Juro que não foi de propósito, que nem pensei nisso, que quando quis perceber o meu joelho já estava cravado no abdômen duro do Pablo.
Eu até me assustei, quando o vi tossir no chão tentando recuperar o fôlego.
Ai Deus! Por mais que isso me incomodasse, eu tinha acabado de dar uma joelhada não apenas no meu ex-filho da pu*ta, mas também num policial. No final, vou acabar passando a noite na prisão.
Mas por que ele teve que me tocar? Por que ele tinha que olhar para mim como se estivesse preocupado comigo?
Ele não pode voltar depois de quatorze anos, nove meses e três dias, e acredita que ainda tem o direito de me embalar nos seus braços e sussurrar:
— Pequena morena, você está bem? Como se todos esses anos de distanciamento silencioso não tivesse acontecido.
Respondi como qualquer animal ferido que, cansado de ser pisoteado, atacando antes de ser atacado.
O toque dos seus dedos percorrendo o perfil do meu rosto até parar nos meus lábios sangrando provocou, no seu rastro, um turbilhão de emoções que me reduziram a nada. Com uma única carícia, Pablo desintegrou o muro de uma mulher sem coração que me custou tanto construir.
Sentimentos mistos tentam obter o controle da situação. Nos seus braços, e respirando aquela fragrância amadeirada com um toque doce que tanto o caracterizava, deixei-me levar por aqueles momentos em que eu estava tão estu*pidamente feliz com ele.
No entanto, esses bons momentos não demoram a se tornar o que sempre foram na realidade.
Você era apenas a cad*ela gorda que aqueceu a cama dele! Eu grito interiormente me lembrando do que eu significava para ele.
E como se eu abrisse a caixa do trovão, toda a mer*da que passei depois que ele foi embora me atingiu, me deixando infeliz. As provocações, a zombaria, a humilhação, e então... Então o pior de tudo.
A sua partida me mergulhou tanto na lama que não consegui perceber o que estava por vir e quando tudo explodiu ao meu redor, não tive espaço para ação.
Tal foi o estado de choque em que caí que m*al me lembro de tudo o que aconteceu, muito menos do custo das decisões que tomei.
Talvez eles estivessem corretos ou talvez não. Mas a única coisa de que tenho certeza é que, se ele não tivesse me largado, eu nunca teria feito o que fiz.
Tarde demais para voltar atrás...
Tarde demais para Pablo tentar reparar todos os estragos que fez...
Tarde demais para recuperar o que perdi.
Por isso, submersa no tsunami de dor que me arrastou aos piores momentos da minha vida, deixei aquele animal moribundo agir e não raciocinar. Porque aquele abraço que procurava me confortar só conseguiu o que contrário. O seu toque me cortou como facas em brasa e eu tive que me afastar dele antes que o ferimento fosse fatal novamente.
— Não me toque de novo, seu desgraçado! Eu grito prestes a chorar.
— Que dia*bos você está fazendo, Maria?! A voz estrondosa de Luis é elevada pelo murmúrio surpreso de todos os espectadores que estão assistindo como acabei de agredir um policial.
Não resisto quando, com um movimento brusco, Luis me vira, me encosta na parede mais próxima e começa a algemar os meus pulsos atrás das costas.
— O que você estava pensando, garota? Luis repreende perto do meu ouvido para que ninguém pegue a nossa conversa. — Você não me deixou escolha. Por*ra! Por que você está me forçando a fazer isso? Sara vai me matar quando descobri.
— Me desculpe... eu... eu...
Os olhos de Luis se enchem de preocupação ao ver como toda a bravura, que sempre ostento, escapou pelo esgoto, revelando a garota quebrada que ele colocou sob a sua proteção no dia em que me conheceu.
Esse é o poder que Pablo tem sobre mim. Quando o tenho por perto, me transformo naquela menina tímida e insegura que achava que o garoto mais popular e desejado do bairro havia se apaixonado por ela. E ela pensou que se aquele adônis pudesse ver o que ela escondia, um futuro bom e feliz seria possível.
Eu não queria voltar a ser tão crédula e se tinha que passar um tempo na cadeia para isso preferia, porque a outra opção era pior, muito pior. Era o mesmo que pena de morte e eu já havia passado muito tempo no corredor da morte.
— Deixe ela ir! Pablo sibila, pairando sobre nós.
Não consigo olhar para ele, mantenho os olhos fixos nos pés descalços.
Preciso de um momento para procurar María 2.0, a própria covarde se escondeu e agora mais do que nunca deve aparecer.
— Inspetor-chefe Linares, ela tem o seu ponto. Eu interrompo numa voz gutural.
— Eu não preciso da sua ajuda!
Esta não é a versão de Maria que eu queria lançar. Eu estava procurando a mulher forte que não se arrepia diante de ninguém e nem a faladeira que diz qualquer travessura num momento de tensão máxima.
— Não brinque com a minha paciência, Maria! Para o seu próprio bem, mantenha a po*rra da boca fechada. Luis sentencia a sua advertência, puxando as algemas que prendem os meus pulsos atrás das costas. Esse movimento repentino gira os meus ombros para trás me fazendo gemer de dor.
Eu passei dos limites e o melhor para todos será que eu cale a boca.
— Se mandar ela calar a boca de novo, eu quebro os seus dentes. Pablo diz, imediatamente.
Pablo empurra Luis agora ficando atrás de mim. O seu aviso se assemelhava a um rosnado, até senti o seu peito vibrar.
— Inspector Quintero, não se esqueças que está falando com o seu superior. Esclarece Luís com absoluto controle da sua, mais do que evidente, raiva. Vou ignorar a sua falta de respeito pelas circunstâncias muito particulares que os unem. Ele aponta. — Mas se você quer que Maria saia bem dessa situação complexa, deve fazer exatamente o que eu digo.
M*al percebo a relutância com que Pablo aceita as ordens de Luis. Estou muito s*******o tentando não ofegar quando sinto como o corpo enorme de Pablo me cobre completamente. Sem salto sou bem baixinha comparada a ele, e acabo batendo a testa na parede antes de ceder à tentação de me apoiar no seu peito quente.
Quando foi a última vez que estive tão perto dele? O meu cérebro se recusa a buscar a resposta na linha do tempo da minha vida, agora turva graças à torrente de endorfinas que me transformam num saco de hormônios superexcitados.
Troco suspiros enquanto Pablo mexe nas algemas, tentando evitar que deixem marcas nos meus pulsos. E ao fazer isso, acaricia a pele fina dos meus braços gerando doces arrepios que rodopiam na parte inferior do meu abdome.
— Ótimo, no final fico com t***o cercada de fofoqueiros que me assistem ser presa! As minhas suspeitas serão verdadeiras e estou perdendo os parafusos.
O desejo, no entanto, desaparece tão rapidamente quanto surgiu quando Pablo passa a mão no meu ombro e, desviando o meu rosto da parede, começa a me conduzir em direção ao carro blindado. Agora eu me viro para olhar para ele, e paro.
Enquanto o seu rosto se encolhe de desgosto, não consigo esconder o medo que aperta minha garganta.
— Mer*da, fui presa de novo!
— Confie em mim. O idi*ota sussurra tão perto do meu ouvido que os cabelos da minha nuca se arrepiam com o calor da sua respiração.
Confia nele? Prefiro colocar a minha vida nas mãos de um macaco com uma romã na boca, do que confiar no Pablo novamente.
Mas engulo a raiva e me forço a fingir que estou muda. Já estraguei tudo o suficiente por hoje.
Sento-me silenciosamente dentro do carro e massageio meus pulsos depois que Pablo me liberta. Não olho para nenhum dos dois homens sentados à minha frente. Não quero ver a cara de nojo de um ou a preocupação m*al fingida do outro.
— É isso que vamos fazer. Luis começa a dizer com o tom sério que o caracteriza.
— Maria, com todas as testemunhas que viram como você agrediu um agente da autoridade, era impossível não prendê-la, mesmo que fosse figurativamente. Eu levanto o meu rosto como uma mola e olho para ele confusa. — Vamos seguir algumas ruas mais a frente, para que ninguém veja, você saindo. Ele me assegura, me devolvendo os sapatos para que os calce. Não vou apresentar o auto dessa prisão, pois, para fins oficiais, ela nunca existiu. Mas aviso a vocês dois de uma coisa, não aceitarei mais nenhum número de vocês. Vocês tem idade para saber as consequências dos seus atos e não vou colocar a minha carreira profissional em risco por causa de dois adultos que se comportam como crianças.Vocês entenderam?
— Sim. Pablo e eu respondemos em uníssono, enquanto o carro para num lado da calçada e, olhando pelas janelas blindadas, vejo o supermercado que fica a apenas algumas ruas do meu escritório.
Constrangida, saio sem dizer mais nada e novamente algumas algemas se agarram ao meu pulso. Só que desta vez não é o metal frio que impede os meus movimentos, mas dedos fortes e quentes que queimam a minha pele.
— Aqui, você esqueceu disso. Pablo me diz, me entregando o meu celular. — Você pegou! Eu o acuso sabendo que estava dentro da minha bolsa.
— Não faça isso... É impossível falar com você se você tiver o meu contato bloqueado. Diz ele calmamente. — A propósito, você e eu temos que conversar sobre segurança cibernética, você não pode mais ter a sua data de nascimento como senha de bloqueio.
— Olha, não sei se você é burro ou se está se enganando, mas repito que não tenho o que falar com você. Você entende ou devo soletrar para você? Eu garanto a ele e o seu sorriso presunçoso consegue me deixar louca. — Afaste-se de mim! Eu ordeno, puxando-me para fora do seu alcance.
— Me obrigue! Ele me provoca, dando um passo e eliminando a distância que eu havia colocado entre nós. Não me mexo, fico parada encarando ele com os olhos e ignorando como os nossos corpos se atraem por inércia. — Vamos morena! Faça-me ficar longe de você... Estou ansioso por isso.
— Idi*ota arrogante, se você não estivesse usando seu uniforme de policial agora eu estaria afiando seus dentes contra o asfalto. Eu o repreendo, fazendo ele rir que chama a atenção de todos as pessoas que se aglomeram ao nosso redor.
— Inspetor Quintero! Luis fole com meio corpo do lado de fora do carro da polícia com uma cara carrancuda.
— O nosso corpo a corpo vai ter que esperar, morena. — Pablo põe o boné do uniforme e piscando para mim antes de escondê-los atrás dos óculos escuros, ele se despede. — Vamos nos falar em breve.
Assim que Pablo se dirige para o carro, começo meio andando, meio fugindo daquele dem*ônio que personifica tudo de que devo fugir para o bem da minha sobrevivência. Ele é a personificação da maçã proibida do Éden.
A fruta madura que saciará a minha fome... E isso me condenará ao sofrimento eterno.