Noah estava fechando a academia quando o celular vibrou no bolso do short.
Olhou a tela sem pressa.
José.
— Fala, primo — atendeu, apoiando o ombro na porta de vidro enquanto girava a chave.
— Tá vivo, sumido? — José brincou do outro lado, a voz leve, satisfeita. — Eu e a Esther queríamos te chamar pra jantar aqui em casa. Nada chique. Só matar a saudade.
Noah sorriu.
— Ih, agora que virou homem casado esqueceu dos pobres, é isso? — debochou. — Mas topo, claro. Quando?
— Amanhã à noite. Você vem?
— Vou sim — respondeu sem pensar muito. — Vou levar a Fernanda também, se não tiver problema.
— Claro que não — José disse. — A Esther vai gostar de conhecer ela.
Noah destrancou o carro e jogou a mochila no banco de trás.
— Então fechado. Que horas?
— Oito tá bom. E vem com fome.
— Sempre — ele riu. — Avisa a Esther que eu não prometo bons modos.
— Isso nunca prometeu mesmo.
Eles desligaram.
Noah entrou no carro, deu partida e ficou alguns segundos parado, olhando o painel acender. Uma sensação estranha, quase familiar, passou rápido pelo peito como se algo estivesse prestes a acontecer, embora não houvesse nada de diferente naquela noite comum.
Ele sacudiu a cabeça, afastando o pensamento.
Casa de primo. Jantar tranquilo. Namorada ao lado.
Nada fora do roteiro.
E ainda assim, em algum lugar que ele não sabia nomear, uma história já estava começando a bater à porta.
A casa de José e Esther estava aconchegante, com aquele cheiro bom de comida feita com calma. Luz amarela, música baixa, risadas fáceis. Fernanda elogiou a decoração logo que entrou; Esther agradeceu, orgulhosa. Tudo fluía.
Durante o jantar, falaram de coisas leves.
Trabalho, planos, viagens. José comentava da lua de mel, Fernanda falava de um projeto novo no emprego, Noah fazia piada de tudo, como sempre. Riam. Brindavam.
Foi quando Noah se levantou para pegar mais cerveja que viu.
A estante.
Entre livros técnicos, romances aleatórios e alguns porta-retratos, havia um destaque óbvio: uma capa verde intensa, folhas de menta espalhadas, uma mulher ruiva deitada de bruços, sardas à mostra, um livro aberto ao lado.
Ele parou por um segundo a mais do que o normal.
Sentiu algo estranho no estômago. Não era reconhecimento imediato era curiosidade inquieta.
— Que livro é esse? — perguntou, apontando com o queixo, tentando soar casual.
Esther sorriu antes mesmo de responder.
— Beijo com sabor de menta — disse, como quem fala de algo precioso. — Já leu?
Noah franziu a testa.
— Não… mas essa capa… — Ele chegou mais perto, observando melhor. — Parece alguém que eu conheço.
José riu.
— Todo mundo diz isso. A autora usou a própria imagem. É a Sarah.
O nome bateu antes que o cérebro pudesse se preparar.
Noah congelou.
— Ah...Sarah…? — repetiu, devagar.
Esther assentiu, empolgada.
O mundo pareceu dar um pequeno deslocamento.
Ele se aproximou mais da estante, agora ignorando completamente o resto da sala. Pegou o livro com cuidado, como se pudesse quebrar.
A mulher da capa não era a menina tímida da escola.
Era outra coisa. Confiante. Crua. Bonita de um jeito que doía reconhecer.
— Esse livro tá em tudo quanto é lugar — continuou Esther. — Virou um fenômeno. As meninas se identificam demais. Tem fila de autógrafo, entrevistas, traduções…
Noah virou o livro, leu a sinopse rápido demais.
Cada palavra parecia escolhida para acertar algum lugar específico.
— É sobre o quê? — perguntou, a voz um pouco mais baixa.
— Primeiros amores. Silêncios. Feridas que a gente finge que esqueceu — respondeu Esther. — É intenso.
Fernanda se aproximou, curiosa.
— Ah, esse eu já vi na internet! — disse ela. — Todo mundo falando. Dizem que é dolorido.
Noah não respondeu.
Ele abriu o livro ao acaso.
Leu uma frase.
Depois outra.
E, sem saber explicar por quê, sentiu um arrepio subir pelos braços.
Algo naquele texto tinha gosto de passado.
E, pela primeira vez naquela noite talvez em muitos anos Noah teve a sensação incômoda de que estava prestes a se reconhecer em algo que nunca pediu para ser espelho
Noah fechou o livro rápido demais.
Como se o papel tivesse aquecido entre os dedos.
— Posso? — perguntou, já abrindo de novo, fingindo casualidade enquanto folheava sem foco. As páginas passavam, paravam, passavam outra vez. Ele lia palavras soltas, frases desconectadas. Não estava realmente lendo.
Fernanda, encostada ao lado dele, inclinou a cabeça.
— Amor, olha a dedicatória — comentou, apontando para o início do livro. — É diferente.
Noah sentiu o estômago afundar antes mesmo de obedecer.
Virou a página devagar.
Leu.
Uma vez.
Depois outra, porque o cérebro se recusava a aceitar de primeira.
Benjamin Dunevild, os amores podem não ser para sempre, mas o seu beijo com sabor de menta sim.
Com resquícios de menta que deixou em mim,
Sarah Dunclin.*
O mundo ficou silencioso por alguns segundos.
Benjamin.
Ben.
Ele piscou.
Forçou um sorriso torto, rápido, treinado.
— Dramática, né? — comentou, fechando o livro como quem fecha um assunto qualquer. — Escritor gosta dessas coisas exageradas.
José riu, sem perceber nada.
— Pois é, ela sempre foi intensa. Mas isso que fez o livro explodir.
Esther observou Noah por um segundo a mais do que o normal. Havia algo no jeito como ele segurava o livro firme demais, cuidadoso demais.
— Quer levar pra ler? — ela ofereceu. — Tenho outro aqui.
— Não, imagina — ele respondeu rápido. Rápido demais. — Deixa pra quem vai curtir de verdade.
Ele devolveu o livro à estante com cuidado quase cerimonial.
Sentou-se novamente à mesa.
Conversou.
Riu.
Fez piadas.
Mas por dentro, algo tinha saído do lugar.
A imagem da menina de vestido verde, escondida no canto de uma festa, surgiu sem pedir licença. O apelido enferrujadinha ecoou com um peso que nunca teve antes. O gosto de menta, que ele nem lembrava de ter sido importante, agora parecia grudar na memória.
Noah manteve a postura.
Mas sentiu.
Sentiu o desconforto de perceber que não era apenas um leitor qualquer.
Sentiu o choque de entender que, em algum momento da vida, ele tinha sido a ferida que alguém transformou em livro.
E, pela primeira vez, não soube rir disso