Capítulo 19. Boato

892 Words
Sarah sentiu o estômago embrulhar antes mesmo de começar a digitar. Ela sabia o que vinha. No livro, o dia seguinte amanhecia claro demais. Céu azul, sol entrando pelas janelas da escola, como se o mundo estivesse debochando daquilo que Aruna carregava por dentro. Ela entrou pelo corredor e sentiu antes de ouvir. Risos contidos. Sussurros que paravam quando ela passava. Olhares rápidos demais para serem inocentes. No primeiro comentário, ela ainda duvidou. — Foi aposta, né? — alguém disse, alto o suficiente. Aruna continuou andando. No segundo, a palavra veio inteira, c***l, impossível de fingir que não ouviu. — Dizem que ele perdeu e teve que beijar a nerd feinha. Sarah pausou os dedos no teclado por um instante. Depois continuou, firme. Na sala de aula, Aruna sentou no lugar de sempre. Abriu o caderno. Tentou repetir o ritual de foco que vinha funcionando. Mas daquela vez, o silêncio não protegia. As risadas vinham de todos os lados. — Corajoso ele, né? — Aposto que fechou o olho e imaginou outra pessoa. — Deve ter sido o beijo mais rápido da vida dele. Alguém atrás dela murmurou: — Quem ia querer beijar uma sardenta dessas? Aruna sentiu o rosto queimar, mesmo sob a maquiagem grossa. Não levantou a cabeça. Não respondeu. Mas algo dentro dela se partiu com um estalo seco. Sarah escreveu que o professor entrou, pediu silêncio, e a aula começou como se nada estivesse acontecendo. Como sempre. Ben entrou atrasado. E ali, Sarah fez questão de registrar o momento exato do fim. Ben evitou olhar para Aruna. Sentou no fundo. Riu com os amigos. Não negou. Não explicou. Não defendeu. Não precisou dizer nada. A ausência de reação foi a resposta mais clara de todas. Aruna entendeu. Não com raiva explosiva. Não com choro histérico. Com uma lucidez fria. No intervalo, ela passou por ele no corredor. Ben abriu a boca, chamou seu nome. Ela não parou. Não virou. Não desacelerou. Sarah escreveu: Naquele dia, Aruna aprendeu que o que machuca não é o boato. É o silêncio de quem poderia ter te defendido. À tarde, Aruna chegou em casa e foi direto para o banheiro. Tirou a maquiagem com força, esfregando o rosto até a pele ficar vermelha. As sardas reapareceram uma a uma, como se nunca tivessem ido embora. Ela se olhou no espelho por muito tempo. E decidiu. No livro, Aruna não confrontava Ben. Não fazia cena. Não pedia explicação. Ela apenas se afastava. Mudava de lugar na sala. Mudava de rotina. Mudava de mundo. Sarah terminou o capítulo com uma frase curta, definitiva: Foi ali que Aruna deixou de gostar de Ben. Não porque o amor acabou mas porque a dignidade falou mais alto. Quando Sarah parou de escrever, as mãos tremiam. Mas havia algo diferente daquela vez. Ela não estava mais revivendo a dor como vítima. Estava organizando o passado como autora. E,aquilo não a diminuía. Aquilo a libertava. O notebook ainda estava aberto quando o celular de Sarah vibrou sobre a mesa. Ela olhou para a tela e suspirou antes de atender. — Alô? — Finalmente — a voz do agente veio rápida, prática, sem rodeios. — Eu estava esperando. Preciso de novos capítulos, Sarah. Os investidores estão impacientes. Ela se recostou na cadeira, passando os dedos pelo cabelo preso de qualquer jeito. — Eu escrevi mais — disse, com cautela. — Mas não sei se é o que você espera. Do outro lado, um pequeno silêncio. — Manda. Simples assim. Sarah engoliu em seco. Olhou para o arquivo aberto. As últimas páginas ainda pulsavam na tela, como se estivessem vivas demais. Leu o trecho final de novo o boato, o silêncio de Ben, o afastamento definitivo. Doía. Mas fazia sentido. Ela anexou os capítulos sem reler tudo outra vez. Não corrigiu excessos. Não poliu frases. Apertou enviar. — Pronto — disse ao telefone, quase num sussurro. — Já estou abrindo — respondeu ele. — Fica aí. Sarah ficou. Andou pelo apartamento. Pegou água. Não bebeu. Sentou na ponta do sofá. Levantou de novo. O silêncio do outro lado da linha parecia mais longo do que realmente era. Então ele falou. — Sarah… O tom tinha mudado. Ela prendeu a respiração. — Isso é… diferente — ele continuou. — É cru. É desconfortável. É real. Ela fechou os olhos. — Não é bonito — ela disse. — Não é romântico. — Ainda bem — ele respondeu, sem hesitar. — Finalmente você saiu da zona segura. Sarah sentiu um nó se formar na garganta. — Você acha que funciona? — Eu acho que isso — ele disse, enfatizando a palavra — é o livro. Não aquele que você estava tentando escrever antes. Ela se sentou devagar. — As pessoas vão odiar o Ben. — Ótimo. — Ele riu, breve. — E vão se reconhecer na Aruna. Melhor ainda. Houve uma pausa curta, e então ele completou: — Continua. Não suaviza. Não pede desculpa. Não tenta ser elegante agora. Escreve. Sarah olhou de novo para o arquivo aberto, para aquelas páginas que tinham nascido da ferida mais antiga que ela carregava. — Eu continuo — disse, com firmeza. Quando desligou, ficou alguns segundos em silêncio. Depois voltou para a mesa. Os dedos ainda doíam. O coração também. Mas pela primeira vez em semanas, Sarah não estava bloqueada. Ela abriu um novo capítulo. E escreveu
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD