• Maria •
Senti a claridade incomodar minhas pálpebras, mesmo elas estando fechadas. Virei o rosto para o outro lado e senti um cheiro de homem, sexo, menta e cigarro.
Abri meus olhos.
Havia um rosto branco amassado contra o travesseiro. Eric estava deitado de bruços, o lençol fino cobria parte de seu quadril, deixando a maior parte de seu corpo exposta. Ele roncava baixinho, vez ou outra.
Olhei no relógio em meu pulso e vi que ainda não eram nem mesmo seis da manhã. Com medo do que viria caso Eric acordasse, decidi sair dali o quanto antes.
Estiquei as pernas, sentindo meu corpo todo protestar. Minhas coxas estavam doloridas, minha i********e estava ardida, os braços doloridos. Olhei para o meu corpo e percebi que eu estava com as pernas enroladas na coberta, deixando meu corpo nu bem visível. Haviam marcas de cinco dedos em meu braço direito e eu, por incrível que pareça, acabei sorrindo com a lembrança que aquilo me trouxe.
Eu o senti dentro de mim. Inteiramente dentro de mim. Era como se pudéssemos nos tornar um só a qualquer momento.
Eram sensações únicas. Ele sabia exatamente onde e como me tocar. Parecia que conhecia todos os os segredos mais obscuros do meu corpo.
Sentei na cama, sentindo meu corpo ainda protestar e passei o olho pelo apartamento de Eric. Minhas roupas estavam no chão, emboladas. Respirei fundo e comecei a me vestir. Primeiro a calcinha, depois a saia, blusa e comecei a calça as botinas. Eu precisava dar o fora dali o quanto antes e torcia para que Eric tivesse deixado a porta destrancada quando, no meio da noite, foi até o corredor atender um chamado de Max.
Respirei fundo e vesti as peças de roupa que faltavam, me levantando da cama e dando uma última olhada em Eric. Ele parecia muito mais sociável dormindo, por mais irônico que isso seja.
Caminhando em passos muito leves, eu fui até a porta e vibrei internamente ao vê-la se abrir assim que tentei. Devagar, saí do apartamento de Eric e fui me esgueirando pelos corredores até o elevador.
Depois do elevador, torcendo para que agora houvesse uma troca de plantão na sala de controle — para que assim eu passasse despercebida nas câmeras —, eu praticamente corri até o dormitório, onde todos estavam largados em suas camas. Alguns roncos altos eram ouvidos. Aproveitei que estavam todos dormindo e fui para a ala dos chuveiros, onde tomei um banho rápido e foquei na lavagem da minha i********e que estava um tanto grudenta. Havia um fino fio de sangue misturado aos fluídos que ainda estavam em mim.
Assim que saí do banho, vesti uma calça preta, uma blusa de mangas compridas preta, sequei os cabelos da melhor forma que pude com a toalha e me joguei na minha cama. Antes de pegar no sono de novo, olhei para a cama do lado e fiquei encarando Drew, que dormia de lado, com um dos braços pendurados encostando a mão no chão. Seu rosto estava muito inchado, provavelmente pelo confronto com Eric, e ele tinha cortes e pontos roxos no rosto. Meu coração se apertou. Drew era meu amigo desde meu primeiro minuto como m****o da Audácia e eu me senti m*l por ter passado a noite com quem o causou tantos danos.
Faz parte do jogo, Maria.
Com a voz de Eric ecoando em minha mente, acabei pegando no sono de novo.
***
— Não te vi quando fui deitar. — Jessie comenta — Onde estava?
— Eu? — pergunto mastigando meu hamburguer
— É, você. — Ali afirma
— Na certa, estava treinando. Obcecada. — Sam revira os olhos
— É. Isso mesmo! — confirmo
— Treinando? — Drew me olha desconfiado
Drew estava na sala de treinamento ontem. Por muito pouco ele não pegou Eric e eu nos agarrando por lá.
Preciso mentir melhor.
— Eu treinei um pouco, mas logo parei. — dou de ombros — Me sentei perto do abismo e fiquei ouvindo a água. Eu estava nervosa.
— Ah, sim. — Ali murmura
Logo Ali, Jessie e Sam entram num assunto entre elas e eu respiro fundo, não me sentindo bem por mentir para eles.
Drew, que está sentado ao meu lado, engole um grande pedaço de carne e, após um gole de água, me olha.
— Eu fiquei tão chateado pela perda que nem mesmo te parabenizei. — murmura
— Tudo bem, Drew.
— Não, não tá tudo bem. — ele insiste e eu o olho — O problema não foi perder pra você, eu não ligo. O problema foi...
— O Eric. — o interrompo — Sei que essa masculinidade de vocês é complicada, mas não tem do que se envergonhar, Drew. Eric vive na Audácia há anos, é líder. Está mais acostumado com um combate pea valer. Nós estamos na Audácia há pouquíssimas semanas. Leve em consideração que ainda estamos nos adaptando.
— Eu sei. — ele murmura — De qualquer forma, não quero falar sobre isso. Quero apenas te parabenizar. Ouvi dizer que o plano vitorioso foi seu, de Jessie e Ezra. Parabéns, Maria. Estou muito feliz por você.
— Obrigada, Drew. — sorrio
Após o almoço, tínhamos o dia livre. Sam foi procurar por uns amigos que ela fez ontem. Segundo ela, eles são nascidos aqui, mas também estão iniciando. Ali, Jessie, Drew e eu resolvemos ir até o estúdio de tatuagem. Finalmente Ali tinha tomado coragem para fazer uma e disse que faria o símbolo da Abnegação cercado de chamas, representando de onde veio. Mas algo nos impediu de chegar até o estúdio de tatuagens.
Um burburinho nos chamou atenção no corredor que dava para o abismo. Todos cochichavam baixinho, querendo saber o que tinha acontecido. Meus amigos e eu também ficamos curiosos e, empurrando algumas pessoas, conseguimos chegar na beira da ponte, onde dois homens puxavam uma corda. Senti meu coração acelerar ao ver Eric parado ali.
Como se sentisse minha presença, ele ergueu os olhos e olhou diretamente na minha direção, me encontrando. Pensei que ele ficaria bravo e faria cara feia, por eu tê-lo deixado, mas invés disso ele apenas comprimiu os lábios e olhou para o chão, onde um papel e uma caneta estavam.
— Merda! — Drew levou as mãos para a cabeça
— Não! — Ali e Jessie disseram juntas
Eu olhei para os dois homens na corda e vi que tiraram um homem dali. O corpo estava molhado, as roupas estavam gastas, provavelmente pela força da água, mas ainda dava pra ver seu rosto. Com os olhos arregalados, como se estivesse assustado, o corpo de Edward foi estirado no chão. Eric passou a mão no cabelo e virou-se para os homens, lhe dando ordens. Pelo outro acesso ao local, uma equipe de homens de preto surgiu e Max a liderava.
Eu me desesperei e nem mesmo percebi quando comecei a andar na direção deles e Drew me segurou, me impedindo. Eu observei o colocarem numa maca e o carregarem para longe. Eric se abaixou, recolheu o papel e a caneta do chão, me olhou brevemente e se aproximou de nós.
— Sei que todos estão assustados pelo que aconteceu, mas preciso que vocês evacuem o local. — sua voz se projeta pelo lugar, como um verdadeiro líder — Todos para o Fosso em uma hora. Lá faremos nossa cerimônia em homenagem ao suicida.
Suicida.
Essa palavra faz meu corpo todo se arrepiar.
Me encolho nos braços de Drew e sinto meus olhos se encherem de lágrimas, mas eu luto para segurá-las. Não quero me desestabilizar agora. Não posso!
— Maria, gostaria de falar com você. — Eric diz e se afasta, caminhando pela ponte sobre o abismo e chegando ao outro lado
Me solto de Drew e o ouço murmurar que irá me esperar ali, junto com as meninas.
Atravesso a ponte e passo as mangas da camisa no rosto para secar as lágrimas que não consigo oprimir.
— Você não estava quando acordei. — ele murmura
— Quer mesmo falar disso agora? — franzo o cenho e o encaro — E esse papel? É um bilhete?
— Não sei se devo te entregar. — ele respira fundo — Não quero que leia isso e se sinta culpada.
— Está me protegendo, agora? Um pouco tarde, não acha? — respiro fundo e então me lembro da visita noturna de Max. Eric o atendeu no corredor. Será que foi pra falar sobre ele? Será que o viram pelas câmeras? — Max foi falar com você de madrugada.
— E...? — ele franze o cenho
— Era sobre Edward?
— Eram assuntos da liderança.
— Era sobre Edward, não era?
— Não, não era. — ele parece impaciente
— Prometa-me que não era, por favor.
— E, por que, eu deveria prometer algo a você?
Ele tem razão.
Não somos nada um para o outro. Nem mesmo amigos.
— O bilhete. — estico a mão
Ele parece ponderar, mas acaba pondo o papel na minha mão.
— Obrigada pela consideração, líder. — o encaro
— Não há de quê, inicianda. — me encara de volta — Meus pêsames.
Ele vira as costas e sai antes mesmo que eu saia do lugar. Sei que meus amigos estão atravessando a ponte ao meu encontro agora, mas só abro o papel e vejo a letra tremida de Edward.
“Amigos, descobri recentemente que não faço parte desta facção, embora tenha sido t**o o suficiente para escolhê-la. Agradeço pelos cuidados e por conhecê-los. Vocês fizeram desta experiência, a melhor da minha vida. Obrigado por isso!
Espero que, um dia, Drew e Maria sejam os líderes da Audácia e Jessie e Ali trabalhem duro nos treinos. Vocês serão os melhores soldados que eles terão. Não deixem que os assustem.
Me desculpe por não me despedir
Edward”
***
Agora é a hora de entrarem em nossas mentes. A hora que mais temi por todo esse tempo.
Após dois dias da morte de Edward, cá estou eu, sentada numa espécie de sala de espera, aguardando a minha vez de ter a mente revirada por Quatro e Tris. Os iniciandos nascidos aqui serão avaliados junto conosco desta vez.
— Você parece nervosa. — Drew murmura — Tô com você. Fica tranquila.
Ele pega na minha mão e aperta, me passando calor e conforto. Lhe dirijo meu melhor sorriso de agradecimento e apóio minha cabeça em seu ombro.
Se Quatro e Tris poderão ver o que se passa na minha cabeça, verão o que ocorreu comigo e com Eric?
Sinto minhas bochechas esquentarem só de pensar em outras pessoas sabendo sobre isso.
Ouço barulhos de passos pesados e vejo Eric entrar no local. Parece que o espaço fica menor. Mais apertado. Fica difícil de respirar.
Seu olhar pousa diretamente sobre Drew e eu e, apesar da feição impassível, consigo ver suas narinas dilatarem e ouço um leve rosnado. Me ponho ereta em questão de segundos e sinto Drew apertar ainda mais minha mão.
A porta da sala se abre e Quatro surge, um tanto apreensivo.
— Eric. — ele diz — Precisamos levá-la para Alice.
— Claro. — ele diz se aproximando de Quatro
Ainda parada, observo Eric praticamente carregar a menina nos braços. Munick, nascida aqui.
Arregalo os olhos ao ver seu estado quase catatônico. Ele a leva para a enfermaria e eu fico olhando assustada.
— Maria, sua vez.
A voz de Quatro surge em meus ouvidos e eu olho para ele quase em desespero. Drew murmura um "Coragem" e eu me levanto, logo entrando na sala, que é muito parecida com a sala onde fiz meu teste de aptidão.
— Não precisa ficar assustada. — Tris sorri gentil, segurando um tablet
— Por favor, senta na cadeira. — Quatro diz ao fechar a porta
Me sento e fico encarando os dois.
— Agora, você conhecerá os seus medos. — Quatro explica — A maioria das pessoas têm entre dez e quinze medos horripilantes. Preste atenção, Maria, você precisa se manter calma para conseguir passar por eles, ok? Pronta?
— Só vai logo, por favor. — sussurro
— Boa sorte. — Tris diz e Quatro injeta agulha em meu pescoço
— Fique calma.
Calma. É fácil para eles falar, não é?
Não são suas mentes que serão reviradas.
Mas um dia já foram, né?
Sinto minhas pálpebras pesarem e fecho os olhos.
Abro os olhos e não há mais ninguém comigo. Eu estou na estufa da Amizade e, de onde estou, vejo a silhueta de alguém que reconheço.
— Pai?
Minha voz sai num sussurro e ele não parece ter ouvido. Uma mulher loira surge de trás de mim e passa como se não tivesse me visto.
— Eu já disse que não vou participar disso. — ele diz
— Sim, você disse. Mas sabe demais.
Então eu a vejo puxar uma arma e mirar nas costas dele. Ela atira e eu corro para amparar seu corpo, antes que caia no chão.
— Não! Pai! Não!
Eu grito. Desesperada. Ele não responde.
Ao meu lado, está a arma usada. Jeanine se mantém parada, olhando para nós. Pego a arma e aponto para ela, que não se move. Disparo diversas vezes, até que a munição se acabe.
• Eric •
— Pai.
Maria está em minha frente e Quatro tenta acordá-la.
Mais uma que ficará sob os cuidados de Alice.
Segundo Tris relatou, ela ficou presa em seu primeiro medo e não consegue mais acordar. Não é incomum. Da primeira vez, os iniciandos ficam muito nervosos e isso afeta o teste.
— Sai. — rosno tirando Quatro do lado dela — Maria! — mexo nela — Maria!
Seguro seu rosto e dou leves batidas no mesmo, a chamando mais duas vezes. Assim que seus olhos se abriram, ela puxou o ar com força, como se não respirasse há anos.
Para minha total surpresa, ela me abraçou como se estivesse se afogando e eu fosse um bálsamo. Seus dedos seguravam firme minha camisa e seus olhos estavam muito arregalados. Pareciam querer saltar de seu rosto.
— Só tira ele de lá! — ela diz nervosa — Tira.
Tiro seus braços do meu corpo e me afasto, vendo Quatro ficar ao seu lado novamente. Ele senta ao lado dela na cadeira e mede sua pressão com o medidor da máquina do teste. Ela está respirando de forma desesperada enquanto Tris segura firme em sua mão, tentando trazê-la de volta pra realidade.
— Maria, fica calma. — Tris diz e Quatro segura seu rosto com as duas mãos, a mantendo parada para fazê-la focar nele
— Não é real. Você está bem, está segura. — ele diz para ela
— Vou levá-la para Alice.
Dito isso, empurro os dois, tirando-os de perto dela e a pego em um braço, colocando-a de pé. Ela tropeça, no começo, mas eu continuo levando-a até a enfermaria.
Que diabos aconteceu naquela simulação?