A tarde escorreu preguiçosa até a área da piscina. O sol já não estava tão forte, mas ainda quente o suficiente para justificar roupas leves, risadas altas e copos suados passando de mão em mão.
Sarah demorou mais que o resto para aparecer.
Quando surgiu, Noah percebeu antes mesmo de entender por quê.
Ela usava um biquíni branco simples, que deixava as pernas à mostra e marcava o corpo sem esforço. Nada calculadamente provocante e, ainda assim, impossível de ignorar. A pele clara tinha aquele aspecto bem cuidado de quem se trata com atenção, não por vaidade, mas por respeito próprio. O cabelo ruivo claro que ele tanto zoava na adolescência, as sardas espalhadas por todo o corpo, brilhava sob a luz do fim da tarde, contrastando com os olhos verdes profundos e atentos.
Não havia mais nada de menina nela.
Era uma mulher inteira.
Noah ficou parado por um instante, copo esquecido na mão, observando. O sorriso dela surgia contido, discreto, nunca escancarado como se fosse algo concedido, não oferecido. Ela ria com Esther, os pés quase tocando a água, completamente alheia ao fato de estar sendo analisada.
Ou talvez não tão alheia assim.
Ele desviou o olhar rápido quando percebeu que estava encarando demais.
— Merda… — murmurou, mais para si do que para qualquer um.
Na memória dele, Sarah ainda era a garota da sala: caderno impecável, postura retraída, aquela inteligência que intimidava e, ao mesmo tempo, virava alvo fácil. Ele lembrava dos comentários. Nerd feia, estranha, enferrujada, páprica estragada.Lembrava das risadas, das piadas jogadas no ar como se não fossem nada.
E ele lembrava, com um desconforto crescente, de como não fez nada...as vezes até ele usava esses apelidos.
Noah tinha achado Sarah legal naquela época. De verdade. Gostava de conversar com ela, gostava do jeito como ela enxergava o mundo com mais profundidade do que todos eles juntos. Os beijos não tinham sido mentira.
Mas ele era o “pegador”.
O cara que não podia se apegar.
O que precisava manter a imagem.
E Sarah… bem, Sarah não ajudava essa imagem.
Ele se afastou não porque deixou de gostar, mas porque gostava demais para o padrão errado. Porque não soube bancar o próprio interesse quando virou motivo de zoação. Porque foi mais fácil rir com os outros do que sustentar o que sentia.
Covardia vestida de adolescência.
Noah apoiou-se na borda da piscina, observando Sarah mergulhar os pés na água, mordendo o lábio inferior ao sentir a água fria. O gesto foi simples, cotidiano e ainda assim carregado de uma i********e que ele não tinha mais o direito de observar.
— Você cresceu — pensou.
— E eu fiquei para trás.
Ela levantou o rosto por um instante, o olhar cruzando com o dele do outro lado da piscina. Não houve sorriso imediato. Apenas um reconhecimento breve. Consciente. Controlado.
Depois, ela desviou primeiro.
Aquilo doeu mais do que qualquer ironia dela durante o almoço.
Noah passou a mão pela nuca, respirando fundo. Pela primeira vez desde que a reencontrara, a pergunta veio sem deboche, sem leveza:
Como teria sido se eu não tivesse sido quem eu era?
Se tivesse ficado do lado dela quando riam.
Se tivesse assumido os beijos.
Se tivesse sido menos aceito… e mais verdadeiro.
Sarah ria de algo que Esther dizia agora, inclinando a cabeça, o cabelo ruivo caindo sobre o ombro. Havia paz naquele riso. Uma paz que não incluía ele.
E Noah entendeu, com um peso estranho no peito, que aquela versão dela confiante, bonita, inteira , não tinha sido construída com o amor dele.
Tinha sido construída apesar da ausência dele.
Ele deu um gole no copo, o olhar ainda preso nela, e pensou, amargo e honesto pela primeira vez em anos:
Talvez o amor que nunca foi dele…
também tivesse deixado de ser dela há muito tempo.