Isabella
Depois de um primeiro dia de mudanças relativamente agitado, as coisas parecem estar entrando nos eixos. Hoje minha mãe e Grace sairam cedo para ir a galeria resolver algumas coisas sobre o novo projeto delas, e eu fiquei encarregada de fazer algumas compras para a casa.
Saio do chuveiro e me enrolo numa toalha, indo até o quarto para trocar de roupa. Opto por uma roupa mais casual — calças jeans e um sueter largo de mangas bege. Desfiz minhas malas na tarde em que cheguei mesmo, em uma tentativa de meu cérebro aceitar que vou viver aqui a partir de agora.
Há algumas notas de dólar no balcão da cozinha, junto das chaves de um dos carros e de um bilhete dizendo para eu dar uma volta pela cidade. Pego tudo e vou até o carro; desta vez não sofro nenhum acidente de percurso até chegar nele.
Ao sair da entrada, percebo que apesar de fazer algum tempo desde que vim a Seattle, ainda consigo me localizar muito bem pela cidade. Talvez minha adaptação não seja tão difícil quanto imaginei. Me recosto no banco e olho para a casa da minha vizinha, lembrando do acontecido da manhã passada.
É inevitável não ficar tentando imaginar o que ela acha de mim. Se é que ela acha alguma coisa. Talvez aos seus olhos eu seja apenas a nova vizinha. Por algum motivo, tenho pensado mais nela do que gostaria de admitir. Fico me perguntando qual a idade dela, qual faculdade cursa, em quais dias toca na estação.
Não namoro ninguém há um bom tempo. Com o colégio e as aulas de música não sobrava muito tempo para garotas. Agora percebo que vou ter de me adaptar: deixei de ser uma pessoa sem nenhum tempo livre para ser uma que não tem absolutamente nada o que fazer.
Dou partida no carro.
— Tudo bem aí?
Olho para cima e vejo que Madison está se aproximando do meu carro. Faço o máximo para conter o sorriso que tenta tomar conta do meu rosto.
— E posso saber porquê não estaria?
Ela cruza os braços e se apoia na janela do carro.
— Há muitas construções. Você pode acabar se perdendo.
— Não faz muito tempo desde que vim a Seattle, acho que as mudanças não são tão impactantes assim. E como não tenho nada a fazer, resolvi me situar um pouco.
— Bom, então tenho um lugar ideal para você conhecer — Madson diz, abrindo a porta de passageiro do meu carro. — Vamos até o parque florestal.
Lanço um olhar na direção dela, que já está colocando o cinto.
— Não sou muito boa em dar direções. Se incomoda se eu for com você?
— Acho que não — digo, sorrindo.
Fico prestando atenção às direções que Madison dá depois que saímos do condomínio.
— E, então, qual instrumento musical é o seu preferido? — Pergunto, tentando puxar assunto.
— Acho que é meio previsível para você, mas gosto muito do violão. Trabalho com vários instrumentos clássicos por conta da faculdade, mas de modo geral, ele é meu preferido.
Ela ri. Gosto da risada dela. Odeio gostar da risada dela.
Fico surpresa quando sinto ela afastar o cabelo do meu ombro e tocar meu pescoço. Seus dedos deslizam por debaixo da gola do meu sueter, e ela a puxa um pouco para baixo, até o ombro.
— Parece que está cicatrizando bem — ela diz, puxando meu sueter de volta para cima e o ajeitando. Seus dedos deixam um rastro de calor que cobre meu pescoço.
— Não foi nada muito sério — digo, tentando provar que suas ações e sua presença não têm efeito algum em mim.
— E, então, Isabella — ela diz, olhando para mim. — Me conte mais sobre você.
— Hum, não. Isso é tão clichê — digo.
Madison sorri.
— Como desejar. Vou descobrir sozinha, então. — Ela se inclina para a frente e começa a sintonizar o rádio do carro nas estações pré programadas. Seus movimentos são tão fluidos; é como se tivesse treinado por anos. — Sabe o que eu descobri ao longo dos anos? Dá pra conhecer bastante uma pessoa pelo tipo de música que ela escuta.
Assim que os primeiros acordes de *Time Lapse; Ludovico Enaudi* ecoam das caixas de som, ela parece surpresa. Sei que não aparento gostar de música clássica, mas eu realmente adoro o gênero. Estico o braço e abaixo o volume.
— Então você gosta de música clássica contemporânea — ela diz. Um sorriso brinca em seus lábios. — Eu gosto dessa composição.
Parte de mim acha que ela está dizendo isso apenas para que eu não me incomode. Ela nem deve saber de qual composição se trata.
— Ah é? — Digo. Quero que ela prove. — Qual é o nome dessa composição?
— Time Lapse — ela diz. — Ela fez parte da trilha sonora do filme Intocáveis.
A resposta dela me deixa surpresa. Ela conhece mesmo.
— Você gosta de música clássica?
— Vamos lá, não se baseie apenas no que toco na estação. Você deve imaginar que meu gosto musical vai muito além disso.
Sinto a adrenalina percorrer meu corpo enquanto olho para ela. Estou gostando disso, mas também estou com raiva de mim mesma por estar gostando disso. Algumas garotas já tinham me deixado nervosa antes, mas elas não eram como Madison.
Volto a segurar o volante com as duas mãos e presto atenção no trânsito.
Gosto de gêneros musicais variados, mas geralmente alguns desses são apreciados apenas por um grupo seleto de pessoas. É raro eu encontrar alguém que já ouviu falar de metade dos compositores que gosto.
Meu pai e eu costumávamos ficar acordados à noite, ouvindo algumas das músicas dele juntos enquanto ele tentava tirar os acordes no piano. Ele o descreveu para mim uma vez, dizendo: “Bella, você sabe que um compositor tem talento de verdade quando seus trabalhos são a definição da perfeição."
Com o passar do tempo, quando comecei a tocar e realmente prestar atenção nas composições, finalmente compreendi o que ele quis dizer.
— Você já foi a algum concerto? — Pergunta Madison, trazendo-me de volta a realidade.
Não sei a razão, mas à medida que conversamos, termino contando a história inteira do meu pai. Ela escuta atentamente, interrompendo apenas para me dizer onde e quando dobrar. Conto a ela sobre nossa paixão pela música. Conto sobre como meu pai morreu de repente e de maneira extremamente inesperada de um ataque do coração. Não sei por que continuo falando, mas não consigo parar. Nunca fui de falar tão abertamente assim sobre as coisas, em especial com pessoas que m*l conheço. Mas há algo nela que me impele a fazer isso sem nenhuma dificuldade.
— Nossa — digo, ao olhar para a hora. — Tem certeza que esse é o caminho mais rápido para o parque? Foram quase vinte minutos.
Madison pisca para mim e abre a porta do carro.
— Não, na verdade não é.
Ela fez mesmo isso?
Uma brisa gélida começa a ventar quando atravessamos o estacionamento.
— Vamos — ela diz. Então segura minha mão e me puxa para que eu vá mais rápido em direção à entrada.
Estamos sem fôlego e rindo quando avançamos pela trilha arborizada. Puxo meu sueter na tentativa de me aquecer, mas quando Madison passa a mão nos seus fios escuros e eles caem de volta perfeitamente, eu me esqueço da temperatura gélida, e meu rosto se aquece. O sorriso dela desaparece quando olhamos uma para a outra. Ainda estou tentando me acostumar às reações que tenho perto dela. O mínimo toque e os gestos mais simples afetam meus sentidos de uma maneira intensa demais.
Limpo a garganta e desvio o olhar enquanto seguimos caminho.
— Você não foi para a faculdade hoje? — Pergunto, tentando parecer indiferente as ações dela.
— Não, estou livre pelos próximos dias. — Ela diz. — Acho que você pode se considerar uma garota de sorte.
— Porque?
— Bom, vejamos. Talvez pelo fato de que assim você pode aproveitar minha companhia enquanto faz um passeio relaxante.
Madison sorri e dá um pequeno empurrão no meu ombro.
Não acredito que estou mesmo me tornando uma dessas garotas que se deixa levar. Odeio tanto isso.
Passamos um bom tempo ali, imersas na natureza enquanto conversávamos sobre coisas triviais e observávamos o fluxo crescente de pessoas.
Quando estamos saindo do parque, Madison me diz para ir na direção oposta da que tínhamos vindo. Dirigimos por talvez dois quarteirões inteiros antes de ela me instruir a dobrar à esquerda… no nosso condomínio. Levamos vinte minutos na ida e menos de um na volta.
— Nossa! — Digo, quando paro o carro na entrada de casa. — Nunca teria conseguido encontrar o parque florestal sem sua ajuda. Muito obrigada pela sua gentileza, jovem dama.
Eu meio que fico esperando ela sorrir, mas ela só fica parada, olhando para mim com aqueles olhos intensos.
— Aconteceu alguma coisa? — Pergunto, nervosa.
Ela balança a cabeça e segura suavemente meu queixo com a mão. Fico chocada com minha própria reação, com o fato de eu a deixar fazer isso. Ela observa meu rosto por alguns segundos enquanto meu coração acelera no peito.
— Você é uma graça — diz, segurando alguns fios do meu cabelo nos dedos e os colocando atrás da minha orelha. Ela abre a porta e sai do carro.
Faço o mesmo em silêncio, tentando assimilar os últimos segundos da minha vida. Como foi que aquilo aconteceu? Por que é que eu fiquei lá parada, deixando que ela fizesse aquilo?
— Bom, agora preciso ir. — Ela diz. — Foi um prazer ajudá-la.
Madison sorri antes de se virar e caminhar em direção a sua casa. Eu me encosto no carro, e olho na direção dela, sentindo um emaranhado de emoções.
[…]
Durante a tarde, tento encontrar alguma coisa para me ocupar — que não seja pensar na minha vizinha —, mas como não tenho a menor ideia do que deveria estar fazendo, vou dar outra volta pela casa.
Embora tudo seja muito moderno e confortável, não posso deixar de lembrar da nossa antiga casa. No fim, acho que vai levar um tempo para meu cérebro registrar que essa é minha casa agora.
Passo as horas seguintes no meu quarto enquanto Grace e minha mãe estão na cozinha preparando alguma coisa. Assim, mato o tempo visitando as redes sociais. E quando estas se esgotam, largo o celular e pego meu violão perto da escrivanhia.
Saio do quarto e vou até a varanda de casa, onde tem um banco com algumas almofadas. O sol do final de tarde da um ar acolhedor ao ambiente.
Me sento e posiciono o violão sobre a perna. Na noite passada, tinha retomado meu trabalho com uma das minhas músicas, então resolvi dar continuidade hoje.
Enquanto estou dedilhando as cordas, um movimento chama minha atenção e vejo Madison sair de casa com algumas caixas nas mãos. Ela as coloca sobre a entrada da varanda, quase praticamente as derrubando no chão. Fico prestando atenção. Como não poderia? Ela é tão perfeita.
Ela me vê observando, e quando ergue o olhar para encarar meus olhos, abre um largo sorriso. Sinto meu rosto corar e desvio meu olhar para o violão em minha mãos.
Tentando parecer calma, começo a tirar alguns acordes e tento focar em minha composição.
— Será que vou poder escutar essa música algum dia? — Madison diz.
Olho para ela, confusa.
— O que?
Seu sorriso desaparece e uma expressão de desculpas invade seu rosto.
— Ai, desculpa. É que eu vi que você estava trabalhando numa…
— Composição.
Ela passa um dedo por seu lábio superior e se aproxima. Minha respiração acelera.
— É… uma composição. Me desculpa, não quis interromper você — Ela se desculpa, sua voz é calma. Eu definitivamente não preciso de um pedido de desculpas.
— Não. Você não me interrompeu. Eu… só fiquei surpresa por você ter vindo até aqui.
— E porque eu não viria quando isso me pareceu tão convidativo?
Ela sorri de novo e, pela primeira vez, noto como agora o tempo parece estar quente. Vejo sua boca se abrir e abro a minha ao mesmo tempo. Então fecho rapidamente, querendo ouvir sua voz mais do que a minha.
— E então, será que vou poder escutar essa música? — Ela pergunta.
— Hã?
Ela sorri e assente uma vez.
— Sua composição, será que vou ter a oportunidade de escutar ela?
— Ah — respondo, olhando para ela e tentando me convencer de que só está sendo simpática. — Talvez quando estiver pronta eu te mostre. Mas não espere muita coisa, ok?
Madison ergue uma sobrancelha, interessada na informação.
— Ah, é? Deixe-me ver. — Ela chega mais para perto de mim e pega minha folha de tablatura antes que eu possa reagir. Um sorriso estampa seu rosto enquanto vê as anotações nas quais venho trabalhando.
Respiro fundo, sentindo meu coração acelerar no peito. Estou gostando desse atrevimento dela, mas, mais uma vez, também estou com raiva de mim mesma por estar gostando disso. Preciso lembrar a mim mesma que não posso me deixar levar assim.
— Estou vendo que você tem talento pra isso — Ela diz, sorrindo.
— Posso ainda não trabalhar com isso, mas eu realmente amo o mundo musical. Mas e você, como adquiriu essa paixão pela música?
— Essa é uma história para outro dia. — Madison pisca para mim e sorri. Então olha para o céu. — Nossa já anoiteceu. Nem vi as horas passarem.
A brisa gélida do início da noite começa a ventar, e como antes a mão dela encosta no meu rosto para afasta uma mecha de cabelo que havia grudado na minha bochecha. A mão está fria, mas no momento em que seus dedos roçam minha pele, eu me esqueço da temperatura gélida, e meu rosto se aquece.
— Bom, preciso ir. Tenho um compromisso em algumas horas. — Ela diz, apontando para as caixas largadas em sua varanda.
— Bom — Sorrindo, faço uma mensura dramática. — Muito obrigada por deixar que eu aproveitasse mais um pouco da sua ilustre companhia.
Fico esperando que ela faça algum comentário. Mas ela apenas fica me olhando e me dá um meio sorriso, como se estivesse esperando que eu dissesse algo mais. Como não falo nada, coloca a mão no meu rosto, e lentamente se inclina para a frente. E mais uma vez, fico chocada com minha própria reação, porque deixo que faça isso. Ela acaricia meu rosto por alguns segundos enquanto meu coração dispara no peito.
Fecho os olhos e sinto sua respiração enquanto seus lábios encostam delicadamente na minha bochecha e ficam alguns segundos até ela soltar a mão e se afastar.
Fico em silêncio, tentando entender o que está acontecendo aqui. Por que essa garota age assim? Por que é que deixo ela fazer essas coisas? E por que sinto uma conexão tão grande com uma pessoa que eu não conhecia até alguns dias atrás?
— Você definitivamente é uma graça, Isabella — Ela abre um sorriso tão gentil que eu fico perdida sem saber como devo reagir a isso.
Madison levanta a mão para mim e sorri quando se despede, mas então ela para e fica me olhando.
— Vou precisar fazer uma viagem na quarta. E devo voltar tarde na sexta… coisas de família — ela diz, balançando a mão desdenhosamente. — Estava imaginando se você tem planos para sábado à noite?
Encosto o ombro na coluna da varanda e olho na direção dela. Tento ficar normal, mas por dentro estou gritando de entusiasmo.
— Vai mesmo me obrigar a admitir que não tenho absolutamente nada para fazer aqui? — Digo.
Ela sorri.
— Ótimo! Tenho convites para um evento no 19th.
— O que é o 19th? — Pergunto. Eu não tenho certeza se estou falando com ela, comigo mesma, ou com esse maldito coração acelerado.
— Um… bar? — Ela responde, sorrindo. — Vou tocar com a minha banda às dez. Então te pego as nove. Acho que você vai gostar. — Ela se vira e vai até sua casa. Então pega as caixas na varanda, entra no carro e segue seu caminho.
— Tchau — sussurro, vendo o carro partir. Não desvio o olhar até ela virar a esquina da nossa rua e ficar bem distante.
Bom, de uma coisa tenho certeza. Eu estou oficialmente me tornando uma garota que se deixa levar.
O quão perigoso isso pode ser?