Noah levantou de um salto.
O peito apertado, a cabeça cheia demais. Caminhou até o banheiro como se a água pudesse apagar tudo aquilo as palavras, as cenas, o gosto de menta que agora parecia imaginário e insistente.
Antes de entrar no chuveiro, passou pela cozinha.
Olhou para o livro ainda aberto sobre a mesa.
Com um gesto brusco, irritado consigo mesmo, pegou o exemplar e jogou no lixo.
— i****a… — murmurou, sem saber se falava com o livro ou com o reflexo que evitava encarar.
Ligou o chuveiro.
A água quente caiu forte, batendo nos ombros, escorrendo pelo rosto. Ele apoiou as mãos na parede fria do box, deixou a cabeça cair para frente.
Tentou pensar em outra coisa.
Na academia.
Em Fernanda.
No dia seguinte.
Mas a voz de Aruna não calava.
O vestido verde.
As sardas.
O beijo que não foi perdão.
Saiu do banho pior do que entrou.
A toalha m*l presa na cintura, o cabelo pingando no chão, Noah passou pela cozinha… e parou.
O lixo.
Ficou olhando por alguns segundos.
Bufou.
Ajoelhou-se, abriu o saco e puxou o livro de volta, agora com cuidado, quase vergonha do gesto anterior. Secou a capa com a toalha, como se pedisse desculpa.
Sentou no sofá de novo.
Abriu exatamente onde tinha parado.
Leu.
No dia seguinte, eu cheguei à escola e não precisei perguntar. Os olhares faziam isso por mim.
— Você soube? — cochichavam.
— Ele beijou ela porque perdeu uma aposta.
— Deve ter sido o beijo mais rápido da vida dele.
Noah sentiu o estômago revirar.
Eu não vi quem espalhou. Só senti. Como se cada palavra fosse empurrada contra mim no corredor.
Ben não me procurou naquele dia. Nem no outro.
E foi aí que eu entendi: o silêncio também escolhe lados.
Ele fechou os olhos com força.
A memória voltou turva risadas, comentários soltos, alguém falando algo que ele não desmentiu. Porque era mais fácil rir junto do que parar tudo.
Ele não lembrava de ter criado o boato.
Mas lembrava de não ter impedido.
E aquilo era pior.
Eu aprendi a desaparecer rápido. A sentar no fundo. A estudar até ninguém mais perguntar nada. A fingir que não doía quando ele passava por mim sem olhar.
Noah respirou fundo, sentindo o peso das palavras se acumularem no peito.
Ele tinha seguido a vida.
Ela tinha aprendido a se esconder.
E agora, ali, lendo o que nunca quis ouvir, Noah entendeu algo simples e devastador:
Algumas histórias não acabam quando você vira a página.
Elas só esperam o momento em que você finalmente tenha coragem de ler até o fim.
Noah respirou fundo antes de continuar.
As páginas seguintes tinham um tom mais frio. Menos raiva. Mais cansaço.
Ele leu.
Depois disso, a distância deixou de ser escolha e virou paisagem. Eu já não esperava nada. Apenas contava os dias, as provas, as páginas lidas.
Ben ainda olhava às vezes. Como quem sente falta de algo, mas não sabe o quê.
Até o dia em que ele apareceu de mãos dadas com ela.
Noah sentiu um incômodo imediato, um nó conhecido demais.
Alta. Loira. Olhos claros. O tipo de menina que parecia pertencer a todos os lugares que eu nunca pertenci.
Ela ria alto. Ele ria com ela. E, pela primeira vez, eu entendi que não havia espaço para mim naquela história nunca houve.
Ele engoliu em seco.
A lembrança veio vaga. Um rosto borrado. Um namoro curto, superficial, sem peso. Ele se esforçou.
Não lembrava o nome.
Aquilo o atingiu mais forte do que qualquer acusação.
Foi difícil. Não porque ele estivesse com outra mas porque ele parecia feliz em um mundo onde eu nunca existi.
Eu precisei aprender a fingir que não sentia. E, com o tempo, fingi tão bem que até eu acreditei.
Noah fechou o livro por um instante.
Passou a mão pelos cabelos ainda úmidos, o olhar perdido no nada.
Ele lembrava de ter namorado.
Não lembrava de quem.
Para ele, tinha sido fase.
Para ela, tinha sido confirmação.
Algumas pessoas entram na nossa vida como distração. Outras ficam como marca. O problema é quando somos distração para quem nos marcou.
A frase ficou ecoando.
Noah soltou uma risada sem humor, baixa, quase amarga.
Ele tinha sido importante demais para alguém…
sem nunca ter percebido.
E agora, sentado ali, com o passado escrito diante de si, uma verdade incômoda se impunha:
Ele seguiu sem carregar nome algum.
Ela carregou o dele mesmo quando tentou apagá-lo.
Noah fechou o livro com cuidado desta vez.
Colocou-o sobre a mesa, alinhado, como se fosse algo que merecesse respeito. Apagou a luz da sala e foi para o quarto, tentando convencer o corpo de que já era hora de dormir.
Deitou.
O teto escuro ficou ali, imóvel, enquanto a mente se recusava a acompanhar o descanso.
Sem querer ou querendo demais Sarah apareceu.
Não a mulher da capa.
A menina.
Ela sentada duas carteiras atrás, inclinada para frente quando ele falava qualquer bobagem. O sorriso tímido que surgia antes mesmo da piada terminar. Os olhos atentos demais, como se cada gesto dele fosse importante.
Ele nunca tinha visto aquilo como admiração.
Só agora entendia.
Lembrou dos elogios jogados no meio de conversas banais.
“Você fica bonito quando sorri assim.”
“As pessoas gostam de você fácil.”
Na época, ele ria. Achava graça. Nunca respondeu de verdade.
Vieram os olhares.
Ela o observando atravessar o pátio. Fingindo não olhar quando ele virava. O brilho involuntário nos olhos quando ele se aproximava, como se algo bom sempre fosse acontecer.
E, insistente, o cheiro.
— Você sempre cheira a menta — ela dizia, às vezes rindo, às vezes séria. — Eu gosto.
Noah respirou fundo no escuro.
Ele nunca tinha achado aquilo especial.
Agora, o quarto parecia impregnado por uma lembrança que não tinha cheiro de culpa, mas de perda tardia.
Virou de lado. Depois para o outro.
O sono não veio.
Só a constatação incômoda de que, enquanto ele cresceu achando que tinha sido apenas mais um garoto popular… alguém tinha construído um mundo inteiro ao redor dele.
E ele tinha passado por cima, distraído demais para perceber que estava sendo amado.
Noah fechou os olhos com força.
Mas, naquela noite, não conseguiu escapar da verdade simples e c***l:
Algumas pessoas só aprendem o peso de um olhar…
quando ele já não está mais ali para devolver.