"Se eles servem para algo, é para esquecer depois." – Helena Duarte.
A tarde estava abafada, como se o ar se recusasse a circular — pesado, denso, tão sufocante quanto a raiva que Helena carregava consigo desde a maldita reunião no auditório.
Ela passou os olhos sobre a cidade pela janela de vidro espelhado da sala onde agora era apenas “vice”, e não presidente. Uma palavra que pesava feito pedra na boca. Vice. Como se ela tivesse sido rebaixada a coadjuvante dentro da própria história.
A campainha do celular vibrou. Uma notificação de redes sociais. Helena abriu sem real interesse — apenas um movimento automático — e lá estava ele. Um dos seus antigos “casos”. Um executivo de fintech, vinte e nove anos, abdômen definido, olhos vazios. Havia postado uma foto com uma legenda pretensamente filosófica sobre “conexão real”. Ela revirou os olhos.
— Conexão, meu cu — murmurou.
Helena nunca precisou de conexão. Ela precisava de distração. De controle. De poder em sua forma mais íntima.
Aquele era o ciclo: encontros, corpos, comando. Ela escolhia. Ela usava. Ela dispensava. E nunca, nunca, ligava depois.
Ela aprendeu cedo que emoção era fraqueza. Ainda adolescente, vira sua mãe chorar pelos cantos da casa após ser traída mais uma vez pelo pai. A imagem da mulher destruída, desfigurada pela dependência emocional, ficou gravada em sua memória.
Prometeu ali, com doze anos de idade, que jamais seria aquela mulher. Jamais precisaria de ninguém. Nem mesmo de amor.
Os homens, portanto, tornaram-se peças descartáveis num tabuleiro que ela dominava. Cada um servia a um propósito: sexo, status, distração. E quando acabava, ela simplesmente fechava a porta e apagava o nome.
Uma vez, um deles — um jovem advogado da área fiscal — ousou perguntar por que ela nunca respondia suas mensagens depois de uma noite.
Ela respondeu sem piscar:
— Porque você já serviu ao seu propósito. Quer mais o quê? Café da manhã e um abraço?
Ele nunca mais apareceu.
Naquela mesma tarde, ela revisou mentalmente seus últimos “contatos”. Nada a interessava. Tudo tão fácil, tão previsível. Ela piscava, eles vinham. Ela decidia, eles obedeciam. Era bom enquanto era útil.
Mas agora, algo diferente incomodava. Um vazio que nenhum deles preenchia — porque não havia preenchimento, apenas distração temporária.
E pior: havia alguém que não reagia como os outros. Que não se dobrava. Que não a desejava.
Estevão.
O maldito homem simples.
Ele não a olhava como os outros. Não bajulava, não se impressionava, não cobiçava. Isso a enlouquecia. Porque, no fundo, ela sabia o efeito que causava. Sabia o que carregava no corpo, na postura, na presença.
Mas Estevão… era imune.
Ela decidiu testar. Chamar para uma “conversa de reconciliação”. Afinal, podia dizer que queria “apaziguar os conflitos”.
Ninguém suspeitaria. Mas por dentro, o plano era simples: sedução.
Vestiu um vestido vinho, justo, com decote suave, que não era vulgar, mas revelava poder. Cabelos soltos, perfume sutil, salto firme.
Marcou no fim do expediente, quando o prédio começava a esvaziar. Uma “conversa em particular”.
Estevão apareceu pontualmente, com a mesma simplicidade irritante: camisa azul clara e calça preta. O blazer dobrado no braço. O olhar direto.
— O que você quer, Helena?
Ela cruzou as pernas devagar, deixando um pequeno silêncio preencher a sala.
— Falar. Como adultos. Podemos?
— Depende do assunto.
Ela inclinou-se ligeiramente, o suficiente para que o decote fizesse seu papel. Ele não desviou o olhar.
— Olha, talvez a gente tenha começado tudo errado. Eu fui… dura. Você também. Mas talvez ainda possamos…
— Você quer algo.
— Quero que a gente encontre uma forma de conviver em paz. Só isso.
Ele ergueu uma sobrancelha. Depois se aproximou da mesa, sem se sentar.
— Você não quer paz, Helena. Você quer domínio. E usa charme como ferramenta.
Ela riu com ironia.
— Está com medo de cair na armadilha?
— Não. Porque eu não desejo você.
A frase foi uma facada. Nua. Crua. Real.
Helena se endireitou. A expressão mudou.
— Não brinque com isso.
— Não estou brincando.
— Então é gay? Ou simplesmente burro?
Ele respirou fundo, sem alterar o tom.
— Não desejo o que não me desperta admiração. E, com todo respeito… hoje, você não desperta.
Silêncio.
Ela se levantou devagar. A face empalideceu um pouco. Mas manteve o controle.
— Saia da minha sala.
Ele obedeceu. Sem alarde. Sem ressentimento. Apenas saiu.
Quando a porta se fechou, Helena caiu na cadeira como se o ar tivesse sumido da sala.
Nunca, nunca, tinha sido rejeitada.
Nem quando estava começando. Nem quando era só assistente. Nem quando ainda não tinha um sobrenome temido. O mundo sempre respondeu ao seu toque com submissão. Mas Estevão… era a exceção.
E a pior parte: aquilo mexia com ela. De verdade. Em algum lugar que ela não sabia nomear, aquilo doía.
No dia seguinte, ela acordou mais cedo que o habitual. Foi até a cozinha, fez café com as próprias mãos — algo que não fazia há anos — e sentou-se com o jornal impresso como fazia seu pai.
O silêncio era opressor.
A lembrança de Estevão a rejeitando a acompanhava como sombra.
Não pela vaidade ferida — embora ela sentisse, sim, orgulho arranhado —, mas porque, pela primeira vez, alguém a olhou sem desejo. E isso a fez sentir… invisível. Humana. Frágil.
Não era sobre homem e mulher. Era sobre alguém que via por dentro — e não gostava do que via.
Ela pegou o celular. Abriu a galeria de fotos. Passou por dezenas de selfies com executivos, festas, viagens, sorrisos forçados.
Homens bonitos, fortes, bem vestidos. Todos tão… vazios.
Nenhum deles disse não.
E por isso, nenhum deles importava.
Mais tarde, ao cruzar com Estevão nos corredores, ela o viu rindo com dois funcionários do setor de compras. Um deles contava uma história qualquer e ele ouvia com atenção genuína, como se cada palavra importasse.
Ela parou por alguns segundos, observando de longe.
O que havia nele?
Não era beleza clássica. Nem status. Nem aparência dominante.
Era presença. Verdade.
E, ironicamente, justamente por ele não querer nada dela… ela começou a querer algo dele.
Naquela noite, Helena abriu o armário e tirou de uma caixa trancada uma antiga agenda. Lá, páginas com anotações frias de contatos, encontros, prazos e nomes riscados. Cada homem uma anotação. Um lembrete. Um fim.
“Homens não são nada.”
Era uma frase que havia escrito há seis anos, no topo de uma das páginas.
Ela olhou para aquilo por longos minutos.
E pela primeira vez… não teve certeza se ainda acreditava.