Capítulo 12. Caos

1076 Words
Duas semanas. Nenhum arquivo enviado. Nenhuma página nova. Nenhuma resposta além de “estou trabalhando” a mentira educada que Sarah raramente usava. O telefone tocou numa terça-feira cinza, insistente demais para ser ignorado. O nome do agente piscava na tela como uma cobrança viva. Ela atendeu já irritada. — Você enlouqueceu? — a voz dele veio sem filtro. — Dois meses viraram duas semanas sem absolutamente nada. Os investidores estão perguntando se você desistiu do livro. Sarah fechou os olhos, sentindo a pressão subir pelo peito. — Eu não desisti — respondeu, seca. — Eu estou bloqueada. — Bloqueada não é opção quando existem contratos — ele rebateu. — Você sempre entregou. Sempre. O que está acontecendo? Ela riu. Uma risada curta, nervosa. — Talvez eu esteja cansada de tentar ser previsível. — Então não tente, seja imprevisível! — ele explodiu. — Mas faça alguma coisa. Porque do jeito que está, você vai fracassar. E você odeia fracassar. Eu odeio fracassar. A palavra acertou em cheio. Fracassar. A ligação terminou m*l, abrupta, sem acordo. Sarah jogou o celular no sofá com mais força do que pretendia. O silêncio que veio depois foi ensurdecedor. Ela ficou parada no meio da sala por alguns segundos, o peito subindo e descendo rápido demais. Depois, algo nela quebrou não em lágrimas, mas em impulso. — Ótimo — murmurou. — Quer caos? Vamos ter caos. Sarah começou a bagunçar o apartamento de propósito. Empurrou livros fora do lugar. Abriu gavetas organizadas demais. Revirou caixas antigas que nunca mexia. Papéis empilhados com precisão foram espalhados pelo chão. Não era descontrole era uma tentativa desesperada de romper a ordem que a sufocava. Abriu o armário do quarto, puxou uma mala antiga, jogou roupas sobre a cama. De dentro de uma caixa esquecida, caíram fotografias, cartas, lembranças que ela evitava. E então, no fundo da caixa, algo diferente. Um caderno pequeno, de capa azul já desbotada. As bordas gastas. A caligrafia conhecida no nome escrito à caneta: Sarah F. Ela congelou. — Não… — sussurrou. Pegou o caderno com cuidado, como se pudesse mordê-la. O diário antigo. Do ensino médio. O que ela jurou ter jogado fora quando começou a publicar. O que continha tudo o que ela nunca quis reler. Sentou-se no chão, entre livros espalhados e roupas amassadas, e ficou alguns segundos apenas olhando para a capa. O coração batia estranho rápido, desconfortável. — Que ideia péssima — murmurou, abrindo mesmo assim. As páginas tinham cheiro de papel velho e emoção m*l resolvida. A letra era mais arredondada, menos segura. A escrita de alguém que sentia demais e pensava de menos. Ela leu a primeira página ao acaso. Depois outra. E outra. Havia ali uma menina inteligente, sensível, absurdamente apaixonada. Havia insegurança, esperança, vergonha, desejo. Havia um nome repetido mais vezes do que ela gostaria de admitir. Noah Dunclin. Sarah fechou o diário com força, respirando fundo. Aquele não era apenas um caderno antigo. Era a prova viva de tudo o que ela havia prometido nunca mais ser e, talvez, exatamente a história que ela vinha evitando escrever desde então. Sentada no chão do próprio caos provocado, Sarah percebeu algo desconfortável demais para ignorar: Talvez o bloqueio não fosse falta de coragem literária. Talvez fosse medo de admitir que algumas histórias, mesmo superadas, ainda ardem quando são tocadas. E o fogo, mais uma vez, ameaçava quebrar o gelo. Sarah abriu o diário de novo desta vez sem pressa, sem ironia. As primeiras páginas eram quase constrangedoramente doces. Ela reconheceu de imediato o tom: encantamento puro, sem filtros, sem defesas. A escrita era exagerada, cheia de adjetivos, como se a menina que ela fora tivesse medo de que o mundo não entendesse direito o quanto aquilo importava. *Ele entrou na sala hoje e parecia que a luz mudou de lugar.* Sarah soltou uma risada baixa, mais surpresa do que deboche. — Dramática… — murmurou, passando a página. Mas continuou lendo. Havia descrições minuciosas. Demais. O jeito como Noah apoiava o cotovelo na carteira. O sorriso torto quando respondia o professor. A facilidade com que ocupava espaço, como se o mundo tivesse sido feito com a medida exata dele. O cabelo sempre meio bagunçado, como se ele não se esforçasse para ser bonito e isso o torna ainda mais, o olho azul que ela descrevia como um lago exageradamente cristalino. Ela sentiu o peito apertar, não de saudade, mas de reconhecimento. Aquela menina observava com atenção quase científica, mesmo apaixonada. *Os olhos são claros demais para alguém que ri tanto. Às vezes parecem não combinar com ele, e eu fico tentando entender por quê.* Sarah fechou os olhos por um instante. Não havia dor ali ainda. Só fascínio. As páginas seguintes continuavam no mesmo tom. Noah como presença constante, mesmo quando não fazia nada de especial. O som da risada dele ecoando no corredor. O modo como cumprimentava todo mundo, menos ela detalhe anotado com um cuidado quase doloroso. *Ele não olha pra mim como olha pras outras. Talvez seja timidez. Talvez seja educação. Talvez ele nem me veja. Talvez...ele nem saiba quem eu sou.* Ela engoliu em seco. Aquela Sarah jovem não se chamava de i****a. Não se diminuía. Ela apenas sentia intensamente, honestamente. Não havia vergonha ainda, só expectativa. Sarah adulta passou o polegar pela margem da página, percebendo algo que nunca tinha se permitido notar antes: não havia humilhação naquelas linhas. Havia admiração. Beleza vista com olhos atentos, não submissos. — Você não era tola… — sussurrou para a menina do passado, quase com ternura. Virou mais uma página. *Quando ele sorri, eu penso que deve ser fácil gostar dele. Difícil deve ser não gostar.* Ela soltou o ar devagar, como se estivesse lendo sobre alguém que já não existia e, ao mesmo tempo, existia demais. As primeiras páginas do diário não falavam de rejeição. Nem de dor. Nem do apelido maldito. Falavam de um encantamento simples, quase inocente, por alguém que representava tudo o que ela ainda não ousava ser: leve, visível, seguro de si. Sarah fechou o diário por um momento, apoiando a cabeça na cama. Talvez o erro nunca tivesse sido amar demais. Talvez tivesse sido aprender a se defender cedo demais e levar essa armadura para cada livro que escreveu desde então. O diário ainda estava aberto em suas mãos. E ela sabia, com uma clareza desconfortável, que as próximas páginas deixariam de falar de beleza… e começariam a ensinar por que o gelo foi necessário
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD