Sarah abriu um novo capítulo.
O cursor piscava na tela, insistente, quase impaciente.
Ela apoiou os dedos no teclado, respirou fundo… e nada veio.
As imagens voltaram rápidas demais.
Os dias seguintes.
O peso no peito ao acordar.
A sensação de entrar na escola como quem entra em território inimigo.
O cuidado exagerado para não chamar atenção.
A vergonha que não fazia sentido, mas se instalava mesmo assim.
Ela tentou escrever Aruna atravessando aquele período.
Digitou uma frase.
Apagou.
Tentou outra.
Apagou de novo.
O nó na garganta cresceu.
Sarah fechou o notebook com mais força do que pretendia e se levantou, andando pelo apartamento sem rumo. Passou pelo espelho do corredor e evitou o próprio reflexo, como fazia naquela época.
O corpo lembrava antes da mente.
Ela se deitou na cama ainda vestida, encarando o teto branco. O silêncio do apartamento era ensurdecedor.
E então veio.
Não o choro bonito de catarse.
Veio o choro preso, silencioso, aquele que aperta o peito e faz o ar faltar.
As lágrimas escorreram sem aviso.
Sarah virou de lado, abraçando o travesseiro como se estivesse de novo com dezesseis anos, sentindo aquela mistura confusa de humilhação, saudade e culpa culpa por ter gostado, culpa por ter acreditado, culpa por ter deixado acontecer.
Ela lembrou de como se sentiu pequena.
Substituível.
Ridícula.
Lembrou de se perguntar o que havia de errado com ela.
Se o problema era o rosto.
O corpo.
As sardas.
O jeito.
A inteligência.
O choro aumentou quando percebeu que, por muito tempo, ela realmente acreditou que merecia aquilo.
— i****a… — murmurou para si mesma, a voz embargada. Não para a garota que foi. Para o mundo que permitiu.
Ficou ali por longos minutos talvez horas até o corpo cansar de doer daquele jeito agudo e a dor virar algo mais fundo, mais silencioso.
Quando o choro finalmente cessou, Sarah respirava pesado, os olhos inchados, o peito sensível.
Ela não escreveu mais naquela noite.
Mas, deitada no escuro, entendeu algo importante:
Não era bloqueio criativo.
Era luto.
Luto pela menina que gostou sem malícia.
Que acreditou sem cinismo.
Que aprendeu cedo demais a endurecer.
Sarah fechou os olhos.
No dia seguinte, ela sabia, teria que escrever isso também.
Mas naquela noite, ela apenas se permitiu sentir.
E isso por si só já era um tipo de coragem.
Sarah acordou cedo, com o corpo ainda pesado, mas a mente estranhamente clara.
Lavou o rosto, prendeu o cabelo de qualquer jeito e fez café forte demais. Não abriu mensagens. Não ligou para o mundo. Voltou direto para o notebook.
Abriu o arquivo.
Respirou fundo.
E escreveu.
No livro, os dias seguintes não tinham grandes eventos. Não tinham confrontos. Tinham ausência.
Aruna passou a ocupar menos espaço.
Sentava sempre na frente.
Falava apenas quando chamada.
Andava pelos corredores com livros apertados contra o peito, como se aquilo a protegesse.
Sarah descreveu como Aruna aprendeu a se tornar quase invisível não por timidez, mas por estratégia. Invisibilidade doía menos do que exposição.
Ben ainda olhava.
No começo, olhava demais.
O olhar dele a seguia pela sala, pelo corredor, pela biblioteca. Não havia mais provocações, nem sorrisos tortos. Havia algo diferente ali incômodo, talvez arrependimento.
Aruna percebia.
E fingia não perceber.
Sarah fez questão de escrever isso: fingir também é um aprendizado.
Com o passar dos dias, os olhares diminuíram. Ben passou a conversar mais alto com os amigos. A rir de outras coisas. A se distrair.
Até que parou de olhar completamente.
E Aruna achou que estava preparada para isso.
Não estava.
O capítulo avançava, e então veio o dia.
No pátio, no meio do burburinho do intervalo, Aruna viu Ben chegar de mãos dadas com ela.
A garota que todos conheciam.
Jasmine Belford
Alta.
Corpo desenhado como se não tivesse precisado se esconder nunca.
Cabelo loiro claro, sempre solto.
Olhos azuis, chamativos, fáceis de admirar.
A menina que ocupava espaço sem pedir desculpas.
Sarah descreveu o contraste com precisão quase c***l.
Ben sorria diferente com ela. Um sorriso aberto, exibido. Orgulhoso.
Aruna sentiu o impacto no peito, rápido e silencioso, como um soco sem barulho.
Mas não chorou.
Não ali.
Ela apenas abaixou os olhos e continuou andando.
Naquele dia, Aruna entendeu que ser esquecida dói menos do que ser substituída
mas apenas depois que você aprende a fingir que não sente.
Sarah parou de digitar por um segundo, engolindo em seco.
Depois continuou.
Aruna não odiava a garota.
Não a invejava de verdade.
O que doía era a confirmação.
Ben não tinha vergonha de quem namorava agora.
Não precisava esconder.
Não precisava explicar.
E isso dizia tudo.
Sarah salvou o arquivo e se recostou na cadeira.
O coração ainda apertava, mas havia algo novo ali: uma frieza lúcida, quase elegante.
Ela não estava mais escrevendo para sobreviver à memória.
Estava escrevendo para dar sentido a ela.
Ela sabia esse livro não seria gentil.
Mas seria honesto