Capítulo 4 – O Primeiro Jogo
O casamento foi discreto, rápido, quase cerimonial. Os convidados sussurravam entre si, especulando sobre a súbita troca de noivas. Mas ninguém ousava questionar o Duque di Ravello. Ele mantinha o queixo erguido, o olhar gelado e os gestos contidos — uma máscara de orgulho intocável.
Já Isabela, de braços dados com ele, parecia feita de outra matéria. Não se encolhia diante dos olhares. Não tremia ao lado do marido. Caminhava com a dignidade silenciosa de quem sabia exatamente onde estava, mesmo que seu coração estivesse imerso no desconhecido.
Ao chegarem ao castelo di Ravello, os portões de ferro se abriram como se anunciassem o início de uma guerra fria. O castelo era imponente, com torres altas e salões de mármore escuro. Isabela nunca havia pisado ali, mas não demonstrou surpresa. Apenas deslizou os olhos pelos vitrais, pelas tapeçarias, como quem estuda um tabuleiro antes da primeira jogada.
Lorenzo a observava como um lobo fareja o novo — com atenção, desconfiança e um incômodo crescente de admiração. Esperava lágrimas, submissão, nervosismo. Mas encontrou silêncio. Um silêncio que o desafiava.
— Suponho que lhe explicaram que este casamento é um acordo — disse ele, após o jantar servido na grande mesa de carvalho. A voz era firme, mas havia uma sombra de provocação. — Nada mais. Espera-se de você discrição, compostura e obediência. Em troca, terá tudo o que desejar. Roupas, joias, status... segurança.
Isabela pousou a taça de vinho lentamente. Seus olhos encontraram os dele sem hesitação.
— E espera algo mais além da minha presença formal? Ou está apenas me informando sobre o que acredita ser um favor?
Lorenzo se recostou na cadeira, surpreso. Aquela resposta não viera com arrogância, mas com precisão. Ela não o temia. E isso o confundia... e o instigava.
— O que espero... ainda não decidi — respondeu, com um meio sorriso torto. — Mas aviso: não sou homem fácil de lidar.
— Nem eu, Excelência — disse ela, com uma leve inclinação de cabeça.
Aquela noite passou sem que se tocassem. Ela dormiu em seus aposentos, e ele em outro ala do castelo, ainda tentando decifrar o que havia naquela mulher de voz mansa e olhar firme. Cada gesto dela parecia calculado, mas não com falsidade — e sim com inteligência. Ela não implorava por atenção. E isso o perturbava mais do que qualquer tentativa de sedução.
No dia seguinte, ao vê-la caminhar pelo jardim do castelo, conversando com uma das servas, Lorenzo a observou de longe. O sol batia nos cabelos castanhos dela como ouro em fogo baixo, e ele sentiu uma fisgada estranha no peito.
"Isabela De Santis", murmurou para si, como se saboreasse o nome. "Você não era o plano. Mas talvez... seja o desafio."
E desafios, o duque nunca soube recusar.