A casa estava cheia de caixas, arranjos ainda inacabados e aquele cheiro indefinido de flores misturado com ansiedade. Sarah já tinha arregaçado mentalmente a agenda do fim de semana quando ouviu passos atrás de si.
— Amor, achei as alianças — a voz masculina anunciou, antes de o dono dela aparecer.
José surgiu no corredor com um sorriso tranquilo, segurando uma caixinha pequena nas mãos. Tinha o tipo de presença segura que fazia sentido para Esther nada exagerado, nada instável.
— Ah, graças a Deus — Esther suspirou, aliviada. — Já achei que tinha perdido.
Ela então percebeu o silêncio estranho que se formara.
José olhou de Esther para Sarah e depois para Noah, que ainda estava apoiado na parede como se aquela fosse a sala de estar dele.
— Opa — disse José, abrindo um sorriso. — Olha só se não é a famosa Sarah.
— Famosa? — Sarah sorriu meio sem graça — Acho que escritores não tem tanta fama assim, mas agradeço o apoio cunhado.
José abraçou Sarah.
— Esther fala de você como se fosse uma entidade organizacional. A mulher que resolve crises.
— Exagero — Sarah respondeu. — Eu só gosto que as coisas façam sentido.
— E esse aqui você já conhece — Esther apontou para Noah, revirando os olhos. — Meu primo favorito e meu futuro padrinho mais inconveniente.
— Inconveniente é uma palavra forte — Noah se defendeu. — Eu prefiro “essencial para o entretenimento do evento”.
Sarah cruzou os braços.
— Imagino.
José observou a troca com curiosidade divertida.
— Vocês têm uma dinâmica interessante.
— Antiga — Sarah corrigiu.
— E m*l resolvida, pelo visto — Noah completou, sorrindo.
Sarah virou-se para ele devagar.
— Você fala demais.
— E você pensa demais. Equilíbrio universal.
Esther pigarreou alto, chamando atenção.
— Certo. Agora que todo mundo se reconheceu… temos um pedido.
Sarah sentiu o alerta interno ligar imediatamente.
— Pedido de casamento já foi feito — disse ela. — Qualquer coisa além disso exige aviso prévio.
José deu uma risada curta.
— Relaxa, não é nada assustador. Acho.
Noah descruzou os braços, curioso.
— Agora eu fiquei com medo.
Esther segurou a mão de José, animada demais para guardar segredo.
— Nós queremos que vocês dois são nossos padrinhos mais próximos.., queremos que seja especial para vocês também..
O mundo não acabou. Mas deu uma leve inclinação perigosa.
— Nós dois? — Sarah repetiu, com cuidado excessivo.
— Isso — José confirmou. — O Noah por ser meu primo e… bem, ele me conhece desde sempre.
— E você..Sarah porque é minha irmã e minha pessoa — Esther completou. — Eu confio em você pra tudo.
Sarah respirou fundo. Madrinha especial. Ok. Isso ela podia administrar.
— Claro — respondeu. — Isso é tranquilo.
Esther sorriu ainda mais.
— Ótimo! Então… tem mais uma coisinha.
Sarah fechou os olhos por um milésimo de segundo.
Nunca havia só uma coisa.
— Vocês também vão fazer o discurso de padrinhos. Juntos.
O silêncio caiu como um objeto pesado no chão.
— Juntos — Noah repetiu, saboreando a palavra. — Interessante.
— Não — Sarah disse, automaticamente. — Não é.
José levantou as mãos.
— Calma. A ideia é que seja algo leve. Engraçado. Representar as duas famílias.
— E vocês se conhecem — Esther acrescentou, como se isso ajudasse. — Vai ser mais natural!
Sarah virou-se para a irmã, com aquele olhar clínico que costumava usar para revisar contratos ruins.
— Esther… você sabe exatamente como a gente se conhece?
Esther mordeu o lábio, hesitando.
— Mais ou menos?
— Ela me adorava — Noah disse, com falsa modéstia. — Eu era irresistível.
Sarah olhou para ele sem piscar.
— Você era imaturo.
— Detalhes.
José riu, achando tudo aquilo mais engraçado do que deveria.
— Olha, se vocês preferirem, a gente pode pensar em outra coisa…
— Não — Sarah interrompeu, surpreendendo até a si mesma. — Nós damos conta.
Noah ergueu a sobrancelha, claramente interessado.
— Sério?
— Sério — ela confirmou. — Um discurso é só estrutura, coerência e objetividade. Nada emocional.
Ele inclinou a cabeça.
— m*l posso esperar pra ver você tentando ser objetiva falando de amor.
Ela se aproximou dele, baixando a voz o suficiente para só ele ouvir.
— Não confunda amor com espetáculo, Noah.
O sorriso dele suavizou por um instante. Só um.
— Você continua me subestimando.
Esther bateu palmas, feliz demais para notar qualquer tensão.
— Então está decidido! Vocês dois vão preparar o discurso juntos.
— Ótimo — Noah disse. — Quando começamos?
— Hoje à noite — Esther respondeu. — Jantar em família.
Sarah sentiu um aperto no peito. Jantar. Conversa. Proximidade.
— Perfeito — Noah completou, olhando diretamente para Sarah. — Assim a gente mata a saudade.
Ela sustentou o olhar, firme.
— Algumas saudades não merecem ressuscitar.
Mas, mesmo dizendo aquilo, Sarah sabia:
o passado acabara de ganhar um microfone