C A P Í T U L O 1
A noite em Neo-Veridia nunca conhecia a escuridão absoluta. O céu, permanentemente banhado por um gradiente elétrico de magenta, violeta e âmbar, refletia o pulso incessante de centenas de arranha-céus colossais que rasgavam a atmosfera densa e cintilante da metrópole. No nonagésimo andar da imponente Torre Lumina, o vento gelado das alturas sussurrava contra o parapeito de vidro temperado da cobertura privativa. Maya m*l sentia a brisa cortar seus braços nus. Seu vestido de seda branca pura, de caimento imaculado e decote em linhas geométricas precisas, contrastava de forma brutal com a paleta sombria e artificial da cidade que se estendia abaixo.
Ela segurava uma taça de cristal lapidado com champanhe intocado, observando as pequenas bolhas subirem em ritmo compassado, como se marcassem os últimos segundos de sua autonomia. Diante dos espelhos do salão e sob a vigilância velada dos drones da imprensa que orbitavam o perímetro da torre, Maya personificava a perfeição estética da alta sociedade corporativa. Seus cachos negros e densos caíam em cascatas esculpidas sobre os ombros, brilhando sob o reflexo dos painéis luminosos que projetavam anúncios flutuantes pelas nuvens. No entanto, por trás da postura altiva e dos lábios pintados em tom neutro, seu peito arfava sob um peso invisível e asfixiante.
Ela não era uma herdeira celebrando uma vitória iminente; era a peça central de uma transação multimilionária, pronta para ser sacrificada no altar das grandes corporações.
— Você está quieta demais esta noite, Maya. E o silêncio atrai perguntas que não queremos responder — a voz ecoou às suas costas, suave, porém fria como aço polido.
Ethan deu um passo firme para fora da penumbra do salão de gala, pisando no piso de mármore translúcido da varanda. Vestido em um terno escuro sob medida, impecavelmente cortado para destacar seus ombros largos, ele exibia a elegância aristocrática inata de quem fora forjado para liderar impérios desde o berço. Os cabelos loiros estavam perfeitamente alinhados, e seus olhos azuis glaciais varreram a paisagem urbana antes de se fixarem nela com uma intensidade proprietária.
Ele se aproximou com passos lentos e medidos, pousando a mão esquerda sobre o ombro desnudo de Maya. O toque de Ethan era firme, calculado e pesado — uma lembrança física do pacto irrevogável que os prendia.
— Os conselheiros de administração, os chefes de conglomerados e a imprensa internacional já estão ocupando o salão principal — murmurou ele, inclinando a cabeça de modo que sua respiração roçasse a têmpora dela, sem carregar um pingo sequer de calor humano. — O acordo de fusão entre a Lumina Corp e as Indústrias Vance foi selado pelos nossos pais quando éramos apenas crianças. Hoje é apenas a formalização pública. Não há margem para hesitação, nem espaço para dúvidas. Nós somos a espinha dorsal desta cidade.
— A espinha dorsal ou os carcereiros, Ethan? — respondeu Maya, mantendo o olhar cravado no mar de néon dos setores inferiores. — Esse noivado nunca foi sobre amor, cumplicidade ou respeito mútuo. É apenas uma blindagem fiscal e monopólio bélico travestidos de matrimônio para acalmar o mercado financeiro.
— Ilusões sentimentais não sustentam dinastias, querida — replicou Ethan, sem perder a compostura, embora a mandíbula quadrada tenha se contraído por uma fração de segundo. — O que importa é o controle. Juntos, comandamos a malha de telecomunicações, os recursos hídricos sintéticos e a segurança de todo o quadrante leste. Qualquer outra preocupação é apenas capricho passageiro.
Antes que Maya pudesse confrontar a frieza implacável do noivo, um ruído quase imperceptível de solas pesadas quebrou a rigidez do momento. Uma presença crua, magnética e carregada de perigo fez o ar ao redor parecer subitamente mais rarefeito. Maya não precisou virar o rosto para saber quem havia burlado a suposta segurança impenetrável da torre; o arrepio característico já percorria sua nuca como uma corrente elétrica.
Liam emergiu da lateral da passarela de manutenção, movendo-se com a agilidade despreocupada de quem se infiltrava em covis de leões apenas pelo prazer do desafio. Seus cabelos ruivos e volumosos brilhavam como brasas vivas sob o clarão magenta dos arranha-céus, emoldurando um rosto de traços marcantes e pele salpicada por discretas sardas. Ele vestia uma camisa preta com botões abertos no peito e mangas dobradas nos antebraços, sem gravatas ou insígnias nobres.
Liam era o sangue da Dinastia Crimson — os rebeldes, a linhagem dissidente que comandava os distritos subterrâneos e ameaçava implodir o império corporativo de Ethan. Mas, para Maya, ele representava os encontros clandestinos em docas abandonadas, o toque proibido em meio à fumaça e o único vislumbre de verdade em uma vida moldada por mentiras.
Com uma audácia que beirava o delírio, Liam ignorou por completo a proximidade letal de Ethan e se posicionou ao lado direito de Maya. Ele levantou a mão direita, roçando os dedos calejados e quentes pela pele macia da nuca dela, segurando-a com uma i********e crua e possessiva que arrancou um suspiro involuntário dos lábios da jovem.
— Deixe que os velhos assinem pergaminhos digitais e ergam muralhas de ações na bolsa, Maya — a voz de Liam soou rouca, aveludada e profunda, ressoando diretamente ao lado do ouvido dela. Seus olhos cor de âmbar queimavam com uma paixão indomável. — Eles podem comprar o seu sobrenome, a sua linhagem e as manchetes dos telejornais de amanhã. Mas eles não têm o seu coração. E nunca vão ter a sua alma.
A tensão na varanda atingiu o ponto de ruptura. Ethan não recuou nem um centímetro; sua mão apertou ainda mais o ombro de Maya enquanto seus olhos azuis faiscavam em direção ao intruso ruivo. A composição dos três na sacada, banhados pelas luzes púrpuras e douradas da cidade, parecia uma pintura viva de guerra e desejo: de um lado, a estabilidade inabalável e o poder frio do herdeiro legítimo; do outro, o caos magnético e o fogo voraz do dissidente; e, no centro, Maya, dividida entre o dever de sangue e a promessa de liberdade.
— Você é notavelmente imprudente por pisar na minha cobertura desacompanhado, Liam — disse Ethan, com a voz descendo a um registro grave e perigoso. — Um simples comando biométrico meu no painel e o esquadrão tático invade este terraço antes que você consiga respirar outra vez.
— Tente a sorte, herdeiro — retrucou Liam com um meio-sorriso cínico e desafiador, sem afastar os dedos da nuca de Maya. — O seu precioso sistema de inteligência artificial foi construído sobre redes que o meu pessoal hackeava antes de você aprender a ler gráficos corporativos. Se você realmente acreditasse que ela pertence a você, não precisaria de um contrato de quinhentas páginas e guardas armados para mantê-la ao seu lado.
— Parem. Os dois — ordenou Maya, a voz soando com uma autoridade cristalina que cortou o embate no mesmo instante.
Com um movimento calculado e gracioso, ela deu um passo firme à frente, desvencilhando-se simultaneamente do aperto gélido de Ethan e do toque febril de Liam. Ela se virou de frente para ambos, sustentando o olhar de cada um com determinação ferrenha. Olhou para Ethan e viu a promessa de sobrevivência, prestígio e o império que sustentava sua família; olhou para Liam e viu o abismo sedutor da revolta, a paixão desenfreada e a destruição de tudo o que conhecia.
Maya ajeitou a seda do vestido branco, ergueu o queixo e pousou a taça de champanhe sobre a balaustrada de vidro. Naquele segundo, ela compreendeu que não aceitaria ser tratada como troféu nem como refém naquele jogo de tronos urbano.
— A música de a******a já começou no salão — declarou ela, os olhos brilhando com uma chama perigosa. — Os acionistas e abutres da imprensa estão esperando para ver qual de nós vai demonstrar fraqueza primeiro. Guardem suas armas para o salão, senhores. Porque hoje, a jogada final será minha.
Sem esperar por uma resposta de nenhum dos dois, Maya deu as costas à noite de neon e caminhou a passos firmes em direção às portas espelhadas do banquete, ciente de que a guerra pelo destino de Neo-Veridia acabara de começar.