Capítulo 3

1507 Words
A porta começa a se abrir. Por um segundo, penso seriamente em fingir um ataque alérgico a ambientes luxuosos. Ou a portas muito grandes. Ou a homens ricos. Qualquer coisa que justifique minha fuga imediata. Mas antes que eu possa executar qualquer plano de autopreservação, Charlie já está entrando, como se aquele fosse apenas mais um apartamento comum. — Anda, Amy — ela sussurra. — Ele não morde… muito. Dou um passo para dentro e sou imediatamente engolida pelo espaço. O apartamento é enorme. Não “grande”. Não “amplo”. Enorme. Dois andares, janelas do chão ao teto, luzes indiretas que deixam tudo com cara de editorial de revista. É o tipo de lugar onde até o silêncio parece caro. — Uau… — escapa de mim, num fio de voz. — Eu sei — Charlie responde, com um meio sorriso. — Ele tem bom gosto. E um ego compatível. As paredes são em tons de cinza e branco, decoradas com obras de arte por todos os lados. Nada parece aleatório. Nada parece excessivo. Tudo parece… escolhido. Caminhamos devagar, como se estivéssemos em um museu particular. Meus olhos param em um quadro específico. O rosto de uma mulher em prantos, pintado de forma tão real que chega a incomodar. Há algo cru ali, algo íntimo, como se eu estivesse olhando um momento que não deveria. — Que tela linda — murmuro, sem conseguir desviar o olhar. Charlie para ao meu lado. — É de uma artista desconhecida — diz, casual. — Você gostou mesmo? — Como não gostar? — respondo. — É intensa. Parece viva. Qual o nome dela? Ela me encara por um segundo, divertida. — Promete que não conta pra ninguém? — Prometo. — Fui eu. Viro para ela tão rápido que quase torço o pescoço. — O quê?! — Eu pintei — ela dá de ombros, mas os olhos verdes brilham. — Só p***o quando estou muito irritada ou muito triste. Ou os dois. — Charlie… isso é incrível — digo, sincera. — De verdade. Ela sorri, e por um instante parece até tímida. — Obrigada. Agora vem — ela puxa minha mão. — Vamos conhecer a nova “fonte de alegria” do meu pai. — Você quer dizer…? — A namorada — ela revira os olhos. — A da vez. Seguimos mais adiante pelo apartamento, que parece não ter fim. A sala de estar é um pouco menor que a de visitas, o que já diz muito. Me sento no sofá tentando manter uma elegância que definitivamente não possuo, cruzando as pernas com cuidado excessivo. — Talvez eu não devesse ter trazido tanto champanhe, Christina — ouço uma voz masculina dizer, vinda de algum lugar à frente. Charlie para imediatamente. — Chegamos — ela murmura. Uma mulher alta, magra, de olhos azuis e cabelos pretos presos em um coque impecável surge primeiro. O vestido é curto, decotado além do necessário, acompanhado de joias que provavelmente custam mais do que tudo o que eu possuo. Ela me analisa dos pés à cabeça em menos de dois segundos e, em seguida, envolve a cintura do homem ao seu lado como se estivesse marcando território. E então eu o vejo. O homem é mais jovem do que eu havia imaginado — definitivamente na casa dos quarenta — mas absurdamente bem cuidado. Os cabelos acobreados contrastam com os olhos azuis intensos. O terno sob medida cai perfeitamente sobre o corpo forte. Ele sorri ao ver Charlie, um sorriso que mistura orgulho e alívio. Ele então olha para mim, curioso. — E você deve ser a Amy. Sinto o rosto esquentar. — Sim, senhor Collins — respondo. — Edgar — ele corrige, estendendo a mão. — Fico feliz em finalmente conhecê-la. — O prazer é meu — digo, apertando sua mão e rezando para não parecer uma adolescente desajeitada. — Essa é a Christina — ele continua. — Minha namorada. — Sua nova namorada — Charlie corrige, e eu seguro o riso. Christina sorri, tenso. — Que bom conhecer você, Amy. — Igualmente — respondo, educada. — Bom — Charlie diz, segurando meu braço. — Eu estou morrendo de fome. — Eu também — Christina e eu falamos juntas. Charlie me olha de lado e sussurra: — Viu? Acontece sempre. Sigo com eles em direção à sala de jantar, sentindo aquele desconforto estranho se instalar no peito. Edgar me lança um olhar rápido, avaliador, antes de voltar a atenção para a filha. Talvez seja só nervosismo. Ou talvez eu esteja certa ao sentir que aquela noite ainda vai render mais do que eu esperava. A mesa de jantar parece grande demais para apenas quatro pessoas. Grande e formal, como se tivesse sido projetada para decisões importantes, contratos milionários ou anúncios de heranças inesperadas — não para uma estudante tentando lembrar qual talher usar primeiro. Sento-me devagar, observando discretamente o lugar à minha frente. Dois garfos, três facas, duas colheres e um objeto que tenho certeza absoluta de que não é para comer. Olho para Charlie, esperando algum tipo de pista visual. Ela se joga na cadeira como se estivesse na cozinha de casa e cruza as pernas sem a menor cerimônia. Ótimo. Zero ajuda. Christina se senta ao lado de Edgar, ajeitando o vestido com cuidado exagerado. Ela cruza as pernas de um jeito calculado, como se tudo ali fosse uma performance. Edgar ocupa a cabeceira da mesa, postura relaxada demais para alguém que claramente manda em tudo naquele apartamento. — Espero que estejam com fome — ele diz, animado. — Pedi algo simples. Simples, aparentemente, significa três pratos diferentes chegando quase ao mesmo tempo, trazidos por um funcionário que surge do nada e desaparece com a mesma rapidez. Tento não arregalar os olhos. — Isso é simples? — sussurro para Charlie. — Para ele, sim — ela responde, pegando o guardanapo. — Um dia desses “algo rápido” envolveu um chef francês gritando com todo mundo na cozinha. Respiro fundo e pego o guardanapo, colocando no colo como já vi em filmes. Estou indo bem. Até agora. — Então, Amy — Edgar começa, cortando o alimento com precisão cirúrgica. — Charlie me contou que vocês estudam juntas. — Sim — respondo. — Somos colegas de quarto também. — Coitada — Charlie comenta. — Ela já sobreviveu à minha bagunça. — Ela é organizada? — Christina pergunta, com um sorriso fino demais. — Bastante — digo, antes que Charlie responda qualquer coisa comprometedora. — Mas estou tentando melhorar. Charlie me olha surpresa e depois sorri. — Ela é educada demais pra esse apartamento. Christina ri, mas não parece se divertir de verdade. — E você, Amy — ela continua — pretende seguir carreira em quê? Abro a boca para responder, mas Edgar fala antes: — Direito, não é? — Sim — confirmo. — Ainda estou no início, mas… — Ótima escolha — ele interrompe de novo. — Exige disciplina, foco. Não é pra qualquer um. Charlie revira os olhos de forma tão teatral que quase engasgo com a água. — Pai, deixa ela terminar a frase — ela diz. — Claro, claro — ele sorri. — Continue. — Eu… ainda estou entendendo onde me encaixo — digo, sincera. — Mas gosto da ideia de poder ajudar pessoas. Fazer diferença. — Que bonito — Christina comenta, mexendo no prato. — Eu também pensava assim quando tinha a sua idade. — E agora pensa o quê? — Charlie pergunta, inocente demais. Dou um chute leve nela por baixo da mesa. — Acho que a vida ensina a ser mais… prática — Christina responde, lançando um olhar rápido para Edgar. — Prática é o nome que se dá quando a gente desiste dos sonhos? — Charlie rebate. — CHARLIE — Edgar adverte. — O quê? — ela dá de ombros. — Só estou perguntando. Tomo um gole grande de água para não rir. Ou tossir. Ou ser expulsa daquele apartamento. O jantar segue com pequenas tensões disfarçadas de conversa educada. Em determinado momento, tento cortar algo no prato e o pedaço simplesmente se recusa a colaborar. A faca escorrega. O alimento pula. O guardanapo quase cai. — Está tudo bem? — Edgar pergunta, segurando o riso. — Perfeitamente — respondo, corando. — Meu jantar só está… tentando fugir. Charlie engasga de tanto rir. — Amy, você devia ter avisado que era perigosa com talheres. — Pelo menos ela não derrubou vinho em ninguém — Christina comenta. — Ainda — murmuro, sem pensar. Silêncio. Charlie explode numa gargalhada. — Eu te amo — ela diz. — De verdade. Edgar ri baixo, balançando a cabeça. — Você é… espontânea, Amy. — Tento — respondo. — Nem sempre com sucesso. Quando o jantar começa a se encaminhar para o fim, percebo que, apesar de tudo, sobrevivi. Não derrubei nada caro, não ofendi ninguém diretamente e não fui expulsa. Considerando o ambiente, isso já é uma vitória. E, de algum jeito estranho, sinto que aquela noite — constrangedora, engraçada e tensa — é só o começo de algo muito maior.
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