Agatha
Fiquei insegura no início, assim que desci da van, vi o governador que nos cumprimentou e depois Rosana, primeira dama do Rio de Janeiro que nos recebeu – tirou foto logo na entrada e estava preocupada com a demora de Rita, bem provável que esteja dando chilique. Rosana, para não dar na cara da filha saia de perto. Já passei um perrengue com aquela garota mimada antes do então prefeito de Nilópolis se eleger a governador. Numa das vezes que Cristiana, Joice e Paloma, as amigas inseparáveis do colégio aproveitava as mordomias da vida política da família de Cris – eles moravam em um condomínio fechado onde no quintal deles havia uma piscina, mas era um condomínio simples onde as casas tinham seus próprios muros. Nesse dia, Rita deu um show de malcriação e falta de senso total; aquela garota começou a gritar após sua mãe se recusar a comprar um biquíni muito provocativo para ela que na época, tinha treze anos. Nem Pri que sempre conseguia acalma-la fez ela parar de gritar com todos, chegou a quebrar um vidro da casa arremessando seu celular novo. Eu que cansada de tanta loucura e afronta – que no meu caso até meu pai pegaria uma cinta – peguei a criatura pelo braço, joguei ela na cama e passei a disparar mil palavras por segundo de lição de moral, falei que ela não valoriza a mãe dela, que o biquíni era de garota fácil e não para a idade dela e o então Yago, seu crush juvenil, estava na piscina dando em cima da melhor amiga dela. Enfim, a garota me abraçou, chorou e disse que a mãe dela sempre faz isso entre outras coisas, perdi meu churrasco e deixei meu ex esperando. Bem, águas passadas, não estava esperando pela aniversariante mesmo, estava querendo lacrar e soltei meu cabelo propositalmente do coque e deixei o vermelho se destacar sobre o vestido preto rendado e o salto que estava tudo em média pés – estou realmente me achando com todo aparato de vingança – vi meus amigos ali, algumas pessoas novas e outras velhas conhecidas.
— Paloma como está linda!
— Eu que o digo, está gata, arrasadora!
— Como vai a UERJ? Está se dando bem?
— Tô amiga, mas sinto a maior falta das nossas loucuras, agora é trabalho e faculdade. E você está trabalhando, estagiando?
— Ainda não, semana que vem farei o processo seletivo para uma vaga de uma empresa privada, vamos ver!
— É assim mesmo, nem trabalho na minha área, mas minha mãe ficou desempregada e fui indicada pela mãe da Cris. Depois fala com ela.
— É, meu pai não quer que eu peça enquanto eu posso correr atrás com calma.
— Aproveita então. Estuda, não posso nem pensar em ficar sem trabalhar agora.
— Imagino, fico feliz em te ver!
Cumprimentei outros amigos e conhecidos, havia bastante gente naquele ambiente legal, suave e aconchegante, bem decorado, na parte interna nem parecia uma festa na praia, era uma tenda gigantesca com mesas e cadeiras com arranjos de flores com tons lilás e rosa e iluminação que dava uma ar bem sofisticado; bom gosto e dinheiros faziam toda a diferença. Apesar de ter recebidos elogios, conversado com um bando de gente e flertado também, não via Leandro em nenhum lugar daquela festa, até ver Márcio, irmão de Rita dar um salve para ele na recepção soltando as mãos de Simone que também estava bem arrumada, mas não melhor do que eu – na verdade ela não estava melhor do que nenhuma das garotas da festa.
Segura teu coração e para de encará-lo. – Cris me abraçava por trás desviando meu olhar deles e eu agradeci.
— Pensei que tinha superado. Acho que estou muito tempo sozinha miga. Eu vou chorar! – Meu coração bateu mais forte e um filme das desventuras de um amor babaca veio sem aviso prévio.
— Não, para com isso! Olha que maquiagem linda nesse rosto, você está arrasando, dois amigos de Tadeu me pediram para colocá-la na fita deles.
Eu engoli raiva e limpei rapidamente as duas lágrimas inevitáveis que saíram de meus olhos e sorri para Cris que me confortou sabendo a causa de minha reação – sim, foi bem dramática como as coisas aconteceram entre eu e ele e tinha tudo para ser um conto de fadas da minha vida, foi um turbilhão de sentimentos represados vindo a tona descontroladamente – respirei fundo e seguimos para o banheiro sem chamar atenção dos outros, Paloma sentiu o que estava acontecendo, mas não criou comoção.
Me recompus no banheiro conversando com Cris que fazia a minha cabeça para deixar para lá e me pediu desculpas, não acreditava que reagiria assim ao vê— lo.
Quando voltei a sorrir, ela aliviada, retocou minha maquiagem e ensaiamos uma saída virando a página em definitivo. Paloma e Yasmin, veio em minha direção como apoio.
— Vamos beber amigas que agora a gente pode!
— Verdade! – Peguei uma taça de sidra e mandei para dentro sem sentir o gosto da derrota.
Meu coração desviou da temática depois do terceiro copo e fomos para a pista do lado de fora, onde o DJ parecia ter adivinhado meu gosto por músicas que variavam de eletrônica e remixes de músicas sertanejas. Finalmente Rita apareceu com suas amigas na pista para tirar fotos, veio em minha direção para tirar fotos comigo e percebi que não fui a única a derramar lágrimas – Rita deve ter levado um puxão de orelha daqueles de seu pai, o único que realmente ouvia. Faltava pouco para a cerimônia dos quinze anos dela começar. Fiquei melhor do que imaginava ficar quando Douglas, um dos amigos de Tadeu, passou a trocar uma idéia comigo e eu, já me sentindo à vontade na festa, o seduzindo de leve, porém não queria nada com ninguém, apenas plantar uma semente para o futuro, quem sabe.
Despreocupada e já no balcão de uma coquetelaria, sentei em um dos bancos com Douglas que me tratava super bem, chegamos a cruzar as mãos numa brincadeira entre flerte e revelações sobre vários assuntos, nada de mais para a ocasião. Quando dei por mim, Douglas se levantou e encarou Leandro que estava atrás de mim tocando meus longos fios querendo puxar assunto.
— Perdeu alguma coisa aqui? – perguntei, jogando meu cabelo para o lado e enrolando com as mãos.
Pedi um tempo para Douglas sem deixá-lo levantar e encarei Leandro, sem me sentir realizada com isso, mesmo que essa cena tenha passado em meus pensamentos umas cem vezes.
— Você está muito linda essa noite!
— Valeu!
Voltei para Douglas e ele se enfiou no meio entre eu e ele.
— Cara, não precisa ficar esse clima entre a gente…
— Não contínua tá, acho que cada um tem que seguir com sua vida, e você está atrapalhando a minha. Pode me dar licença, está atrapalhando!
— Leo, já deu! Vai continuar com isso? – Douglas intrometeu com o abuso de Leandro e nem sabia o que ocorrera entre eu e ele.
— Tá bom cara, foi m*l!
Vi Leo se afastando e voltei para Douglas, querendo tirá-lo daquele bar e quem sabe dar uma chance a ele.
— Douglas, desculpa, vamos sair daqui, a gente… — Antes que terminasse de falar com ele, veio Simone que foi prontamente segurada por Leandro.
— Eu sei qual é a tua com essa cara de v***a!
— Tá maluca garota! – Falei, mas percebendo os olhares e já pensando de uma maneira de não acabar brigando com aquela irritante.
Virei o centro das atenções da festa por alguns minutos, a música tinha baixado para anunciar a cerimônia de homenagem a Rita e todos que estavam de fora perceberam o ocorrido. Tive meu momento de vingança e também o momento onde o feitiço virou contra o feiticeiro. Só não foi pior por causa de Márcio que chegou para dar uma amenizada na situação. Cris, Pri, Paloma, Carla e Yasmin entre outras pessoas vieram em meu apoio e fui escoltada até a mesa de Bárbara que me afagou e achou graça do que já estava acostumada com nossas presepadas de garota e fiquei ali comendo um pouco os salgadinhos e salpicão enquanto aparecia fotos da aniversariante e suas debutantes que se preparava para a valsa com seu pai.