capítulo 1
Capítulo 1
O Encontro na Neblina
O sininho da livraria tocou 10 minutos antes de fechar e meu estômago gelou.
Não era cliente. Cliente não faz o ar ficar pesado daquele jeito.
Dois homens entraram com a chuva. Altos. De sobretudo preto encharcado. Idênticos e completamente diferentes. O da esquerda tinha a mandíbula travada como se quisesse morder o mundo. O da direita me olhava como se já soubesse o gosto da minha pele.
Predadores. Foi a única palavra que veio na minha cabeça.
— A livraria já vai fechar — eu soltei, me escorando no balcão pra não mostrar que minha perna tava tremendo. — Compra amanhã.
Nenhum respondeu. O de mandíbula travada — Drake — parou no meio do corredor e puxou o ar com força. Como um animal farejando.
O outro, Drogo, deu um passo. Só um. E o cheiro dele me atropelou. Pinho, terra molhada, chuva e um almíscar tão masculino que meu pulmão falhou.
— Você sentiu? — Drake rosnou baixo. A voz vibrou no chão de madeira e foi direto pro meio das minhas pernas. Eu odiei isso.
— Senti — Drogo não tirava os olhos de mim. Febril. Com raiva. — Uma humana. Tem que ser piada. Uma humana frágil...
Ele contornou o balcão rápido demais pra ser humano. Eu bati as costas na estante.
— Não encosta em mim! — Eu gritei, juntando toda a minha marra. — Sai do meu espaço ou eu chamo a polícia!
Ele parou a um centímetro. Eu sentia o calor saindo da pele dele.
— Uma humana sem loba... sem escudo... — ele riu, sem humor nenhum, e se inclinou pro meu pescoço. Respirou fundo. — p***a, destino.
Meu cérebro gritava CORRE. Meu corpo fez o oposto. Uma onda de calor explodiu no meu ventre, minhas pernas amoleceram. Eu nunca vi aquele homem na vida, mas meu corpo parecia reconhecer ele.
Traidor. Meu próprio corpo era um traidor.
Drake agarrou meu queixo. Dedo calejado, mão enorme, possessivo.
— Não importa o que ela é — ele disse, olhando pro irmão, mas falando pra mim. — Ela é nossa.
Eu desviei com nojo.
— Eu não sou de NINGUÉM, entendeu? Seu psicopata! Some daqui!
Drake travou a mandíbula. Eu ouvi o dente dele ranger.
Ele colou a boca perto da minha, segurando minha cintura pra eu não fugir.
— Você não tem ideia do que fez, passarinho — ele sussurrou. — Você acabou de assinar sua sentença no nosso mundo. E a gente nunca mais vai te soltar.
A porta bateu com o vento. Eles sumiram na neblina tão rápido quanto apareceram.
E eu fiquei ali, tremendo, encostada nos livros, sem saber que aquela era a última noite que eu seria só humana.