18 - A ferro e fogo

1991 Words
Cada colisão, é um espinho, de uma árvore, que plantei. — Kronix Ganância. Talvez fosse o pior dos pecados da humanidade, de todo modo ainda era incompreensível para Hipólita como alguém poderia ser tão desprezível como seu tio. Entre todos aqueles velhacos acomodados, jovens com opiniões limitadas e lords que se assimilam a mesma repugnância do rei, estava ali, naquele baile, toda escória da Inglaterra. — Fredis Hallwick, Barão de Villanueva. — Anunciou o rei — Eu, Anthonny I, como o rei e maior autoridade deste país, o nomeio o novo mestre da moeda. A salva de palmas ecoou por todos os lados, o riso satisfeito de seu tio se escancarava por seu rosto. Byron como mão do rei saudava-o pelo seu mais novo título, agora ele já não era somente um barão, um servo leal ao rei, Fredis Hallwick era o mestre da moeda. — É com grande honra que recebo este tão respeitável título, vossa graça. — Disse com aquele ar bajulador que as pessoas sempre faziam quando queriam agradar as outras — Desejo fazer um trabalho tão esplêndido quanto meu amado irmão fazia, que Deus o tenha. Ela sempre o odiou, sim, ela desprezava Byron, mais seu tio, odiava com todas suas forças. Hipólita estava submersa em uma raiva rubra, presenciar seu tio receber o título que por direito deveria pertencer a ela dilacerou seu coração. Respirou fundo e com as pontas dos dedos limpou os cantos dos olhos evitando que as lágrimas caíssem, acabou falhando miseravelmente. Uma lágrima solitária desceu por sua bochecha e perdeu-se por sua boca. Hipólita soluçou o amaldiçoando mais uma vez. Seu pai era o mestre da moeda, dono do banco de Londres. Hipólita sonhara em tomar conta dos negócios da família, mas sabia que o Anthony não permitiria mulheres em assuntos do tipo, tampouco solteiras, apesar de sonhar com o impossível, ver de fato seu tio usurpando seu lugar, fora o que mais a deixou triste e aborrecida. — Oh, Lady Hallwick, estás entre um ninho de cobras. — Lady Irina comentou. — Pretendo ser a mais venenosa delas, Joana. — Retrucou Hipólita enquanto sorveu um pouco de vinho. Havia tão pouco tempo em que a conhecera, apenas alguns minutos, no entanto acabou criando um grande afeto pela assídua senhora. Joana Irina era uma mulher nada convencional, o rosto enrugado deixava claro o quanto ela tinha vivido, mas o que apreciava na senhora além de sua inteligência era justamente seu modo antipático, ela não fingia ser doce, tampouco elegante, Joana era hostil com quem merecia e tinha um humor n***o que muito Hipólita se agradou. — Sinto muito que tenha que suporta lord Byron. — Sinto mais ainda, ao menos não terei que suporta-lo por muito tempo. Joana a olhou de esgueira antes de lhe sorrir. — O que o demônio tem de bonito, tem de c***l! — Erguera uma das sobrancelhas surpresa com a constatação da senhora, poucas pessoas sabiam disso, ela no entanto parecia saber de todos os podres que cercava a grande Londres. — Como sabes disso? — Minha experiência. Ainda és muito inocente, lady Hallwick, mas chegará um dia em que reconhecerá o m*l somente ao vislumbra-lo. Foi obrigada a casar muito cedo, ainda era uma menina. O lord do qual fui prometida era um velho pançudo e ranzinza, mas para minha sorte na noite de núpcias conseguir me livrar do traste, o maldito morreu bem diante dos meus olhos. Hipólita pestanejou, estava atônita diante de tamanha sorte que a senhora tivera. Lady Irina começou a rir cruelmente. — Não criança, ele morreu do coração, estava bem velho o coitado. — Lamentou ela com sarcasmo. Ela tinha matado-o. Não julgava Joana, sua prima era a prova de que casar-se com alguém por obrigação era horrível, nenhuma mulher deveria passar por isso. — Ah, nossa! — Exclamou Hipólita surpresa — Isso é… genial! A velha sorrira em resposta. A senhora havia se sentado próximo de Hipólita e lhe fez companhia enquanto sentia que estava desabitada naquele enorme salão com pessoas das quais ela não conhecia. Mesmo sob vestes elegantes de veludo preto bordada com fios de ouro, ela parecia não se importar com todo aquele luxo que a cercava. — Sabe Hipólita, conheci seus pais, Lord Hallwick fora um dos homens mais amáveis e honrado dos quais conheci. — Sorriu ao escutar os elogios que a mulher fazia ao seu pai — Talvez não lembras,era jovem demais, porém, assim que teus pais morreram no acidente, naquela carruagem, surgiam burburinhos de que havia dedo do irmão nessa desgraça. Ouvira aquelas palavras que a princípio pareceram não ter sentido algum, mas que fizeram seu coração sopapear em seu peito. A tensão instalou-se por cada nervo de seu corpo, se encolheu na cadeira que estava sentada, olhava para o guisado que a minutos atrás parecia estar delicioso, agora causava-lhe enjoos. As palavras de Lady Irina ressoavam em sua mente, deixando-a estagnada. — Hoje, vendo-o aqui, tomando para si tudo o que pertencia ao irmão… — comentou a mulher — Achei que deveria saber. E nada passava despercebido aos olhos de Joana Irina. Em algum lugar na sua mente Hipólita sabia que deveria reagir aquela revelação, no entanto estava em estado de torpor, tentava de alguma forma alinhar seus pensamentos. E demorou alguns minutos até que fora atingida violentamente pela realidade, e ela era dolorosa demais. Aquele homem junto ao rei havia lhe roubado a vida, a felicidade, parte se sua existência, tudo por conta da maldita ganância. Ao menos sabia ele como fora para ela crescer sem os pais? A dor que ele lhe causou, as noites de insônias, doeu muito, mais doía com mais intensidade agora, pois sabia que suas vidas foram interrompidas intencionalmente. — Sabe criança? — Lady Irina quebrou o silêncio — Não permita que isso a atinja, faça das suas desgraças, sua força, isso a tornará invencível. — Era para eu estar lá, na carruagem, era para mim ter morrido junto á eles. — As lembranças tomaram conta de seus pensamentos. Se soubesse que seria a última que os veria, teria os abraçado mais forte, dito o quanto os amava. Sabia que não poderia voltar atrás, mas ainda havia como buscar por justiça. — Mas não morreu, estás aqui, viva. — A senhora segurou suas mãos dando um aperto leve, tentando confortá-la — Sei que és forte e corajosa — o olhar mulher voltou-se para seu tio —, podes chorar e lamentar o que perdeu ou podes impedir que homens ruins continuem fazendo maldade e se darem bem no final. Hipólita sorrira em resposta, decida seguir o conselho de Lady Irina. Os ingleses sempre proferia o quanto o Rei Anthonny fora justo, quando sua mão caia em cima das cabeças de pessoas más. Ao contrário disso, Hipólita sempre achara que sua justiça era leviana e preconceituosa, condizente somente com seus próprios preceitos. Ele não seguia a lei, como poderia ser digno de exercê-la? Não aceitava a justiça de um rei tirano, pois era corrupta, feria seus valores e sabia que por ela seu tio nunca pagaria pelo que fizera a seus pais. Duas batidas soaram na porta de seu aposento, antes que concedesse autorização ela fora aberta, mas o visitante fora convidado, de bom grado. Viu seu tio adentrar o cômodo, Hipólita estava de costas para ele, mas sabia que ele a fitava pois o avistava pelo o espelho do aparador, antes levantar pegou a túnica na intenção de cobrir seu corpo, pois usava apenas traje de dormir. — Soube que deseja me ver. Fechou a túnica e virou-se para o tio, analisando-o silenciosamente. — Diga o que pretende me segredar, não tenho o tempo todo menina! — Ele praticamente cuspiu as palavras de modo arrogante. — Acomode-se meu tio! — Apontou para uma cadeira logo atrás dele — É uma longa história, de dois irmãos, semelhante a Caim e Abel. Ira, inveja, traições e morte! Isso te recorda algo? Fredis Hallwick entortou os lábios em um claro sinal de tédio. Ele tinha o rei ao seu lado, por isso sua confiança era inabalável, estava ciente de que mesmo que Hipólita fizesse uma acusação formal na corte contra ele, Fredis se isentaria de toda culpa. Ela vira o sorriso nos lábios de seu tio se alargar quando lançou diante dele a verdade, no dia da viagem de seus pais. — Matou os meus pais e como não conseguiu se livrar de mim, achou que poderia me vender para aquele demônio? — Te mataria de bom grado se essa fosse minha vontade, mas percebi que podes ser mais útil para mim viva. Sabes o que minha aliança com Lord Byron me rendeu? Achas que tem outra importância a não ser deixar que ele te f**a até que tenhas um filho? Perguntou a si própria como o aguentou por tanto tempo. Compreendeu que havia pessoas que não amavam ninguém, nem a si mesmo, seu tio era uma delas, ele não amava o irmão, tampouco a própria filha. Sua repulsa por ele apenas crescia. — Como podes dizer-me isso? Ele desceu olhos por seu corpo e depois caminhou ao seu redor. — Sim, és uma bela mulher, mas nada diferente do que encontramos em bordéis. — Murmurou ele com certo desprezo. O silêncio da noite havia lhe dado coragem, não ouvia-se o som estridente que as armaduras fazia quando os soldados se movimentavam, todos os criados haviam se recolhido. Sabia que se não tentasse agora, talvez nunca mais teria chances de vingar-se de seu tio. Hipólita deu um empurrão em Fredis e jogou-se por cima do dele quando o corpo do homem alcançou a cama. Ele ainda conseguiu acertá-la com um tapa, a agressão foi devolvida no mesmo instante quando ela fechou o punho atingindo-o em cheio no meio do seu rosto, o estalo que fora ouvido vinhera do nariz do homem. Se movendo depressa ela fechou a mão esquerda sobre o pescoço dele, enquanto usava a outra para desembainhar o punhal que carregava junto a ela. — Me largue miserável! — Ele exigiu em um fio de voz, os olhos arregalados fitavam o punhal temerosamente. Seu tio a puxou pelos cabelos, enrolando seus dedos neles e retorcendo sua cabeça para o lado, antes de enfiar o punhal em sua garganta Hipólita fora interrompida por Fredis que segurou seu pulso. — Não tenho a certeza de que todo ser nasce com o m*l, mas tu sempre consegue aflorar esse sentimento r**m nas pessoas, Fredis. — Brandou ela, com a voz aguda. Eles estavam em uma disputa mortal, Fredis tinha ciência de que ela estava disposta a matá-lo, viu isso em seus olhos, ela não hesitaria, por isso o aperto no braço de Hipólita ficou mais rude, enquanto o tio tentava salvar-se da lâmina afiada e tentar fazer com que ela enfiasse em si mesma. Quando percebeu que não conseguiria sair sozinho da armadilha que Hipólita o envolvera, Fredis resolveu gritar por ajuda, mas antes de ele o fizesse, a mulher soltou seu pescoço e com a mão livre manuseou o punhal com as suas mãos. Hipólita vira a ponta da lâmina adentrar pela garganta de Fredis, perfurando sua pele, assim como vira ela sair rapidamente, dilacerando sua traqueia, fazendo seu sangue espalhar-se por todos os lados. O calor da vida fora esvaindo-se lentamente de seu tio. — Que o d***o o receba de braços abertos meu tio! — Falou Hipólita, tremendo de alívio. Os olhos de assombro do seu tio estavam fixos nos dela, sangue fresco vazava por sua garganta e boca. Podia sentir o gosto dos respingos do sangue dele em seus lábios. — Ele morreu… — Fora uma das últimas coisas que disse antes de desabar sobre a cama. Em um mero sussurro, repetiu. — Ele morreu.
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