Capítulo 24. Capa do livro

794 Words
No dia seguinte, Sarah chegou ao estúdio com o coração acelerado. O lugar era amplo, paredes brancas, luz natural entrando pelas janelas altas. Cheirava a café, maquiagem e algo fresco menta, ela percebeu depois, espalhada em pequenas caixas sobre a mesa. O agente já estava lá. — Bom dia, autora corajosa — ele disse, tentando soar leve. Sarah deu um meio sorriso nervoso. — Ainda dá tempo de desistir? — Tecnicamente? — ele respondeu. — Sempre. — Emocionalmente? — fez uma pausa. — Acho que não mais. Ela suspirou, rendida. A equipe começou a trabalhar com um cuidado quase cerimonial. Nada de esconder, nada de suavizar demais. A maquiadora passou base mínima, quase inexistente. Quando Sarah fez menção de falar algo, ela apenas sorriu. — As sardas ficam — disse, firme. — Elas contam a história. E ficaram. Visíveis, espalhadas pelo rosto todo, do jeito que Sarah passou anos tentando apagar. O cabelo ruivo foi solto, apenas alinhado, sem esforço excessivo. Natural, vivo. Então veio o vestido. Verde. Um verde profundo, elegante, que contrastava com a pele clara e fazia o cabelo parecer ainda mais intenso. Quando Sarah se olhou no espelho, sentiu um impacto inesperado. Não era a adolescente insegura. Não era a escritora distante. Era alguém inteira. — Confia — o agente disse atrás dela, percebendo o silêncio. Ela assentiu. No cenário, folhas de menta foram espalhadas pelo chão branco, frescas, verdes, quase exageradas. O cheiro era forte, invadindo o ambiente. Sarah foi deitada com cuidado sobre elas, o tecido do vestido se misturando às folhas. Colocaram um livro em suas mãos. Fechado. Sem título visível. — Segura como se fosse algo que você conhece desde sempre — orientou o fotógrafo. Sarah obedeceu. Olhou para cima, para a lente, depois desviou o olhar levemente, como se estivesse presa entre lembrar e seguir em frente. Clique. O som da câmera ecoou. Ela sentiu algo estranho no peito não vergonha, não orgulho. Reconciliação. Clique. As sardas estavam lá. O vestido verde também. A menta espalhada como memória persistente. O agente observava tudo em silêncio, os braços cruzados, expressão séria. — É isso — ele disse, baixo, quase para si mesmo. — A capa não vai mentir. Sarah fechou os olhos por um segundo. Talvez aquela imagem doesse para alguns. Talvez fosse íntima demais. Mas era verdadeira. As fotos se estenderam por horas. Mudavam pequenos detalhes: o ângulo da luz, a posição das mãos, o caimento do vestido, a quantidade de folhas de menta ao redor do corpo de Sarah. Ela virou de lado, sentou, fechou os olhos, abriu, encarou a lente, desviou o olhar. Clique após clique. Em algumas imagens, havia força demais. Em outras, delicadeza excessiva. Algumas eram bonitas mas não diziam nada. Até que o fotógrafo pediu: — Deita de bruços. Sarah obedeceu sem pensar muito. O chão estava frio sob o tecido do vestido. As folhas de menta espalhadas se moveram com ela, liberando um aroma fresco e intenso. — Vira o rosto um pouco… isso… deixa ele quase se misturar às folhas — orientou. Ela apoiou o rosto de lado, a bochecha tocando a menta. Sentiu a textura das folhas contra a pele. O cabelo ruivo se espalhou de forma desordenada, contrastando com o verde vivo. As sardas ficaram ainda mais evidentes naquela proximidade crua, sem artifício. O livro foi colocado aberto ao lado do braço dela. As páginas levemente amassadas, como se já tivessem sido lidas muitas vezes. — Não olha pra câmera — o fotógrafo disse. — Olha pra dentro. Sarah respirou fundo. Pensou na garota que foi. Na mulher que se tornou. No beijo que ficou. Clique. O estúdio ficou em silêncio por um segundo. O fotógrafo abaixou a câmera devagar. — Espera — ele disse, indo até o monitor. O agente se aproximou primeiro. Sarah se levantou com cuidado, o coração acelerado sem saber por quê. Caminhou até a tela e, quando viu a imagem, parou. Era ela. Mas também era Aruna. O verde das folhas contrastava de forma quase violenta com a pele branca. O ruivo parecia fogo contido. As sardas, ali, impossíveis de ignorar, não como defeito como assinatura. Não havia pose. Não havia sedução óbvia. Havia vulnerabilidade. O agente não disse nada por alguns segundos. Depois assentiu, convicto. — É essa. O fotógrafo concordou com um simples movimento de cabeça. Sarah engoliu em seco. — Tem certeza? — perguntou, ainda insegura. — Absoluta — o agente respondeu. — Essa foto não pede aprovação. Ela impõe silêncio. Sarah continuou olhando para a imagem. Não se reconhecia apenas como autora. Se reconhecia como história. E, naquele instante, entendeu que aquela capa não era só sobre um livro. Era sobre assumir, em imagem e palavra, tudo o que tentou esconder por anos. E ela estava pronta.
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