Ela puxou a mão de volta devagar, mas sem violência. O toque dele a queimava de uma forma que não sabia explicar — como se seu próprio coração estivesse dividido entre a vontade de consolar e o desejo de se proteger.
— Você não é um erro — ela disse, com a voz firme, embora seu peito ardesse. — Mas vive como se quisesse ser punido o tempo todo. Por quê, Lorenzo?
Ele desviou o olhar, como se a resposta estivesse escondida entre as sombras do quarto.
— Porque o amor, Isabela… o amor me fez perder tudo, uma vez. E eu jurei que nunca mais seria refém de sentimento algum.
— Então por que se deixou levar comigo?
A pergunta ficou suspensa no ar, carregada de uma dor contida, de uma exigência por verdade.
Ele a encarou, e ali estava o dilema: por mais que quisesse protegê-la de si mesmo, não conseguia mais mentir. Ela já o tinha, em parte. Em cada pensamento, em cada gesto inconsciente. E isso o assustava mais do que qualquer guerra.
— Porque você me desarma — ele sussurrou. — Quando está por perto, tudo o que eu construí para me manter no controle… desmorona.
Isabela se aproximou um pouco mais, os olhos marejando, mas não frágeis. Havia uma firmeza ali — uma mulher que, mesmo ferida, se recusava a recuar.
— E eu estou aqui. Mesmo com medo. Mesmo sem saber onde isso vai nos levar. Mas se você continuar me afastando por causa do seu passado… então terá perdido antes mesmo de tentar.
O silêncio entre eles foi denso, cheio de possibilidades.
Lorenzo passou os dedos pelos cabelos, respirando fundo. Parte dele queria dizer que ela estava certa. A outra… queria correr.
Mas antes que pudesse responder, um som seco ecoou na porta. Três batidas rápidas, insistentes.
— Altezza… o conde di Martellini chegou. Ele exige uma audiência imediata — anunciou o criado do lado de fora.
Isabela e Lorenzo se entreolharam. O mundo lá fora, impiedoso como sempre, batia à porta. E eles ainda nem sabiam se estavam do mesmo lado.
O duque se levantou, o semblante endurecendo como se vestisse uma armadura invisível. Em segundos, a ternura que Isabela vislumbrara se escondeu sob a máscara fria e calculista do homem que comandava Florença com punho de ferro.
— Vista-se — disse, sem olhá-la. — O conde di Martellini não é homem que espera. Nem que esquece o que vê.
Ela assentiu em silêncio, ainda sentindo o gosto amargo das palavras não ditas.
Minutos depois, Lorenzo desceu os degraus de mármore até o salão principal, onde o conde já o aguardava. Martellini era alto, elegante, vestindo n***o dos pés à cabeça, com um lenço carmesim que lembrava mais sangue do que moda. Seus olhos, estreitos e astutos, carregavam o tipo de sorriso que nunca alcançava os lábios.
— Lorenzo — saudou com um leve inclinar de cabeça, fingindo cortesia. — Perdoe a hora, mas achei que gostaria de saber… que há rumores circulando pela cidade.
O duque não respondeu. Apenas ergueu uma sobrancelha, indicando que prosseguisse.
— Dizem que sua noiva desapareceu. E que há outra mulher no castelo. Uma certa Isabela.
O nome dela dito por aqueles lábios fez algo em Alessandro estremecer.
— Eu não dou ouvidos a boatos — respondeu seco.
Martellini sorriu, agora mostrando os dentes.
— Mas os boatos, caro duque, às vezes são mais perigosos do que verdades. Especialmente quando chegam aos ouvidos errados. Você conhece a corte… ela não perdoa escândalos.
O silêncio se alongou. Martellini se aproximou, com a voz mais baixa, quase íntima.
— A honra de sua casa já foi manchada uma vez. Acha mesmo que pode sobreviver a outro escândalo… por causa de uma mulher?
Foi nesse momento que Isabela entrou no salão.
Ela estava sóbria, vestida com simplicidade, mas com o queixo erguido e o olhar firme — uma dama que recusava ser tratada como segredo.
O conde a fitou, curioso, como quem encontra um novo ponto fraco para explorar.
— Então é ela — murmurou, mais para si. — Agora entendo por que arriscaria tudo.
Lorenzo deu um passo à frente, a voz baixa, mas cortante.
— Cuidado, Martellini. A próxima palavra que sair da sua boca pode ser a última que você diga neste castelo.
O conde recuou levemente, sorrindo com sarcasmo.
— Então é oficial? A duquesa foi esquecida?
O silêncio que se seguiu foi pesado. Mas antes que o duque pudesse responder, foi Isabela quem falou:
— Não estou aqui para tomar o lugar de ninguém. Mas também não aceitarei ser tratada como sombra.
Martellini arqueou as sobrancelhas, surpreso com a ousadia.
— Corajosa. Uma qualidade rara… e perigosa.
Ele então se virou para o duque, deixando no ar a ameaça que suas palavras não precisaram concluir.
— Tenha cuidado, Lorenzo. Porque quando se ama alguém… se dá a esse alguém o poder de destruí-lo.
E com isso, ele se retirou, deixando o salão mergulhado em silêncio e tensão.