Os dias seguintes passaram como um transe.
Sarah m*l percebeu o tempo.
Dormia pouco, comia quando lembrava, vivia entre café frio e páginas abertas. O passado, antes pesado demais para ser tocado, agora escorria pelos dedos com uma facilidade assustadora.
Ela escreveu tudo.
Escreveu os beijos roubados nos corredores vazios.
O gosto de menta que sempre vinha depois.
As mãos inseguras, depois confiantes demais.
O desejo adolescente que parecia grande demais para caber num corpo tão jovem.
Escreveu os choros abafados no travesseiro.
As noites se perguntando por que não era suficiente.
A vergonha de gostar.
A raiva de ainda gostar.
Escreveu os sonhos aqueles em que Ben aparecia diferente, maduro, pedindo desculpas, escolhendo-a em voz alta.
E escreveu o despertar amargo, repetidas vezes.
Não suavizou nada.
Não romantizou o que não merecia romance.
Era cru. Era íntimo. Era perigoso. Era verdadeiro.
Na quinta-feira, sem perceber que já era quinta, Sarah olhou o relógio pela primeira vez em horas.
04:00 da manhã.
O cursor piscava no final da última página.
Ela releu o parágrafo final. Um encerramento em aberto. Aruna não perdoava totalmente. Ben não era absolvido. Não havia reconciliação fácil, nem punição exemplar.
A vida seguia.
Como sempre segue.
Sarah salvou o arquivo.
Ficou alguns segundos parada, com as mãos suspensas sobre o teclado, sentindo algo entre alívio e vertigem. Depois criou a última página.
Dedicatória.
Ela não pensou muito. Não revisou. Não tentou ser elegante.
Apenas escreveu.
*Benjamin Dunevild
os amores podem não ser para sempre,
mas o seu beijo com sabor de menta sim.
Com resquícios de menta que deixou em mim,
Sarah Dunclin…*
Ela podia ter usado o nome de Aruna, deveria. Mas não quis, ela quis finalizar a sua história com seu nome real, e por mais que a dedicatória não usasse o nome verdadeiro de Noah, ela sabia que era para ele.
Quando terminou, recostou-se na cadeira, fechando os olhos.
Não sorriu.
Não chorou.
Era uma sensação diferente.
Como se tivesse finalmente devolvido algo que carregou tempo demais.
Sarah fechou o notebook devagar.
O livro estava pronto.
E, aquela história não pertencia mais só a ela.
Sarah não releu.
Nem uma linha.
O medo de voltar atrás era maior do que qualquer insegurança sobre o texto. Se abrisse de novo, se ajustasse uma frase, se tentasse “melhorar”, talvez não tivesse coragem de enviar nunca.
Ela apenas salvou o arquivo uma última vez.
Beijo com sabor de menta.
O título apareceu na tela simples, direto, íntimo demais para ser fingimento.
Sarah anexou o manuscrito completo ao e-mail. Não escreveu mensagem longa. Não se explicou. Não pediu desculpas pelo tom, pela exposição, pelo risco.
Digitou apenas:
— Está pronto.
Apertou enviar antes que o coração pudesse interferir.
O som seco da confirmação ecoou pelo apartamento silencioso como um ponto final.
Ela fechou o notebook com cuidado, como quem encerra um ritual. Apagou a luz da sala, caminhou até o quarto sentindo o corpo finalmente ceder ao cansaço acumulado.
Deitou-se.
Pela primeira vez em semanas, a mente não correu.
Não pensou em Noah.
Não pensou em Ben.
Não pensou em escola, nem em boatos, nem em beijos escondidos.
Pensou apenas em descanso.
O livro estava fora de suas mãos agora.
E, com isso, algo dentro dela também estava.
Sarah adormeceu rápido, profundamente, com uma calma estranha quase uma paz como se tivesse finalmente contado a história que precisava ser contada, do único jeito possível: sem pedir permissão