Capítulo 1 – A Prometida
O sol começava a se pôr sobre os campos dourados da propriedade De Santis, tingindo os salões de mármore do palacete com um brilho âmbar. Aurora observava pela janela do quarto alto, os olhos perdidos no horizonte, onde os montes se confundiam com o céu. O vestido de seda cor de vinho envolvia seu corpo com elegância, mas nada podia acalmar o turbilhão que rugia em seu peito.
— Ele estará aqui amanhã — disse Isabela, com a voz baixa, mas firme, enquanto penteava os longos cabelos diante do espelho. — O Duque virá selar o compromisso.
Aurora não respondeu de imediato. Seus dedos apertavam o parapeito da janela, como se quisessem fugir por entre as grades invisíveis da vida que lhe fora imposta.
— E se eu dissesse que não posso? — murmurou, sem virar-se. — Que não consigo me entregar a um homem que não amo?
Isabela a fitou pelo espelho, com o semblante calmo, porém preocupado. — Isso não é mais uma questão de amor, Aurora. É uma questão de dever.
Mas o coração de Aurora já havia feito sua escolha semanas antes, quando os olhos de um simples artista chamado Matteo encontraram os seus em meio à feira da vila. Desde então, os encontros escondidos se tornaram respiros de liberdade, e o beijo roubado à sombra das oliveiras selou algo que jamais poderia ser desfeito.
Naquela noite, o destino revelou sua crueldade. O pai das irmãs, o conde De Santis, foi chamado às pressas ao jardim dos fundos. Um criado, em choque, havia testemunhado o beijo de Aurora com um homem que certamente não era o duque.
A notícia espalhou-se como fogo em campo seco dentro da casa, mas o conde não permitiu que saísse dali. A honra da família estava por um fio.
— O casamento será mantido — decretou o conde, após horas trancado no escritório com a condessa. — Mas não será Aurora a subir ao altar.
Foi então que os olhos de todos se voltaram para Isabela.
Ela não chorou, tampouco protestou. Apenas assentiu com um leve movimento de cabeça. Porque sabia que, às vezes, o amor que se tem pela família fala mais alto do que o amor que se deseja para si.