Capítulo 2. Padrinhos especiais

825 Words
A casa estava cheia de caixas, arranjos ainda inacabados e aquele cheiro indefinido de flores misturado com ansiedade. Sarah já tinha arregaçado mentalmente a agenda do fim de semana quando ouviu passos atrás de si. — Amor, achei as alianças — a voz masculina anunciou, antes de o dono dela aparecer. José surgiu no corredor com um sorriso tranquilo, segurando uma caixinha pequena nas mãos. Tinha o tipo de presença segura que fazia sentido para Esther nada exagerado, nada instável. — Ah, graças a Deus — Esther suspirou, aliviada. — Já achei que tinha perdido. Ela então percebeu o silêncio estranho que se formara. José olhou de Esther para Sarah e depois para Noah, que ainda estava apoiado na parede como se aquela fosse a sala de estar dele. — Opa — disse José, abrindo um sorriso. — Olha só se não é a famosa Sarah. — Famosa? — Sarah sorriu meio sem graça — Acho que escritores não tem tanta fama assim, mas agradeço o apoio cunhado. José abraçou Sarah. — Esther fala de você como se fosse uma entidade organizacional. A mulher que resolve crises. — Exagero — Sarah respondeu. — Eu só gosto que as coisas façam sentido. — E esse aqui você já conhece — Esther apontou para Noah, revirando os olhos. — Meu primo favorito e meu futuro padrinho mais inconveniente. — Inconveniente é uma palavra forte — Noah se defendeu. — Eu prefiro “essencial para o entretenimento do evento”. Sarah cruzou os braços. — Imagino. José observou a troca com curiosidade divertida. — Vocês têm uma dinâmica interessante. — Antiga — Sarah corrigiu. — E m*l resolvida, pelo visto — Noah completou, sorrindo. Sarah virou-se para ele devagar. — Você fala demais. — E você pensa demais. Equilíbrio universal. Esther pigarreou alto, chamando atenção. — Certo. Agora que todo mundo se reconheceu… temos um pedido. Sarah sentiu o alerta interno ligar imediatamente. — Pedido de casamento já foi feito — disse ela. — Qualquer coisa além disso exige aviso prévio. José deu uma risada curta. — Relaxa, não é nada assustador. Acho. Noah descruzou os braços, curioso. — Agora eu fiquei com medo. Esther segurou a mão de José, animada demais para guardar segredo. — Nós queremos que vocês dois são nossos padrinhos mais próximos.., queremos que seja especial para vocês também.. O mundo não acabou. Mas deu uma leve inclinação perigosa. — Nós dois? — Sarah repetiu, com cuidado excessivo. — Isso — José confirmou. — O Noah por ser meu primo e… bem, ele me conhece desde sempre. — E você..Sarah porque é minha irmã e minha pessoa — Esther completou. — Eu confio em você pra tudo. Sarah respirou fundo. Madrinha especial. Ok. Isso ela podia administrar. — Claro — respondeu. — Isso é tranquilo. Esther sorriu ainda mais. — Ótimo! Então… tem mais uma coisinha. Sarah fechou os olhos por um milésimo de segundo. Nunca havia só uma coisa. — Vocês também vão fazer o discurso de padrinhos. Juntos. O silêncio caiu como um objeto pesado no chão. — Juntos — Noah repetiu, saboreando a palavra. — Interessante. — Não — Sarah disse, automaticamente. — Não é. José levantou as mãos. — Calma. A ideia é que seja algo leve. Engraçado. Representar as duas famílias. — E vocês se conhecem — Esther acrescentou, como se isso ajudasse. — Vai ser mais natural! Sarah virou-se para a irmã, com aquele olhar clínico que costumava usar para revisar contratos ruins. — Esther… você sabe exatamente como a gente se conhece? Esther mordeu o lábio, hesitando. — Mais ou menos? — Ela me adorava — Noah disse, com falsa modéstia. — Eu era irresistível. Sarah olhou para ele sem piscar. — Você era imaturo. — Detalhes. José riu, achando tudo aquilo mais engraçado do que deveria. — Olha, se vocês preferirem, a gente pode pensar em outra coisa… — Não — Sarah interrompeu, surpreendendo até a si mesma. — Nós damos conta. Noah ergueu a sobrancelha, claramente interessado. — Sério? — Sério — ela confirmou. — Um discurso é só estrutura, coerência e objetividade. Nada emocional. Ele inclinou a cabeça. — m*l posso esperar pra ver você tentando ser objetiva falando de amor. Ela se aproximou dele, baixando a voz o suficiente para só ele ouvir. — Não confunda amor com espetáculo, Noah. O sorriso dele suavizou por um instante. Só um. — Você continua me subestimando. Esther bateu palmas, feliz demais para notar qualquer tensão. — Então está decidido! Vocês dois vão preparar o discurso juntos. — Ótimo — Noah disse. — Quando começamos? — Hoje à noite — Esther respondeu. — Jantar em família. Sarah sentiu um aperto no peito. Jantar. Conversa. Proximidade. — Perfeito — Noah completou, olhando diretamente para Sarah. — Assim a gente mata a saudade. Ela sustentou o olhar, firme. — Algumas saudades não merecem ressuscitar. Mas, mesmo dizendo aquilo, Sarah sabia: o passado acabara de ganhar um microfone
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