Segredos do Testamento

1247 Words
A casa estava escura quando Helena chegou naquela noite. O salto ecoava pelo mármore frio como se cada passo fosse um lembrete de que algo nela havia mudado — embora ela ainda não admitisse em voz alta. Jogou a bolsa sobre o sofá de couro e desabotoou o blazer com um gesto mecânico. A cidade lá fora continuava ruidosa, viva. Por dentro, ela sentia tudo em suspenso. Ligou a luz da sala. O silêncio era incômodo. Abriu uma garrafa de vinho — tinto, chileno, do tipo que costumava tomar com homens que queria impressionar. Bebeu direto da garrafa. Ela estava cansada de máscaras. Estevão. O nome ecoava nos pensamentos dela com a irritação de algo que não queria aceitar. Tinha sido só um embate, uma rejeição. Ela já passara por humilhações maiores no mundo dos negócios. Já fora subestimada, ignorada, traída. Mas nunca… nunca desconsiderada como mulher. E talvez fosse isso que a feria tanto. Ela levou a taça até os lábios, mas parou no meio do gesto. Havia algo pior que a rejeição. A dúvida. O que seu pai havia feito? Por que, entre tantos nomes, escolheu aquele homem para ser o detentor de seu legado? No dia seguinte, Helena ligou cedo para o advogado da família, doutor Leôncio. Um homem grisalho, de fala pausada, e extremamente leal a seu pai — mais do que a ela. Não se via há muito tempo, desde a leitura do testamento. E na época, ela estava ocupada demais em processar o absurdo de ter que dividir o controle da empresa com um estranho para prestar atenção nos detalhes. — Preciso falar com o senhor. Pessoalmente. Hoje. — Está tudo bem, Helena? — ele perguntou com a voz grave do outro lado da linha. — Só preciso entender algumas cláusulas do testamento do meu pai. — Às dez horas em meu escritório. Estarei esperando. O prédio de Leôncio ficava num bairro nobre, silencioso, como tudo o que girava em torno da família Duarte. Ela chegou sozinha, sem motorista, sem secretária. E isso já dizia muito sobre o que sentia. Leôncio a recebeu com respeito, mas sem calor. — Posso imaginar o que a trouxe aqui. — Imaginar não basta. Quero explicações. — Ela se sentou sem esperar convite. — Como meu pai deixou parte da administração para um homem que não tem o sobrenome Duarte? Um sujeito… simples. Sem experiência executiva. Um amigo de infância, é isso? Leôncio cruzou as mãos sobre a mesa. — Não era apenas um amigo. Era um homem de confiança. Estevão conhecia seu pai mais do que ninguém nos últimos anos. — Isso é absurdo. Eu sou a filha. Herdeira legítima. Ele não tinha o direito de… confiar mais em um estranho do que em mim. — Seu pai sabia o que fazia, Helena. E você sabe disso. Ela fechou os olhos por um segundo, tentando conter o impulso de explodir. Depois retomou: — Quero ver o documento. Quero ler as entrelinhas. Leôncio abriu uma gaveta, puxou uma pasta preta e a colocou sobre a mesa. Helena a abriu com pressa. As palavras legais, os termos técnicos, tudo estava ali. Mas o que mais a incomodava era a cláusula final, em letra clara e objetiva: "Caso minha filha Helena Duarte não cumpra os princípios éticos estabelecidos neste testamento, a administração da empresa passará para Estevão Lacerda, meu único e fiel amigo capaz de manter os valores que construí." Helena leu de novo. E de novo. — Que princípios são esses? Leôncio respondeu com calma: — Respeito aos funcionários. Transparência nos contratos. Humanidade nas decisões. Seu pai acreditava que você se desviaria disso. — Ele me desafiou! — ela levantou-se. — Me colocou à prova mesmo depois de morto. Isso é c***l. — Ou foi a única forma de tentar te salvar de si mesma. A frase atingiu como um soco. Ela ficou em silêncio. Pela primeira vez em muito tempo, Helena sentiu algo parecido com vergonha. Não era medo de perder a empresa. Era a dor de saber que, talvez, o próprio pai não acreditasse mais nela. — Estevão sabia disso? — ela perguntou por fim. — Sabia. Desde o início. — E aceitou? — Relutantemente. Só aceitou depois que foi convencido de que era a única forma de proteger o que seu pai construiu. Helena se encostou na cadeira. Tudo girava. Aquilo não era só sobre herança. Era sobre legado. Sobre confiança. Sobre uma ausência que, mesmo após a morte, ainda a esmagava. — Quero ver tudo. Cópias, detalhes. Se houver alguma brecha, eu vou descobrir. Leôncio assentiu. — Eu esperava que você dissesse isso. Está tudo aqui. — e empurrou mais papéis na direção dela. Naquela tarde, Helena se trancou na biblioteca da empresa — um cômodo pouco usado, com poltronas antigas e cheiro de madeira — e começou a ler o testamento como se fosse um mapa para recuperar seu trono. Mas quanto mais lia, menos se sentia no controle. Seu pai escrevera páginas e mais páginas sobre valores, propósitos, humanidade. Havia inclusive uma carta manuscrita para Estevão, agradecendo por tudo, pedindo que cuidasse da empresa “caso a filha se perdesse no caminho do poder”. Helena precisou respirar fundo ao ler essa parte. "Se ela esquecer o que significa cuidar de pessoas, Estevão, peço que a ensine. Mesmo que ela te odeie por isso." Ela amassou a folha com raiva. Mas não conseguiu jogá-la fora. No fim do expediente, Estevão cruzou com ela no corredor. Ele estava sozinho, carregando alguns documentos. Helena o abordou com o rosto tenso, os olhos duros. — Você sabia. O tempo todo. Ele a encarou, sem se abalar. — Sim. Sabia. — E não me disse nada? — Não era minha função te proteger da verdade. Ela se aproximou, tão perto que o perfume dela o envolveu. Mas não havia charme ali, só raiva. — Meu pai te deu um papel que não era seu. E você aceitou como um cordeiro. — Não sou cordeiro. Estou aqui porque ele confiava em mim. E porque você quebrou o acordo. Ela quis gritar. Quis empurrá-lo contra a parede e obrigá-lo a dizer que estava ali só por ambição. Que era como todos os outros. Mas não podia. Porque os olhos dele não mentiam. Ele estava ali por dever. Não por desejo. — Você vai me devolver a empresa. — Quando você provar que é capaz de cuidar dela como seu pai sonhava. Não antes. Ela o empurrou com as palavras: — Você quer me ver rastejar? — Não. Quero te ver crescer. Coisa que você acha que já fez, mas não fez. Helena engoliu seco. Aquilo doía. Muito mais do que qualquer rejeição física. Naquela noite, ao chegar em casa, ela entrou direto no quarto de seu pai. Um cômodo que permanecia intocado desde o velório. Abriu gavetas, caixas, vasculhou lembranças como quem busca respostas no meio do pó. E encontrou um caderno antigo. Capa de couro. Páginas rabiscadas com letra trêmula. Seu pai escrevia sobre ela. Sobre os medos que tinha. Sobre a esperança de que um dia ela perceberia que ser forte não significava ser c***l. Que liderança não era dominação, mas serviço. "Ela tem um fogo bonito. Mas precisa aprender a aquecer, não queimar." Helena chorou. E não por raiva. Chorou pela criança que aprendeu a endurecer cedo demais. Pela adolescente que jurou nunca precisar de ninguém. Pela mulher que se transformou em máquina. E agora, não sabia mais como voltar a sentir.
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