trabalho.
– Pai...
– Não, tudo bem. – Anthony se virou de frente para o pai dela. – A Dreamscape é um escritório de arquitetura que projeta edifícios no vale do rio Hudson. Nós desenhamos o restaurante japonês no alto daquela montanha em Suffern.
O rosto de Jim se iluminou.
– Um restaurante maravilhoso. Maria sempre adorou o jardim de lá. – Fez uma pausa. – Então, o que acha dos quadros de Penelope?
Ai, Deus, isso era r**m. Muito, muito r**m. Seus quadros não passavam de uma tentativa frustrada de expressão artística, e a maioria das pessoas concordava que eram péssimos. Pintava mais pelo efeito terapêutico do que para impressionar as pessoas. Ela amaldiçoou a si mesma por ter pedido que ele fosse buscá-la na livraria e não em casa. Como era coordenador de um grupo do AA, Jim era versado em reconhecer o mais sutil traço de fraqueza, e agora avançava sobre ele como um abutre sentindo cheiro de sangue.
O sorriso de Anthony não se abalou:
– São fantásticos. Sempre disse que ela deveria expor em uma galeria.
Jim cruzou os braços.
– Então você gosta deles. Qual é o seu preferido?
– Pai...
– A paisagem. Realmente transporta você direto para a cena. Em seu estado levemente embriagado, Penelope sentiu o pânico ameaçando-a.
Seu pai sentiu a tensão entre eles e aproveitou a brecha como um predador. Ela dava crédito a Anthony por tentar, mas a batalha já estava perdida antes mesmo de ele entrar em campo. O resto da família já sabia o que estava por vir e ficou observando o processo começar.
– Penelope não pinta paisagens. – As palavras cortaram o ar como uma bala de canhão. O sorriso de Anthony continuou firme.
– Ela está experimentando um pouco com paisagens agora. Querida, você não contou a eles?
penelope engoliu o pânico:
– Na verdade não. Desculpe, pai, por dar a notícia atrasada. Estou pintando paisagens com montanhas agora.
– Você odeia paisagens
.
– Não odeio mais – disse ela, conseguindo sorrir. – Descobri um novo apreço por paisagens desde que conheci um certo arquiteto.
– Então, você já leu o poema novo de penelope?
– Qual deles?
– O da tempestade.
– Ah, sim. Achei maravilhoso.
Ela jamais escreveu sobre uma tempestade. Ela escreve sobre experiências de vida relacionadas com o amor e a perda. ela nunca escreveu um poema sobre a natureza, assim como nunca pintou uma paisagem. Penelope bebeu de uma talagada só o que restava de sua Sambuca, ignorou o expresso e rezou para que o álcool a ajudasse a sobreviver àquela noite.
– Hum, pai, na verdade eu acabei de escrever um poema sobre tempestade.
– É mesmo? Que tal recitá-lo para nós? Faz algum tempo que sua mãe e eu não conhecemos seus trabalhos novos.
Ela engoliu em seco
. – Bem, ele ainda não está cem por cento pronto. Eu mostro a vocês assim que estiver perfeito.
– Mas você já mostrou para o Anthony.
Nervosa, Penelope sentiu seu estômago se revirar e rezou para escapar da situação. As palmas de suas mãos estavam encharcadas de suor.
– É, já. Bem, Anthony , é melhor a gente ir andando. Está tarde e temos muito o que fazer para planejar o casamento.
Jim apoiou os cotovelos nos joelhos e se inclinou para a frente. Havia acabado de sondar o território e agora estava se preparando para a****r a presa. O resto da família só pôde observar enquanto a tragédia se aproximava.
O olhar solidário no rosto do irmão mostrava que ele achava que não haveria mais casamento. Abraçava a esposa pela cintura como se estivesse revivendo o horror do momento, anos atrás, em que ele próprio anunciara que ela estava grávida e que eles iriam se casar. mel estava muito ocupada com seu Lego e ignorava a crise.
– Eu queria perguntar sobre o casamento – disse Jim.
– Vocês querem que ele aconteça em uma semana. Não seria melhor dar tempo para todos nós conhecermos melhor Anthony e o acolhermos na família? Por que tanta pressa?
Anthony tentou salvar a ambos:
– Entendo seu argumento, Jim, mas Penelope e eu já conversamos sobre isso e não queremos muita pompa. Decidimos que queremos estar juntos e começar nossa vida como casal o mais rápido possível.
– É romântico, papai – arriscou Izzy.
Penelope disse um “obrigada” silencioso à irmã, mexendo apenas os lábios, mas logo havia dois contra ela.
– Concordo com seu pai. – Maria estava à porta que dava para a cozinha, um pano de prato em suas mãos.– Queremos aproveitar ao máximo o casamento. Adoraríamos dar uma festa de noivado para que Anthony pudesse conhecer o resto da família, e não daria tempo para que todos viessem no sábado. Nenhum dos seus primos vai poder estar aqui. Jim se levantou:
– Então está resolvido. Vocês adiarão o casamento.
Maria concordou:
– Excelente ideia.
Penelope agarrou a mão de Anthony. – Meu amor, posso falar com você aqui no quarto um instantinho?
– Claro, querida.
Ela o arrastou pelo corredor e o empurrou para dentro do quarto, deixando a porta meio aberta.
– Você está estragando tudo – sussurrou ela, furiosa. – Eu te avisei para representar direito o seu papel, mas você está sendo uma porcaria e agora os meus pais perceberam que não estamos apaixonados!
– Eu estou sendo uma porcaria? Você está agindo como se tudo isso fosse uma d***a de uma pecinha teatral que você montou para os vizinhos. Isso aqui é a vida real, e eu estou fazendo o meu melhor.
– Minhas peças não eram uma d***a. Consegui uma boa grana com as entradas, e eu acho que Annie foi excelente. Ele soltou uma risada sarcástica.
– Você escalou a si mesma para o papel de Annie, e você nem sabe cantar!
– Você ainda está mordido só porque não te dei o papel de Oliver Warbucks.
Ele enterrou os dedos nos cabelos e soltou um som gutural, do fundo da garganta.
– Como, diabos, você vive me arrastando para discussões absurdas como essa?
– É bom você pensar em alguma coisa rápido. Por Deus, você não sabe como tratar uma namorada, não? Estava agindo como se fosse um completo estranho! Não é à toa que meu pai ficou desconfiado.
– Você é uma mulher adulta, Penelope , e ele ainda interroga os seus namorados. Não precisamos da permissão deles. Casaremos no sábado, e se seus pais não estiverem de acordo, azar o deles!
– Quero que meu pai entre comigo na igreja.
– O casamento nem é de verdade!
– Mas é tudo o que eu terei por enquanto! – penelope deixou escapar a mágoa por um instante enquanto a verdade daquela afirmação a atingia com força.
Aquele casamento jamais seria real, e algo estaria arruinado para sempre no minuto em que Anthony colocasse a aliança em seu dedo. Sempre sonhara com amor eterno, cercas brancas e uma porção de filhos. Em vez disso, ela agora tinha um monte de dinheiro e um marido que a tolerava educadamente. Ela não ia permitir que seu sacrifício fosse em vão apenas porque ele não conseguia fingir emoção o suficiente. Ergueu-se na ponta dos pés e agarrou o braço dele. Suas unhas se enterraram no tecido da camiseta, cortando a pele.
– Acho bom você consertar isso – sibilou ela.
– O que você quer que eu faça?
Penelope piscou. Seus lábios tremiam quando ela disse:
– Faça alguma coisa, caramba! Você tem que provar pro meu pai que esse casamento é de verdade ou então...
– Penelope?...
O eco de seu nome vinha do corredor e entrou pela fresta da porta, na voz gentil e preocupada de sua mãe, que vinha saber se estava tudo bem.
– Sua mãe está vindo – disse ele.
– Eu sei, ela deve ter ouvido a gente brigando. Faz alguma coisa!
– Mas o quê?
– Qualquer coisa!
– Então tá!
Ele a agarrou pela cintura e a puxou para junto dele. Abaixou a cabeça e cobriu os lábios dela com o seus, suas mãos a envolveram com tanta força que seus corpos ficaram colados, dos quadris ao peito.
O ar fugiu dos pulmões de penelope , que se desequilibrou quando seus pés falharam. Ela esperava receber um beijo preciso e controlado, apenas para mostrar à sua mãe que eram, de fato, amantes. Em vez disso, recebera um feito de testosterona e energia s****l pura. Recebera lábios quentes moldados contra os seus. Os dentes dele a mordiscavam, e sua língua explorava a boca dela de forma autoritária e controladora, fazendo-a dobrar-se para trás, por cima do braço que a agarrava firme na cintura para consumir cada pedacinho dela.
Ela agarrou-se ao beijo e retribuiu intensamente. Faminta pelo toque dele, ela estava embriagada com seu gosto e seu cheiro almiscarado, deliciando-se no contato com aquele corpo firme e longilíneo, enquanto um calor avassalador emergia deles e os incitava a perder o controle. Um gemido escapou da garganta de penelope. Ele enterrou os dedos nos cabelos pesados dela para poder controlar-lhe a cabeça enquanto continuava sua invasão sensual.
Os s***s dela ficaram mais cheios e pesados, e ela sentiu um calor líquido pulsar entre suas coxas.
– Penelope, eu... oh!
Anthony descolou sua boca da de penelope . Desnorteada, ela perscrutou o rosto dele em busca de algum sinal de emoção, mas seu olhar estava fixo na mãe dela.
– Sinto muito, Maria. – O sorriso dele era malicioso e masculino.
Maria riu e olhou para a filha, aprisionada nos braços dele.
– Desculpe interromper. Voltem para a sala quando terminarem aqui. Penelope ouviu passos se afastando.
Os olhos de Penelope se moveram para baixo, devagar. Ela se retraiu. Esperava ver algum traço de paixão, mas, em vez disso, os olhos de Anthony estavam límpidos, e seu rosto, calmo. Não fosse pelo volume rígido pressionado contra sua coxa, Penelope poderia acreditar que o beijo não o havia afetado. Ela, por outro lado, tinha sido arrastada de volta a outro lugar e outra época, no meio do bosque, para um momento em que revelara seus pensamentos e tivera sua confiança quebrada.
O primeiro toque dos lábios dele nos dela, o cheiro de pós-barba em suas narinas, a pressão delicada dos dedos dele em seus quadris. Um medo gelado percorreu as costas de penelope. Se ele risse dela novamente, estava tudo acabado. Se ele risse... Os braços dele a soltaram e ele deu um passo para trás.
O silêncio pairou sobre eles como uma onda pesada ganhando velocidade e prestes a quebrar. – Acho que o problema está resolvido
– disse ele. Ela não disse nada.
– Não era isso o que você queria? Ela ergueu o queixo e escondeu o turbilhão de emoções que se contorcia como cobras em seu estômago.
– Acho que sim. Ele se conteve, e esticou a mão em direção a ela.
– É melhor a gente se apresentar de volta como uma equipe unida.
Cinco dedos se fecharam ao redor da mão dela com uma força graciosa que deixou seus olhos marejados. Ela reprimiu as lágrimas e decidiu que sua reação era causada por um caso grave de TPM. Não havia outro motivo pelo qual um beijo de Anthony pudesse trazer tanto prazer e tanta mágoa.
– Está tudo bem? Ela trincou os dentes e deu um sorriso tão radiante que poderia estar em um anúncio de pasta de dentes.
– Claro que sim. Aliás, ideia brilhante.
– Obrigado. – Só não fique de novo todo duro como um cadáver. Finja que eu sou Gabriella.
– Eu jamais conseguiria confundir você e Gabriella.
A afirmação categórica cortou como uma faca, mas ela se recusou a demonstrar fraqueza.
– Não tenho dúvida disso. Mas pode acreditar, você também não é nenhuma fantasia para mim, Principezinho.
– Não foi isso.
– Esquece. – Ela o conduziu de volta à sala. – Pessoal, desculpem a interrupção, mas acho melhor Anthony e eu tomarmos o caminho de casa. Está tarde.