Capítulo 9. Despedida

990 Words
O dia seguinte amanheceu lento, como se o mundo inteiro estivesse de ressaca emocional. A chácara estava mais silenciosa. Copos esquecidos sobre as mesas, flores começando a murchar, algumas pessoas espalhadas em cadeiras, outras dormindo em sofás improvisados. O casamento tinha acabado, mas o eco dele ainda pairava no ar. Sarah acordou cedo, como sempre. Tomou um banho rápido, vestiu algo confortável e arrumou a mala com a mesma precisão com que organizava capítulos. Não havia pressa só decisão. Desceu as escadas com a bolsa no ombro e encontrou Esther na cozinha, ainda de pijama, cabelo preso de qualquer jeito, sorriso cansado e feliz. — Já vai? — a irmã perguntou, bocejando. — Já — Sarah respondeu, abraçando-a com força. — Meu vôo é logo. — Itália… — Esther suspirou, meio invejosa. — Promete ligar quando chegar? — Prometo. E aproveita. Você merece. Elas se despediram com carinho, risos baixos e algumas lágrimas contidas. Sarah passou pela sala, pela varanda, despedindo-se de tios, primos, conhecidos que ainda esfregavam os olhos. Então o viu. Noah estava sentado na beira da piscina, camiseta larga, óculos escuros, o cabelo bagunçado de quem claramente exagerara um pouco na noite anterior. Tinha um copo de café na mão e parecia mais quieto do que o normal. Ela hesitou por um segundo. Depois seguiu até ele. — Ei — disse, neutra. — Vim me despedir. Ele levantou o rosto, tirando os óculos devagar. — Já? — Já. — Itália, né? — ele perguntou, como se não soubesse. — Sim. Meu apartamento. Meus prazos. Ele assentiu, balançando a cabeça. — Faz sentido. O silêncio se instalou. Não era pesado. Só… definitivo. — Obrigado por ontem — ele disse, enfim. — Por ouvir. — Obrigada por falar — ela respondeu. — Nem todo mundo consegue. Ela ajeitou a alça da bolsa no ombro. — Bom… se cuida. — Você também. Sarah deu um passo para trás, pronta para encerrar aquilo do jeito que sempre soube fazer: com educação e distância. Mas Noah se levantou de repente. — Sarah. Ela parou, impaciente consigo mesma. — O quê? Ele não respondeu com palavras. Apenas a puxou com cuidado rápido, antes que ela pudesse reagir envolvendo-a num abraço firme, quente, inesperadamente respeitoso. Não houve invasão. Não houve malícia. Só despedida. O corpo dela ficou rígido por um segundo. Depois, cedeu. As mãos pousaram de leve nas costas dele, sem força, sem promessa. Ela sentiu o cheiro familiar menta, perfume amadeirado, algo que ainda era Noah. Sentiu também algo novo: ausência de expectativa. — Cuida de você — ele murmurou, baixo. — De verdade. — Eu sempre cuidei — respondeu, com suavidade. Eles se afastaram devagar. Por um instante, os olhos se encontraram. Havia ali tudo o que poderia ter sido e não foi. E, surpreendentemente, isso não doía. — Boa viagem, Sarah — Noah disse. — Adeus, Noah. Ela virou-se e caminhou até o carro, sem olhar para trás. Noah ficou ali, parado, observando enquanto ela se afastava. Só então percebeu que aquele abraço não tinha sido para segurá-la. Tinha sido para libertá-la. E, talvez, para se libertar também. Sarah entrou no carro, ligou o motor e respirou fundo antes de partir. Enquanto seguia pela estrada, pensou que algumas histórias não terminam com reconciliação, nem com amor retomado. Algumas terminam com algo mais raro: Paz. A Itália a recebeu como sempre: com luz atravessando as janelas altas, o som distante de passos na rua de pedra e o cheiro familiar de café vindo do apartamento vizinho. Sarah entrou em casa, largou a mala perto da porta e ficou parada por um instante, absorvendo o silêncio organizado do próprio espaço. O apartamento era exatamente como ela deixara: estantes cheias, plantas bem cuidadas, a mesa de trabalho posicionada de frente para a janela. Tudo no lugar. Tudo sob controle. Ela trocou de roupa, prendeu o cabelo num coque prático e abriu as janelas. O ar entrou fresco, real, presente. A vida continuava. Nos dias seguintes, Sarah retomou a rotina com a eficiência que a definia. Acordava cedo, escrevia por horas, pausava para caminhar pelo bairro, almoçava em silêncio com um livro aberto ao lado do prato. À tarde, revisões. À noite, notas soltas para o novo romance. Funcionava. Quase sempre. Às vezes, no entanto, enquanto digitava uma cena qualquer, o nome surgia sem ser chamado. Noah. Não como saudade. Não como desejo. Mas como uma pergunta tardia, inconveniente. Ela fechava os olhos por um segundo, respirava fundo e seguia em frente. — Não — dizia em voz baixa, mais para si do que para qualquer lembrança. — Isso já passou. E tinha passado. Ela sabia disso. O reencontro tinha sido um ajuste fino no passado, não um convite para o futuro. Um fechamento de ciclo que chegara atrasado mas ainda assim necessário. Sarah não revisitou fotos. Não procurou redes sociais. Não romantizou a despedida. Tratou o que sentira como tratava tudo: com honestidade e limite. Algumas noites depois, enquanto escrevia, percebeu algo curioso. A protagonista do novo livro não era fria. Nem excessivamente cautelosa. Também não era ingênua. Ela era… inteira. Sarah sorriu de leve ao perceber isso. Talvez tivesse aprendido, enfim, a permitir que o amor existisse na ficção sem puni-lo pelo passado. Sem torná-lo burro. Sem torná-lo doloroso por princípio. Ela salvou o arquivo, fechou o notebook e foi até a cozinha preparar um chá. Do lado de fora, a cidade seguia viva, indiferente a histórias antigas. Noah ficou onde deveria ficar: no passado que a formou, não no presente que ela escolheu. Sarah levou a xícara até a janela, observando o movimento lá embaixo, sentindo uma calma sólida se espalhar por dentro. Ela não tinha esquecido quem ele foi. Apenas deixou de carregá-lo. E, naquela noite, ao voltar para a escrivaninha, escreveu a frase que encerraria o capítulo: Alguns amores não acabam em dor. Acabam em compreensão. Depois apagou o nome que quase surgira na linha seguinte. E seguiu escrevendo.
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