Eles se sentaram à mesa da cozinha mais tarde naquela noite. Esther e José haviam saído para resolver “coisas de última hora”, deixando-os sozinhos Sarah com uma taça de vinho e Noah com um copo de cerveja, um bloco de notas em branco e um clima que ninguém pediu.
Sarah abriu o caderno imediatamente, alinhando a caneta com precisão quase obsessiva.
— Certo — disse, objetiva. — Um discurso de padrinhos precisa ser breve. Três a cinco minutos. Começa com agradecimento, passa por uma memória simbólica e termina com votos positivos para o futuro.
Noah recostou-se na cadeira, cruzando os braços atrás da cabeça.
— Uau. Isso foi… romântico ..um manual de instruções de escritora especializada.
Ela não ergueu os olhos.
— Funciona.
— Você escreve romances, Sarah. Achei que viria com metáforas, lágrimas, corações felizes, essas coisas.
Ela começou a escrever algo no papel.
— Romance não é improviso. É técnica.
— Então você é fria até quando finge emoção?
— Eu não finjo emoção — respondeu, seca. — Eu construo.
Noah sorriu de lado.
— Sabia. Sempre achei que você analisava sentimentos como quem disseca um sapo na aula de biologia.
A caneta dela parou por um segundo. Só um.
— Podemos focar no discurso? — pediu, sem levantar a cabeça.
— Claro — ele disse. — Manda aí, aprendiz de Shakespeare.
Ela suspirou, controlada.
— A ideia é falar de parceria. De escolha diária. Do respeito entre eles.
— Parece uma palestra motivacional.
Ela ergueu os olhos pela primeira vez.
— Quer contribuir com algo útil ou só fazer comentários desnecessários?
— Eu estou contribuindo. Estou testando sua paciência.
— Teste reprovado.
Noah riu baixo, inclinado agora sobre a mesa.
— Você sempre foi assim? Ou virou escritora pra justificar essa cara de quem tá julgando o mundo inteiro?
Sarah fechou o caderno devagar demais.
— Você não me conhece mais, Noah.
— Conheço sim — ele rebateu, com leveza perigosa. — Você ainda aperta a caneta quando fica irritada.
Ela soltou a caneta imediatamente, como se tivesse sido pega em flagrante.
— Coincidência.
— Aham.
Ele se levantou, andando pela cozinha.
— Então, deixa eu ver se entendi — disse. — A garota que passava redação pra sala inteira agora escreve histórias de amor.
— Não são histórias de amor.
— São sobre o quê, então? Tragédias emocionais com final aberto?
Ela cruzou os braços.
— São sobre pessoas complexas.
— Que se apaixonam?
— Que sobrevivem.
O sorriso dele diminuiu um pouco.
— Pesado.
— Realista.
Houve um silêncio incômodo. Noah apoiou as mãos na bancada, olhando para ela de lado.
— Você ainda tem raiva de mim, né?
Sarah não hesitou.
— Não.
— Resposta rápida demais pra ser verdade.
— Eu superei — disse, firme. — Algumas pessoas passam pela nossa vida só pra ensinar limites.
Ele assentiu, fingindo concordar.
— Fico honrado em ter sido educativo.
Ela voltou a escrever.
— Vamos incluir uma lembrança da infância de vocês dois. Algo leve.
— Tipo quando eu joguei José na piscina antes da meia noite no ano novo ? Ele ficou muito puto. — Noah riu com a lembrança.
— Isso serve.
— Ótimo — Noah se aproximou de novo. — E você entra com uma frase poética no final. Alguma coisa tipo… “o amor é a soma de duas vontades que escolhem ficar”.
Ela levantou o olhar, impassível.
— Eu não escrevo frases prontas.
— Mas você vive delas.
O clima mudou. O ar ficou mais denso.
— Cuidado — ela disse, baixa. — Você não sabe do que está falando.
Ele inclinou a cabeça, provocador.
— Então me explica.
— Não — respondeu. — Eu não devo explicações a alguém que nunca ficou tempo suficiente pra ouvir.
Silêncio.
Noah respirou fundo, mas o sorriso voltou, um pouco mais contido.
— Você tá mais durona.
— Eu amadureci.
— Dá no mesmo, só dói menos em quem olha de fora.
Ela fechou o caderno com decisão.
— Chega por hoje. Eu escrevo um rascunho e te mando amanhã.
— Fugindo?
— Preservando energia.
Ela se levantou.
— Boa noite, Noah.
— Boa noite, escritora.
Quando Sarah saiu da cozinha, ele ficou olhando o caderno fechado sobre a mesa.
Pela primeira vez naquela noite, Noah não sorriu.
Porque, por trás da indiferença calculada dela, ele começava a perceber uma coisa incômoda:
Ela não estava fria.
Ela estava protegida.
E ele suspeitava que fosse… dele.