EPISODIO 6

1654 Words
Hipnotizada pelo balanço do mar, respiro fundo, transportando-me para aquela manhã de mais de dois meses atrás, quando o passado se tornou presente, tentando estragar o futuro. Eu não odeio as segundas-feiras, eu odeio as quartas-feiras. Sou uma das raras pessoas que não gosta de estar em terra de ninguém e aquele dia em que você está tão perto, mas, ao mesmo tempo, tão longe do fim de semana me dá raiva. E, claro, aquele idi*ota do Pablo resolveu entrar na minha vida numa quarta-feira. — O idi*ota me mandou uma solicitação de amizade no f*******:. Quebro o silêncio com um sorriso malicioso. — Ele é patético. Foi isso que eu pensei. O que ele pensou? Que eu ia adicionar ele como amigo com o entusiasmo de uma criança de doze anos? — E o que ele fez? Melissa pergunta, tão incrédula quanto eu quando vi a notificação. — Não dei atenção a ele e no dia seguinte ele fez o mesmo no i********:. Eu também não aceitei, mas ele tem a conta pública e... — Você fofocou?! Por favor, diga-me que você entrou no perfil dele para ver se Deus foi justo com ele e o puniu com alopecia severa e uma barriga que o impede de ver os pés. Melissa implora com os dedos cruzados. Sem responder, tiro o telefone da bolsa e entro no perfil de Pablo, o que, infelizmente, tenho feito muito ultimamente. — Veja por si mesmo. Sugiro, oferecendo para ela o meu celular. — Por*ra! Como Pablito cresceu! Melissa suspira antes de se jogar na parte de trás do balanço e juntos olhamos para as várias fotos do adonis que se transformou o Pablo. — Ele era bom antes, mas agora... Ela engole sem terminar a frase enquanto com o dedo passa de uma foto de Pablo com o peito nu para outra em que mostra como tudo nele se tornou grande. — Ele é lindo... Que pena que esse corpo está grudado na cabeça desse louco! — Pois é… Concordo com a cabeça, tentando parar de olhar para a covinha que se forma no queixo de Pablo toda vez que ele sorri. Não quero me lembrar daqueles momentos em que afundei o meu polegar naquele buraquinho antes de me derreter nos seus lábios macios. — E qual o motivo do súbito interesse dele em entrar em contato com você? A não ser que você... Olho para Melissa por ousar insinuar que fui eu quem a procurou. Prefiro virar freira a ir atrás daquele pedaço de lixo. — Ok… Ok… Você não tem que olhar para mim desse jeito. Mas eu não entendo porque agora e não antes. Muitos anos se passaram, o que mudou? — O que mudou é que ele voltou para Madrid. Aparentemente, eles o designaram como inspetor na mesma delegacia que você não imagina quem. — A sério? Só pode ser brincadeira, ele não pode estar na mesma delegacia que aquele... — Oh, está sim. E ''aquele'' tem nome… Luis. E não fale assim, porque ele é casado com a Sara, e ela é minha amiga. — É, o seu conceito de amigos não é o mesmo que o meu. — Uau, garota! As coisas não são assim. O que menos quero neste momento é defender que a ajuda que o Luís e a sua mulher, uma psicóloga clínica especialista em sexologia, me deram foi adequada ao estado em que me encontrava quando, felizmente, eles entraram na minha vida. — Desculpe, eu ainda não entendo como você pode chamar isso de terapia, ir a um clube de se*xo para dormir com estranhos. — Por isso você é psicopedagoga e ela sexóloga. Mas vamos lá, se você quiser, volto a explicar como foram minhas sessões com a Sara e deixamos o assunto Pablo para outro dia. A esta altura, aceitei que Melissa nunca entenderá que ir ao Delirio, o espaço liberal a que ela se refere, foi mais um passo no meu crescimento pessoal, embora não o único. Graças a Sara, pude iniciar a minha cura recuperando o que havia sido tirado de mim... Poder. E não qualquer um, mas o mais importante. O poder sobre mim mesma. A minha jornada para o empoderamento pessoal passou por muitas paradas onde cultivar autoestima, empatia e inteligência erótica andaram de mãos dadas. Delirio foi apenas um cenário controlado onde pude colocar em prática as capacidades que sempre tive dentro de mim e que a Sara me ajudou a descobrir. Com o tempo, o se*xo deixou de ser um tabu para mim e passou a fazer parte da minha essência. Delirio deixou de ser um lugar onde eu era obrigada a sair da minha zona de conforto e passou a ser o lugar certo para dar rédea solta aos meus desejos sem ser julgada por eles. — Vamos manter o foco. Diz Melissa, abanando o ar numa dolorosa tentativa de apagar a nossa discussão. — Se eu ouvi corretamente. Ela continua num tom mais amigável. — Pablo trabalha com o seu amigo. — Mais ou menos. Luis é o superior do Pablo e no churrasco que ele comemorou o seu aniversário, nós acabamos nos encontrando. Ao que parece, ele o manteve sob a sua proteção até que termine de se ajustar a Madri, embora, pelo que ele me disse, Pablo se adaptou muito bem, até já tem uma carteira de sócio do Delirio. Digo a ela para sua surpresa. — O Pablo também gosta do esquisito? — Uau, Mel! A maneira como você diz parece que somos desviantes. Só porque você só gosta de dormir com alguém que ama, sair ou o que quer que seja, não significa que o resto de nós, que fazemos isso por puro prazer, seja louco. — Po*rra, Maria, eu não estou dizendo isso. Você sabe o que eu quero dizer. Eu sei disso e devo admitir que, embora Melissa não consiga me entender, ela sempre me respeitou. É nisso que consiste a amizade, não em serem duas cópias idênticas, mas em serem duas pessoas que, para além de todas as coisas que as diferenciam, se amam e se apoiam. E se de uma coisa eu tenho certeza é que o apoio da Melissa é incondicional. Mais que a minha amiga é minha irmã. Uma irmã branda e puritana, mas ainda assim uma irmã. — Mel, não sei se o Pablo é tão aberto quanto eu e também não perguntei a ele. — Pelo menos você vai perguntar a ele o que ele quer de você, certo? — Eu ainda não pensei nisso. Eu sorrio relutantemente. — O imb*ecil, além de meter-se na minha calcinha, quer ganhar o meu perdão. Como se as suas explicações de me*rda resolvessem alguma coisa! — E o que você vai fazer? — Além de colar a minha calcinha com cola industrial? Eu pergunto, e Melissa acena em resposta. — Bem, ignorar até que ele se canse. Eu rio de novo da minha piada sem graça, e vendo a cara de sesta de Melissa, decido parecer um tanto formal e contar a ela sobre o super plano que idealizei para assustar Pablo e que funcionou até ontem. — Eu usei o Enzo. Não tenho orgulho disso, mas como dizem… Tempos de desespero exigem medidas desesperadas. — Ah, meu Deus, você me assusta. — Não se preocupe, não foi tão r**m assim. Simplesmente, a oportunidade se apresentou e eu aproveitei. Suspiro antes de continuar contando a ela o que fiz. Enzo estava recolhendo suas coisas na minha casa e quando o acompanhei até a porta, lá estava Pablo estacionando a sua motocicleta. Então agarrei Enzo pela camisa e dei um beijo no seu nariz para deixar claro para Pablo que eu não estava disponível. — Você beijou o Enzo na boca?! Eu entendo a sua pergunta. O cerne da questão aqui não era que eu fingi continuar com Enzo para afastar Pablo, mas que eu o beijou. Nunca. Não beijo na boca nenhum dos meus relacionamentos... Ninguém... Jamais... Não posso... Isso está muito acima dos meus limites. A última pessoa que beijei sem sentir que a terra se abria aos meus pés é a mesma de quem tentei desesperadamente fugir. — Enzo ficou tão surpreso quanto você. Garante Melissa. — E olhando para trás e vendo a cara de Pablo de poucos amigos, ligou os pontos. Ele ficou bravo comigo e com razão, então tive que contar a ele quem era Pablo e o que havia acontecido entre nós. Mas pelo menos consegui o que procurava. Pego o meu celular das suas mãos e abro o w******p. Eu vou para a conversa com o nome "Filho da pu*ta" e mostro a mensagem que ele me enviou naquele dia. — Você merece ser feliz. Eu não vou incomodá-la mais. Melissa começa a rir do apelido com o qual salvei Pablo, porém, ela para de rir assim que lê as últimas mensagens que ele me enviou ontem. — Temos que conversar assim que você voltar para Madrid. Desta vez, você não vai se livrar de mim tão facilmente. — Talvez seja melhor falar com ele, Maria. Da mesma forma é a única maneira de você se livrar dele. Ela diz, olhando de novo enquanto eu brinco com as pulseiras no meu pulso. — Não, isso não, Mel. Não posso… — Você não pode ouvir as suas explicações ou não quer fazer isso no caso? — Você é odiosa. Eu protesto sobre o quão bem ela me conhece. — Mas a realidade é o que é e ninguém poderá mudar o que aconteceu. Mel. Continuo séria. — Nem eu vou conseguir perdoá-lo e, quando chegar a hora, ele também não vai conseguir me perdoar. É tolice remover o passado e acreditar que podemos ter um futuro. — Maria, você merece ser feliz. Silencio a minha resposta, porque ambos sabemos que não é assim. Eu não mereço ser perdoada... E muito menos amada.
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