Sarah estacionou o carro devagar demais para alguém que normalmente odiava perder tempo. O portão da chácara onde o casamento de Esther aconteceria já estava aberto, decorado com flores claras e uma faixa discreta anunciando o ensaio geral daquele fim de semana. Dois dias. Em dois dias, sua irmã se casaria.
Ela desligou o motor, respirou fundo e saiu do carro com a bolsa pendurada no antebraço. Vestia algo simples demais para um evento que ainda não era oficial: calça de alfaiataria, blusa neutra, cabelo preso em um r**o de cavalo baixo impecável. Sarah nunca foi do tipo que chegava chamando atenção preferia observar, calcular, entender o ambiente antes de se mover dentro dele.
Foi quando ela o viu.
Noah estava encostado perto da área externa, rindo alto demais, como se o mundo inteiro fosse uma plateia particular. Usava uma camiseta justa que não deixava nada para a imaginação, braços fortes, postura relaxada, aquele ar de quem nunca precisou pedir licença para existir. O sol refletia nos olhos azuis dele de um jeito quase ofensivo.
O corpo de Sarah reagiu antes da mente.
O estômago apertou.
O coração deu um pulo irritado.
A memória veio sem pedir permissão.
Noah Frankling
O garoto da última carteira, o sorriso fácil, o toque rápido nos corredores da escola, os beijos escondidos que nunca viraram algo de verdade. O mesmo Noah que, depois de conseguir o que quis, passou a tratá-la como se ela tivesse sido apenas um erro de percurso.
Ela fechou os dedos com força em torno da alça da bolsa.
— Ótimo — murmurou para si mesma. — De volta as memórias do inferno.
Tentou ignorá-lo, caminhando em direção à entrada principal da casa. Esther provavelmente estaria lá dentro, organizando alguma coisa, nervosa como sempre. Mas o universo tinha um senso de humor c***l.
— Espera eu conheço esse cabelo cor de fogo ai..— a voz dele veio fácil, quase divertida. — Não acredito. Sarah ?
Ela parou. Só por um segundo. O suficiente para respirar fundo e colocar o rosto neutro de sempre no lugar antes de se virar.
— Noah — disse, educada demais para alguém que gostaria de fingir que ele não existia.
Ele abriu um sorriso lento, avaliador, descarado como sempre. Passou os olhos por ela de cima a baixo sem qualquer constrangimento, como se tivesse todo o direito de fazer aquilo.
— Uau — comentou. — Você cresceu, ruiva.
Sarah arqueou levemente a sobrancelha.
— A maioria das pessoas cresce depois do ensino médio.
Ele riu, apoiando o peso em uma perna só, totalmente à vontade.
— Mais afiada. Gostei.
— Não lembro de ter perguntado — respondeu, seca.
Aquilo pareceu divertir ainda mais Noah. Ele cruzou os braços, exibindo o porte de academia sem nenhum pudor.
— Você sempre foi assim? Ou ficou séria só comigo?
Ela sentiu vontade de rir. Não por achar graça, mas pelo absurdo da situação. Anos sem vê-lo, e ele ainda agia como se tivesse acesso a ela. Como se não tivesse sido o primeiro grande não da vida dela.
— Eu sempre fui assim — disse, com calma cirúrgica. — Talvez você só não tenha prestado atenção.
O sorriso dele vacilou por meio segundo. Quase imperceptível. Mas Sarah viu. Ela sempre via.
— Touché — ele admitiu. — Então… escritora, né? Esther comentou alguma coisa.
— Comentou? — Sarah inclinou a cabeça. — Achei que você só prestasse atenção no que envolve você mesmo.
Noah soltou uma gargalhada genuína.
— Ok, merecido.
— É....é sim.
Eles ficaram em silêncio por um instante. Um silêncio estranho, carregado de tudo que nunca foi dito. Noah quebrou primeiro, como sempre.
— Confesso que não esperava te ver aqui tão… — ele fez um gesto vago com a mão — organizada. Você sempre foi mais… intensa.
Sarah sentiu o sangue esquentar com o duplo sentido da frase.
— Intensa é uma forma educada de dizer “emocional demais”?
— Eu ia dizer “interessante”, mas você pode escolher a versão dramática se preferir.
Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles só o suficiente para que ele sentisse o peso da presença dela.
— Não se preocupe, Noah. Eu deixei a versão dramática de mim na adolescência. Junto com certas ilusões.
O olhar dele escureceu, mas o sorriso continuou ali, firme, quase provocador.
— Então estamos quites — disse. — Eu também mudei.
Sarah observou bem. O corpo era outro. A confiança, amplificada. Mas havia algo familiar demais naquele jeito despreocupado.
— Duvido — respondeu.
Nesse momento, Esther apareceu na porta, animada, quebrando a tensão como um raio de sol.
— SARAH! — correu até ela, abraçando-a forte. — Você chegou!
Sarah retribuiu o abraço, aliviada pela interrupção.
— Cheguei — disse, sincera. — E já encontrei velhos conhecidos.
Esther olhou de Sarah para Noah, curiosa.
— Vocês se conhecem?
— Da escola — Noah respondeu rápido demais. — A Sarah era a mais inteligente da sala. Metia medo em todo mundo.
Sarah sorriu mas não para ele.
— Alguém tinha que compensar a falta de noção alheia.
Noah levou a mão ao peito, fingindo estar ofendido.
— Ai. Isso doeu.
Ela se afastou um pouco, ajeitando a bolsa no ombro.
— Bom, Esther, vim te ajudar. Só não garanto paciência infinita.
— Você nunca garantiu — a irmã riu.
Enquanto entravam na casa, Sarah sentiu o olhar de Noah em suas costas.
E, pela primeira vez em anos, teve certeza de uma coisa:
O amor que um dia quase foi dela… agora era apenas um território em disputa.
E ela não tinha certeza se queria reconquistá-lo ou vencê-lo.