16 - Desavenças

1876 Words
Isto é a liberdade: sentir o que o seu coração deseja, independente da opinião dos outros. — Paulo Coelho Lord Byron, a imagem perfeita da soberba e prepotência. Sim, todos murmuravam o quanto ela era sortuda em tê-lo como um noivo, era um homem rico e poderoso, um partido melhor que Byron somente o próprio rei. Sempre odiou essa concepção das pessoas, e quanto ela? Nunca a perguntavam se ela estava feliz ou satisfeita com toda essa situação, apenas afirmavam o quão afortunada ela fora por fisgar a mão do rei. Todos apreciavam o quanto ele era esplêndido, com seus cabelos dourados como ouro, olhos tão azuis quanto o próprio céu, o príncipe encantado de qualquer donzela ingênua o suficiente para apaixonar-se por um demônio. As pessoas se apaixonaram pela imagem de Byron, muitas de fatos não o conheciam, não bem o suficiente para saber quem ele realmente era. Um lobo em pele de cordeiro, sabia disso, talvez fora por esse motivo que nunca se sentiu atraída pelo Lord, não conseguira encontrar beleza no homem, pois o que implicara era justamente quem ele era por dentro, a beleza lhe era algo relativo, e pessoas bonitas facilmentes tornam-se horríveis quando se conhece seu interior. — Hipólita, amor. — Disse Byron, ele estava sozinho, sentado à sua frente na carruagem, ignorou a familiaridade na voz do homem — Durante todo esse tempo que ficara longe, a angústia tomou conta de meu coração e o medo de perdê-la me consumiu. O lord tomou-lhe a mão e beijou-a. Nem entendia o porque de ele fazer todo esse teatro em sua presença. — Por qual motivo fui trazida dessa maneira? Não pedi que me procurassem! — Ralhou Hipólita rudemente. — Deixe lembra-la, meu doce. — Respondeu ele com um tom afável — És minha prometida, em breve nos tornaremos marido e mulher, é de minha obrigação salvar minha afortunada noiva. — Byron, não precisas fingir ser quem não és para mim, guarde esse teatro para teus seguidores que certamente não o conhece. — Resmungou entediada — Não precisava ser salva, pois nunca estive em perigo. Puxou sua mão e limpou-a com o tecido do traje que usava. De alguma maneira sua resposta afiada não deixara o lord irritado, pelo contrário, Byron lançou-lhe um sorriso cínico. — Cuidado, podes não gostar da minha essência, as vezes sou muito… assíduo. — Não se preocupe, sua essência fora algo que nunca apreciei, milord. — Rebateu ela, o homem arqueou uma de suas sobrancelhas, analisando-a — Tampouco sua total falta de empatia com a população menos favorecida, sobretudo as mulheres. — Ciúmes, minha bela noiva? — A pergunta viera carregada de zombaria. Hipólita rira, pelos céus, por que diabos ele achava que ela sentia ciúmes dele? Nunca demonstrou algum sentimento pelo lord. — Por que, em nome de Deus, teria eu ciúmes de um ser inescrupuloso que violenta mulheres covardemente? O sorriso que carrega nos lábios cessou abruptamente, ele cerrou os dentes fitando-a furioso. Em questão de segundos ele estava com as duas mãos em seu pescoço e o rosto a centímetros do seu, mas Hipólita não se acovardou e sustentou o olhar. Respirou fundo uma, duas vezes, tentando abrandar o desejo de cortar sua garganta até que todo seu sangue se esvai-se de seu corpo. Não era de sua vontade ter a cabeça decepada por causa de Byron, precisava ser fria e ganhar tempo até que Louis fosse salva-la. Sabia que ele não agiria por impulso, seus homens estavam na Escócia, portanto guerrear com os homens de Byron e de seu tio agora seria imprudente, e Louis era esperto o suficiente para não cometer erros. — Se a intenção era amedrontar-me, tente outra vez pois tu não conseguiste. — Deves ter bastante cuidado com o que sai dessa linda boquinha. — Ameaçou Byron — Não iria gostar de ter uma esposa muda. A carruagem fazia estrondos e balançava quando as rodas passavam sobre os pedregulhos no caminho, o lord tinha pressa em chegar a Londres por isso não poupou seus cocheiros de uma bronca, ele queria chegar à Londres antes do fim da tarde. — Ah, querido, tens medo de que o povo saiba quem verdadeiramente é Lord Byron, a mão do rei? — Quem realmente sou? Por Deus, achas mesmo que acreditariam nos delírios de uma mulher insana? Todos me amam, me idolatram. — Exprimiu com prepotência. Ele não mentira, mesmo com tantas coisas imundas e cruéis feitas por quem deveria zelar do povo, grande maioria da população exaltava Anthonny e todo seu grande conselho. — Sua queda está próxima, Byron, quando acontecer quero está bebendo um gole de rum e comendo petisco festejando a tua desgraça. — Ressaltou Hipólita olhando bem no fundo de seus olhos. Por conseguinte ele tirou as mãos de seu pescoço e segurou seu rosto erguedo-o em sua direção, estavam tão próximos que Hipólita sentia a respiração quente e abafada de Byron em sua face. — Gosto disso em ti, Hipólita. — Ele esclareceu — Das respostas afiadas, das recusas… Gosto de mulheres selvagens. — Sussurrou em seu ouvido, em seguida cheirou seu pescoço. — Não, não gosta, o que te agrada és o que não podes ter. — Concluiu Hipólita, apoiou as mãos no peitoral de Byron o afastando, quanto mais longe estava dela, melhor. Mas sua recusa teve o efeito contrário, sim, ele tomou aquilo como um desafio, mesmo contra sua vontade Byron a beijou. Amava fazer aquilo, quanto mais ela o negasse, mais ele a queria, era isso que o atraia, afinal, que graça teria se fosse por livre e espontânea vontade, se o que excitava era justamente a brincadeira de gato e rato. Hipólita que o aguardasse, não via a hora de enfim estarem casados, iria acabar com ela em sua noite de núpcias. Forçou os lábios contra os dela que estavam endurecidos, Hipólita devia está odiando, isso o divertiu. Mas quando ela abriu a boca e agarrou seu lábio inferior ele ginchou, ela parecia um lobo selvagem, a mandíbula se fechou contra a carne e ele temeu que ela lhe arrancasse um pedaço. Puxou o cabelo dela, agora aquela diaba quem ria. No momento em que a carruagem fez uma curva trôpega em alta velocidade os dois acabaram no chão e, Hipólita soltara seu lábio deixando-o com um corte profundo e ensanguentado. Assim como ela, Byron se levantou voltando a sentar no seu lugar, de frente para ela. Ele lambeu os lábios e soltou um gemido. — Deliciosa! — Exclamou ele com a feição dolorosa. Hipólita juntou saliva e cuspira em seu rosto, tinhosa como sempre fora. Se passassem mais uma hora juntos, tinha certeza que acabariam se matando. Lord Byron passou todo o caminho tentando provoca-la, fez questão de ignorar suas afrontas, ele queria que ela revida-se por isso quando parou de lhe dar ouvidos ele calou-se e pôde ter um pouco de paz durante a viagem. A grande Londres surgia á sua vista enquanto Hipólita a admirava pensativa, aquela esplêndida cidade já não fazia parte dela, as lembranças de sua infância feliz ficaria para sempre guardadas em sua mente e coração, mas a cada vez que se aproximava daquele lugar, sentia que aquilo tudo já não a pertencia. O lugar que há centenas de anos antes de nascer fora coberto por florestas, hoje erguia-se grandes edifícios, mesmo de longe, via-se a grande Fortaleza Real, erguida sobre uma grande colina, feita de pedras, com dezenas de Torres e em cada uma delas havia estandartes da casa real. A cidade se arrastava por todos os lados e era dividida em duas, na parte nobre havia vários palácios, grandes estábulos comerciais, celeiros, bordéis luxuosos que exalavam glamour, cemitérios decorados com vários gárgulas, estalagens e igrejas com quase um século. Quando a carruagem atravessou a rua, observou a grande movimentação de pessoas nos estabelecimentos e os soldados do rei espalhados por todo lugar, tudo ali era diferente demais da outra Londres, uma que sempre ficara encoberta pelo rei, uma onde não haviam casas com fechaduras de bronze ou sacadas deslumbrantes, havia apenas casebres e ruelas proliferadas por ratos e baratas, cortiços imundo, crianças magrelas correndo descalças, prostíbulos que mesmo em ruínas ainda funcionavam em pleno vapor. Tudo ali era deplorável demais. Lembrava-se bem que durante sua infância escutava histórias de que havia uma b***a que assassinava meninas cruelmente, sempre eram crianças com menos de doze verões, elas eram encontradas mortas, sem roupas e mutiladas, com o olho esquerdo retirado, assim como todos os dentes. As vítimas eram sempre meninas da parte pobre de Londres, muitos diziam que fora castigo, e que o demônio havia ido buscá-las por serem crianças vulgares e impuras, no entanto, Hipólita sabia que não havia demônio algum, ao menos não um com sete cabeças e chifres, era um homem, de carne e osso, que matavam e violavam cruelmente crianças de forma calculada, não havia ninguém que se importasse com as pessoas do outro lado da cidade, os crimes nunca foram investigados, e seu palpite era de que o delinquente era algum nobre, pois tudo fora muito bem encoberto e nunca mais se ouvira falar dessa abominável história. Fora interrompida de seus devaneios por Byron, assustou-se ao perceber que a carruagem estava em frente aos grandes portões da propriedade Hallwick. A distância não fora tão grande até que parassem em frente a Fortaleza Vermelha,o castelo que fora erguido pelos seus ancestrais. Seu tio e seus guardas estavam a sua espera na entrada de sua casa. O homem em nada lembrava seu pai, muitas vezes chegou a se questionar se eles realmente haviam tido os mesmos pais, pois seu tio era um homem amargurado e malvado, totalmente diferente de Braeden Hallwick. — Saudades? — Byron perguntou observando-a. — Nenhum pouco! Seu tio deu dois passos em sua direção, seu rosto rubro demonstrava o quanto ele estava com enfurecido, ele sempre estava. — Eu deveria acorrenta-la! — Boquejou ele entre dentes — Chega! Essas suas impertinências acabam aqui, não tolerarei mais seu desrespeito ou qualquer ato de afronta vindo de ti. Se casará com Lord Byron daqui a dois dias e não será mais responsabilidade minha, és um fardo que venho levando em minhas costas a muito tempo. — Não precisará mais tomar conta de mim, meu tio, sou suficientemente grande para isso. — Afirmou Hipólita obstinada — O liberarei de todos os deveres que acha que tem comigo, vá, arrume suas coisas e poderá voltar para o conforto de sua casa. Aquelas terras, aquela casa era de seus pais, se havia alguém que devesse ir embora, com toda certeza era seu tio. — Voltar para o conforto de minha casa? — Reiterou o Barão, as palavras saíram com um tom amargo de seus lábios — O que queres dizer com isso? — Quero lembrá-lo que esta casa pertence a mim, portanto, tu és o intruso aqui meu tio. Ele apenas lançou-lhe um olhar de desprezo antes de lhe dar as costas. — Soldados! — Ele chamou — Escoltem Lady Hallwick até o conforto de seu quarto, depois peçam a criada que a alimente. A fome deve ter corrompido sua sanidade.
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