Capítulo 3. Tentando escrever o discurso

747 Words
Eles se sentaram à mesa da cozinha mais tarde naquela noite. Esther e José haviam saído para resolver “coisas de última hora”, deixando-os sozinhos Sarah com uma taça de vinho e Noah com um copo de cerveja, um bloco de notas em branco e um clima que ninguém pediu. Sarah abriu o caderno imediatamente, alinhando a caneta com precisão quase obsessiva. — Certo — disse, objetiva. — Um discurso de padrinhos precisa ser breve. Três a cinco minutos. Começa com agradecimento, passa por uma memória simbólica e termina com votos positivos para o futuro. Noah recostou-se na cadeira, cruzando os braços atrás da cabeça. — Uau. Isso foi… romântico ..um manual de instruções de escritora especializada. Ela não ergueu os olhos. — Funciona. — Você escreve romances, Sarah. Achei que viria com metáforas, lágrimas, corações felizes, essas coisas. Ela começou a escrever algo no papel. — Romance não é improviso. É técnica. — Então você é fria até quando finge emoção? — Eu não finjo emoção — respondeu, seca. — Eu construo. Noah sorriu de lado. — Sabia. Sempre achei que você analisava sentimentos como quem disseca um sapo na aula de biologia. A caneta dela parou por um segundo. Só um. — Podemos focar no discurso? — pediu, sem levantar a cabeça. — Claro — ele disse. — Manda aí, aprendiz de Shakespeare. Ela suspirou, controlada. — A ideia é falar de parceria. De escolha diária. Do respeito entre eles. — Parece uma palestra motivacional. Ela ergueu os olhos pela primeira vez. — Quer contribuir com algo útil ou só fazer comentários desnecessários? — Eu estou contribuindo. Estou testando sua paciência. — Teste reprovado. Noah riu baixo, inclinado agora sobre a mesa. — Você sempre foi assim? Ou virou escritora pra justificar essa cara de quem tá julgando o mundo inteiro? Sarah fechou o caderno devagar demais. — Você não me conhece mais, Noah. — Conheço sim — ele rebateu, com leveza perigosa. — Você ainda aperta a caneta quando fica irritada. Ela soltou a caneta imediatamente, como se tivesse sido pega em flagrante. — Coincidência. — Aham. Ele se levantou, andando pela cozinha. — Então, deixa eu ver se entendi — disse. — A garota que passava redação pra sala inteira agora escreve histórias de amor. — Não são histórias de amor. — São sobre o quê, então? Tragédias emocionais com final aberto? Ela cruzou os braços. — São sobre pessoas complexas. — Que se apaixonam? — Que sobrevivem. O sorriso dele diminuiu um pouco. — Pesado. — Realista. Houve um silêncio incômodo. Noah apoiou as mãos na bancada, olhando para ela de lado. — Você ainda tem raiva de mim, né? Sarah não hesitou. — Não. — Resposta rápida demais pra ser verdade. — Eu superei — disse, firme. — Algumas pessoas passam pela nossa vida só pra ensinar limites. Ele assentiu, fingindo concordar. — Fico honrado em ter sido educativo. Ela voltou a escrever. — Vamos incluir uma lembrança da infância de vocês dois. Algo leve. — Tipo quando eu joguei José na piscina antes da meia noite no ano novo ? Ele ficou muito puto. — Noah riu com a lembrança. — Isso serve. — Ótimo — Noah se aproximou de novo. — E você entra com uma frase poética no final. Alguma coisa tipo… “o amor é a soma de duas vontades que escolhem ficar”. Ela levantou o olhar, impassível. — Eu não escrevo frases prontas. — Mas você vive delas. O clima mudou. O ar ficou mais denso. — Cuidado — ela disse, baixa. — Você não sabe do que está falando. Ele inclinou a cabeça, provocador. — Então me explica. — Não — respondeu. — Eu não devo explicações a alguém que nunca ficou tempo suficiente pra ouvir. Silêncio. Noah respirou fundo, mas o sorriso voltou, um pouco mais contido. — Você tá mais durona. — Eu amadureci. — Dá no mesmo, só dói menos em quem olha de fora. Ela fechou o caderno com decisão. — Chega por hoje. Eu escrevo um rascunho e te mando amanhã. — Fugindo? — Preservando energia. Ela se levantou. — Boa noite, Noah. — Boa noite, escritora. Quando Sarah saiu da cozinha, ele ficou olhando o caderno fechado sobre a mesa. Pela primeira vez naquela noite, Noah não sorriu. Porque, por trás da indiferença calculada dela, ele começava a perceber uma coisa incômoda: Ela não estava fria. Ela estava protegida. E ele suspeitava que fosse… dele.
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